Álbum ‘Nem tudo pode se ver’ renova mistura brasileira do Picassos Falsos


Quarto álbum do grupo carioca Picassos Falsos, Nem tudo pode se ver retoma com vigor trajetória iniciada há 32 anos. Em 1985, ano em que Humberto Effe (voz), Gustavo Corsi (guitarra), Abílio Rodrigues (bateria) e Caíca (baixo) criaram no bairro da Tijuca o grupo então nominado O Verso, havia muro alto que separava o rock da MPB enquanto a dupla de compositores Michael Sullivan & Paulo Massadas produzia baladas românticas em escala industrial para abastecer o repertório de cantores que, alheios à dicotomia reinante no mercado, surfavam na onda das rádios populares.


Em 1986, enquanto o trio carioca Paralamas do Sucesso se libertava do estigma de Police brasileiro com alta dose de brasilidade do álbum Selvagem?, o quarteto conterrâneo veiculava pela bendita Rádio Fluminense fita demo com músicas como Quadrinhos (Humberto Effe e Pequinho). Citando Ismael Silva (1905 – 1978) e Tim Maia (1942 – 1998) em Carne e osso (Humberto Effe, Abílio Rodrigues, Caíca e Gustavo Corsi), o grupo ajudou a demolir o tal muro nos dois álbuns dessa fase inicial, Picassos falsos (1987) e Supercarioca (1988), ambos editados pelo Plug, selo roqueiro da mesma gravadora, BMG-Ariola, que despejava a produção padronizada de Sullivan & Massadas no mercado.


Nessa altura, o grupo já havia sido rebatizado como Picassos Falsos e o baixista Caíca já havia sido substituído por Luiz Henrique Romanholli, desde 1987 integrante fixo da banda. Apesar da aura cult adquirida pelos dois álbuns, ou talvez mesmo por causa dela, a trajetória do Picassos Falsos não seguiu a rota do sucesso massivo. O grupo se dissolveu em 1990, retornou à cena em 2001 – quando o mercado fonográfico brasileiro já começava a ser diluído pela pirataria física e virtual de discos – e três anos depois lançou álbum de inéditas, Novo mundo (2004), que sofreu os efeitos do esfacelamento da indústria.


Seguiu-se novo hiato (não oficial) até 2012, ano em que o grupo começou progressivamente a voltar à cena indie, celebrando o culto aos dois álbuns iniciais e, na sequência, produzindo e lançando (na web) músicas inéditas como Nunca fui a Paris (Humberto Effe e Mauro Sta. Cecília, 2015). O processo de retorno atinge o ápice neste segundo trimestre de 2017 com o lançamento do quarto álbum da banda, Nem tudo pode se ver, cujo homogêneo repertório rebobina Nunca fui a Paris com a voz de Fernanda Takai entre boas músicas inéditas.


Curiosamente, no momento em que inicia a promoção do disco independente viabilizado através da plataforma de financiamento coletivo Embolacha, o quarteto vira trio com a saída amigável do baterista e fundador Abílio Rodrigues, anunciada em maio. De todo modo, o toque da bateria de Abílio está eternizado no álbum, marcando rocks como Enigma (Humberto Effe) e Nem tudo pode se ver (Humberto Effe, Luiz Henrique Romanholli, Gustavo Corsi e Abílio Rodrigues), trunfo da inspirada safra inédita, inclusive pela letra que versa sobre a superexposição cotidiana de pós-verdades e mini-certezas na sociedade das redes.


E por falar em letras, Nem tudo pode se ver dá nova chance ao universo pop de reconhecer Humberto Effe como um dos sagazes letristas do rock nacional. Se bem que é redutor enquadrar o som do Picassos Falsos na moldura clássica do rock. A mistura pop brasileira se faz ouvir em O que fiz foi gostar (Humberto Effe), faixa que soa intencionalmente fora da ordem ao combinar o toque da viola caipira de Ricardo Vignini e a voz quente de Duda Brack com uma pegada nordestina e certa psicodelia que, ao fim, ecoa o som de Alceu Valença na década de 1970.


Única regravação de repertório que segue trilho autoral, Pavão mysteriozo (Ednardo, 1974) se alinha com o clima de O que fiz foi gostar e alça voo no toque pesado da guitarra noise de JR Tostoi, hábil produtor do disco, seguindo rota inversa ao injetar rock na música nordestina. Ambientada no universo do blues, para o qual é conduzida (inclusive) pelos teclados do músico convidado Humberto Barros, Misturando (Humberto Effe e Alvin L) tem levada que evoca A história de Lily Braun (Edu Lobo e Chico Buarque, 1983).


Indômita (Humberto Effe) brilha no salto das estrofes cantadas quase a cappella por Humberto Effe para o refrão de pegada roqueira (“Por que você não quer brilhar? / Por que você não quer saltar comigo?!”). Introduzida por batida funkeada, Vou à Vila (Humberto Effe e Mauro Sta. Cecília) cai em suingue carioca, sem clichês e com a adição dos recorrentes teclados de Humberto Barros, enquanto Um pouco mais perto (Humberto Effe) se ambienta aos poucos em clima folk com certa tensão condizente com a inquietação existencial da letra.


Por fim, Mudança (Humberto Effe) fecha o disco com o grito primal desse tal de rock’n’roll. O que não deixa de ser irônico em se tratando de álbum de um grupo cultuado justamente por alterar os cânones do rock com mistura brasileira. Mas esse encerramento também ratifica que Nem tudo pode se ver flagra o Picassos Falsos no tempo presente, seguindo em frente, com direito a programações eletrônicas pilotadas na dose certa pelo guitarrista Gustavo Corsi – e sem nostalgia da modernidade vivenciada há 30 anos. (Cotação: * * * *)


(Créditos das imagens: Picassos Falsos em foto de Letícia Romanholli. Capa do álbum Nem tudo pode se ver. Arte de Humberto Effe)

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