“Z” fica a meio caminho entre o drama familiar e a epopeia operística

Cena de “Z – A cidade perdida
No início do século 20, escalado para cartografar os limites inexplorados da Amazônia entre o Brasil e a Bolívia, o coronel britânico Percy Fawcett (Charlie Hunnam) fica fascinado com a região – e com a lenda de uma civilização perdida e riquíssima em ouro, no coração da floresta. Convencido da existência da cidade mítica de Z, ele busca desesperadamente localizar suas ruínas, sem sucesso. Anos depois, de volta à Inglaterra de mãos abanando, torna-se alvo de chacota em sua comunidade: Z era uma fantasia, virou um fracasso, agora é uma obsessão.

Teimoso, Fawcett volta à floresta, agora na companhia de um assistente, Henry Costin (Robert Pattinson) e do filho Jack (Tom Holland), de quem estava afastado há muitos anos. Pai e filho se reencontram em um cenário improvável. E, em 1925, todos desaparecem. É esta a premissa de “Z – A cidade perdida”, que estreou nos cinemas na quinta-feira. O diretor é James Gray, de “A imigrante”, “Amantes e “Os Donos da Noite”. O filme concilia um drama de personagens e uma narrativa épica, mas fica no meio do caminho entre “Indiana Jones” (na tentativa de imprimir uma atmosfera de aventura) e “Aguirre – A cólera dos deuses” (em seu aspecto mais autoral). Também está longe da força visceral do recente “O abraço da serpente”, de Ciro Guerra, outro filme sobre a “febre da selva”.

Assista abaixo ao trailer de “Z – A cidade perdida”:

Gray desperdiça uma oportunidade de tematizar o confronto entre os pontos de vista do explorador e dos nativos selvagens: a estranheza diante do outro é unilateral e eurocêntrica, com um discurso condescendente em relação aos indígenas. Por outro lado, a narrativa explora de forma bastante sutil os laços e conflitos afetivos entre Fawcett e seu filho, ou entre Fawcett e sua mulher. O “micro” – o melodrama familiar, as nuances emocionais e psicológicas dos personagens, as cenas intimistas – prevalece assim sobre o “macro” – a epopeia ambiciosa e grandiloquente, com algo de trágico e mesmo operístico. É um filme ambicioso e que merece ser visto, mas que não ultrapassa determinadas convenções e estereótipos.

James Gray inspirou-se no livro “Z”, do jornalista da “The New Yorker” David Grann. Houve uma controvérsia quando Hermes Leal, autor de outro livro sobre Fawcett – “O verdadeiro Indiana Jones – O enigma do Coronel Fawcett”, acusou Grann de plágio, sem maiores consequências. Na época (2009), já existia o projeto do filme, que seria protagonizado por Brad Pitt. O Coronel Fawcett também foi objeto de um dos primeiros livros de Antonio Callado, “Esqueleto na Lagoa Verde”, sobre as expedições realizadas para localizar Fawcett – ou seus restos mortais.

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