Lutas, sonhos e fé de Milton brotam no roteiro do show ‘Semente da terra’


Show que Milton Nascimento estreou em 25 de março, em Belo Horizonte (MG), Semente da terra é vendido para o público como espetáculo político. A qualificação midiática é redundante, já que o cancioneiro do compositor carioca de alma mineira sempre foi, em si, político. Tanto que várias músicas são recorrentes nos roteiros dos últimos shows do cantor. Quando Elis Regina (1945 – 1982) deu voz a Milton em 1966 ao gravar a Canção do sal (Milton Nascimento), já se ouviu ali um compositor de aguçada consciência social. Semente da terra – show que chegou à cidade do Rio de Janeiro na noite de sábado, 3 de junho de 2017, em apresentação que lotou a casa ora intitulada KM de Vantagens Hall – fez germinar novamente as lutas, a fé e os sonhos embutidos por Milton em obra que jamais se enquadrou em rótulos e gêneros da música brasileira.


Canção do sal, aliás, figurou no roteiro politizado apresentado por Milton sob direção musical do violonista e guitarrista mineiro Wilson Lopes, destacado integrante da banda formada com Beto Lopes (violão), Lincoln Cheib (bateria), Alexandre Ito (contrabaixo), Widor Santiago (metais) e Barbara Barcellos (vocal).


Cantora mineira descendente de índios, a propósito, Barbara Vasconcellos soltou a voz já na abertura do show, ao puxar o sucesso Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967) antes da entrada do cantor em cena, e deu o providencial reforço vocal a Milton ao longo da apresentação em que brilhou ao solar Sentinela (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1969) com notável segurança e entendimento da canção. O suporte de Barbara ficou evidente já no segundo número do show, A terceira margem do rio (Milton Nascimento e Caetano Veloso, 1990), música de letra engenhosa que evoca a prosódia do escritor Guimarães Rosa (1908 – 1967), autor de conto homônimo da composição.


Por conta do momento político do Brasil, o show Semente da terra fez brotar significados atuais para versos como “Tenha fé no nosso povo que ele resiste / … / Tenha fé no nosso povo que ele acorda”, cantados pelo artista ao reviver Credo (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1978). Já Coração de estudante (Wagner Tiso e Milton Nascimento, 1983) bateu na memória popular como hino de momento em que o Brasil estava mais unido por uma causa, um sonho político, gerando coro na plateia.


Na sequência, o arranjo de Idolatrada (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1975) ecoou o jazz presente na obra de Milton de forma personalíssima. Canção enraizada no fértil solo rural do Brasil, O cio da terra (Milton Nascimento e Chico Buarque, 1977) foi precedida na apresentação carioca por fala em que Milton discorreu sobre o significado indígena do título Semente da terra. No dicionário da nação indígena Guarani Kaiowá, situada na região Centro-Oeste do Brasil, Semente da terra quer dizer Ana Nheyeyru Ivi Yvy Renhoi, nome com o qual o artista foi batizado em 2010 por líderes espirituais dessa tribo após show feito em Campo Grande (MS).


Radicado em Juiz de Fora (MG) desde 2016, após 36 anos morando no Rio de Janeiro (RJ), Milton sempre deu voz a vários tribos, fazendo pioneiras conexões com representantes políticos dos oprimidos povos de países da América Latina. O que legitimou as inclusões no roteiro de San Vicente (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1972) e de Sueño con serpientes (Silvio Rodríguez, 1975), música cubana gravada por Milton em 1980 – em dueto com a cantora argentina Mercedes Sosa (1935 – 2009) – e já incluída pelo artista no roteiro do show anterior, Tarde (2015), do qual Semente da terra também herda o samba Me deixa em paz (Monsueto Menezes e Aírton Amorim, 1952), número feito com o toque do violão do próprio Milton. Assim como fazia em Tarde, Milton reproduziu pensamento do dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht (1898 – 1956) antes de cantar Sueño com serpientes em Semente da terra, show idealizado por Danilo Japa Nuha.


Ponto alto da apresentação carioca da turnê nacional, a interpretação de Clube da esquina 2 (Milton Nascimento, Márcio Borges e Lô Borges, 1972) fez ecoar a voz divina do grande cantor da década de 1970 e 1980. Número de menor empatia popular, Coração civil (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1981) bombeou desejos utópicos de um mundo melhor com a fé e com a gana que pautam Maria Maria (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1976), número que encerrou o show antes do bis. Dois números depois de Coração civil, Lágrima do Sul (Milton Nascimento e Marco Antônio Guimarães, 1985) deixou cair mais gotas de esperança entre memórias de lamentos de dor e solidão.


Nas lembranças políticas do show Semente da terra, Milton Nascimento é o som, o sonho, a cor e o suor de um povo que mistura dor e alegria sem perder a fé na vida. É, em essência, uma força que nos alerta. (Cotação: * * * 1/2)


Eis o roteiro seguido em 3 de junho de 2017 por Milton Nascimento na estreia carioca do político show Semente da terra na casa KM de Vantagens Hall, na cidade do Rio de Janeiro:


1. Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967)

2. A terceira margem do Rio (Milton Nascimento e Caetano Veloso, 1990)

3. Credo (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1978)

4. Coração de estudante (Wagner Tiso e Milton Nascimento, 1983)

5. Idolatrada (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1975)

6. Me deixa em paz (Monsueto Menezes e Aírton Amorim, 1952)

7. O cio da terra (Milton Nascimento e Chico Buarque, 1977)

8. San Vicente (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1972)

9. Milagre dos peixes (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1973)

10. Sentinela (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1969) – solo de Barbara Vasconcellos

11. Caçador de mim (Luiz Carlos Sá e Sérgio Magrão, 1980)

12. Pensamento de Bertolt Brecht / Sueño com serpientes (Silvio Rodríguez, 1975)

13. Lilia (Milton Nascimento, 1972) – trecho no toque do violão de Wilson Lopes

14. Coração civil (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1981)

15. Clube da esquina 2 (Milton Nascimento, Márcio Borges e Lô Borges, 1972)

16. Lágrima do Sul (Milton Nascimento e Marco Antônio Guimarães, 1985)

17. Canção do sal (Milton Nascimento, 1966)

18. Maria Maria (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1976)

Bis:

19. A lua girou (tema tradicional gravado por Milton em 1976)

20. Nada será como antes (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1972)

21. Caxangá (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1977)


(Créditos das imagens: Milton Nascimento em fotos de Mauro Ferreira na casa KM de Vantagens Hall, em 3 de junho de 2017, na estreia carioca do show Semente da terra)

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