Trio canta o Nordeste sem toque de ousadia, mas sem macular biografia


Trio Nordestino canta o Nordeste (Biscoito Fino) é o 43º álbum do grupo que teve alterada a formação diversas vezes sem, contudo, mudar a ideia original de propagar a música nordestina genericamente rotulada como forró com devoção aos cânones do ritmo. Como o título Trio Nordestino canta o Nordeste já sinaliza, este 43º álbum funciona como um best of de hits da região do Brasil que gerou Luiz Gonzaga (1912 – 1989), cuja obra foi a inspiração do trio criado em 1958, em Salvador (BA), por Lindú (voz e sanfona), Coroné (zabumba) e Cobrinha (triângulo), todos já mortos.


A benção do Rei do baião ao grupo seria dada no início dos 1960, quando o Trio Nordestino já tinha se apropriado legalmente do nome do efêmero trio que Gonzagão formara em 1957, com a presença do então iniciante Dominguinhos (1941 – 2013). Foi na década de 1960 que o grupo lançou o primeiro álbum, Trio Nordestino (1963), marco inicial de obra fonográfica recém-disponibilizada para audição no site oficial do trio integrado atualmente por Luiz Mário (filho do fundador Lindú, na voz e no triângulo), Coroneto (neto do também fundador Coroné, na zabumba) e Beto Sousa (apresentado como afilhado de Lindú, na sanfona).


Desse álbum seminal de 1963, o Trio Nordestino rebobina Não tá certo, não (Gordurinha, 1963), título menos batido de um repertório calcado em hits mais óbvios como Bate coração (Cecéu, 1980), xote associado à voz valente de Elba Ramalho.


Disco feito sem ambição artística, Trio Nordestino canta o Nordeste cumpre a função de difundir as tradições do estilo de forró conhecido como Pé de serra sem dar polimento especial ao repertório formado basicamente por sucessos que extrapolaram as fronteiras nordestinas.


Eficaz quando cai no suingue de temas como O canto da ema (Alventino Cavalcante, Ayres Vianna e João do Valle, 1954) e A dança do xenhenhem (Antônio Barros, 1973), o Trio Nordestino faz Súplica cearense (Gordurinha e Nelinho, 1960) sem o devido fervor, ausente também do canto de Zeca Pagodinho, convidado da gravação.


Carcará (João do Vale e José Cândido, 1965) voa com certa pegada mais por conta do instrumental arretado do que pelo canto de Lucy Alves. Enfim, o Trio Nordestino canta a terra natal sem um oportuno toque de ousadia, mas tampouco sem macular a biografia do grupo que, em 2018, festejará 50 anos de vida. (Cotação: * * *)


(Crédito da imagem: capa do álbum Trio Nordestino canta o Nordeste. Projeto gráfico de Branca Escobar)

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