Boogarins pega onda errada no salto sombrio do álbum ‘Lá vem a morte’


Grupo de rock psicodélico formado em 2012 em Goiânia (GO), terra de ídolos sertanejos, Boogarins pega a onda errada no salto sombrio do sintético terceiro álbum, Lá vem a morte, lançado ontem, 7 de junho, nos Estados Unidos, sem aviso prévio. No anterior álbum de estúdio, Manual ou guia livre de dissolução dos sonhos (2015), Benke Ferraz (guitarra), Fernando Almeida Filho (voz e guitarra), Raphael Vaz (baixo) e Ynaiã Benthroldo (bateria, instrumento originalmente tocado no quarteto por Hans Castro) já tinham mostrado que sabem seguir a cartilha do rock psicodélico brasileiro – a ponto de ter conquistado território nos Estados Unidos, país onde a banda faz turnê neste mês de junho de 2017 em rota que se estende até 8 de julho e abarca o Canadá.


Contudo, Lá vem a morte – sucessor do álbum ao vivo Desvio onírico (2017) na discografia da banda – soa mais sedutor no conceito, que versa sobre o cinismo e a hipocrisia das relações humanas no caótico mundo atual, do que na audição em si das oito faixas compostas por três temas-vinhetas pautados por ruídos (Lá vem a morte pt. 1, Lá vem a morte pt. 2 e Lá vem a morte pt. 3) e cinco músicas, das quais somente uma, Elogio à instituição do cinismo, já era previamente conhecida.


A questão é que as músicas soam chatas em grande maioria – característica que a artificial arquitetura sonora do disco, gravado com dose maior de programações eletrônicas e sintetizadores (pilotados pelo baixista Raphael Vaz), não atenua. Pelos títulos das músicas (Foi mal, Onda negra, Polução noturna, Corredor polonês), já é possível perceber o astral baixo do repertório quase todo composto solitariamente pelo vocalista e guitarrista Fernando Almeida Filho. O baterista Ynaiã Benthroldo é coautor de uma única faixa, Lá vem a morte pt. 3, gravada com participação do cantor carioca Bonifrate, um dos mentores do recentemente extinto grupo fluminense Supercordas.


Em ascensão na receptiva cena norte-americana, para qual acenou com recente single composto em inglês (A pattern repetead on, música não incluída no álbum), Boogarins é grupo superestimado na subdesenvolvida cena indie do Brasil justamente por conta da projeção no exterior.


Álbum gravado na Manchaca Roadhouse, no Texas (EUA), com produção do guitarrista da banda, Benke Ferraz, Lá vem a morte provavelmente vai manter inalterado o status da banda em mercado em que o cinismo – conceitualmente combatido pelo grupo no cancioneiro do disco – é matéria-prima que alimenta egos e exalta artistas de forma excessiva, em nome de suposta modernidade. Só que o álbum Lá vem a morte jamais legitima o culto ao Boogarins, soando como desvio onírico do grupo. (Cotação: * *)


(Crédito da imagem: capa do álbum Lá vem a morte, do grupo Boogarins)

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