Sem ficar preso ao gueto, Sapiência se firma no rap afro de ‘Galanga livre’


Nome em ascensão no universo do hip hop brasileiro, Rincon Sapiência – nome artístico do cantor e compositor paulistano Danilo Albert Ambrosio, criado na periférica Zona Leste de Sampa – cai até no samba no primeiro álbum, Galanga livre (Boia Fria Produções), já disponível nas plataformas digitais e com edição em CD prevista para chegar ao mercado fonográfico neste mês de junho de 2017. Mas o baticum de Meu bloco (Rincon Sapiência) embasa discurso afiado, mote de Galanga livre, álbum cujo título se refere ao monarca africano que, escravizado no Brasil, conquistou a liberdade na raça e se tornou Chico Rei, símbolo da afirmação do povo negro.


Com scratches de DJ A.S.M.A., Sapiência narra com liberdade ficcional o enredo do nobre escravo em Crime bárbaro (Rincon Sapiência, Tom Zé e Valdez), uma das 13 músicas do disco autoral encerrado com a já conhecida Ponta de lança (Rincon Sapiência, 2016), música que deu visibilidade em dezembro do ano passado ao rapper que está em cena desde 2000.


Álbum gravado com produção musical do artista, Galanga livre exala orgulho negro, alinhando composições no estilo que Sapiência rotula como afro rap. O afrobeat está explícito na cadência de Amores às escuras (Rincon Sapiência e Gâmbia Beats). A rigor, o rap de Galanga livre tem batida que embute sons da África entre referências de ritmos da black music norte-americana, base da formação musical do artista.


A veia black pulsa em sintonia com a direção musical de William Magalhães, músico da banda carioca Black Rio e nome recorrente no disco, inclusive como convidado vocal de Benção (Rincon Sapiência), exemplo da originalidade das batidas do rap de Sapiência, também perceptível nas faixas de cadência sintética formatada com alta dose de eletrônica, caso sobretudo de Ostentação à pobreza (Rincon Sapiência).


Dá para identificar ecos do R&B e do soul tradicionais na introdução de A volta pra casa (Rincon Sapiência), rap em que o artista rima sobre a sofrida rota diária do ir-e-vir seguida por trabalhadores pobres que moram longe do emprego e que, no caminho, se deparam com todo tipo de violência social. Com os toques dos teclados e da guitarra de William Magalhães, A noite é nossa (Rincon Sapiência) acena para o baile black em clima romântico.


Aberta pelo toque roqueiro da guitarra de Robson Heloyn, Vida longa (Rincón Sapiência) bate na tecla de temas como o racismo velado com discurso afirmativo que saúda a democracia, o rap e o próprio gueto do qual emerge Sapiência. “O gueto sempre quis / Que chore só guitarras / Tipo Jimmy Hendrix / Onde há fogo, há fumaça / Sinto pelo faro / Infelizmente Bolsonaro não é tipo raro”, rima Sapiência com sagacidade no rap.


Com liberdade estilística, sem ficar aprisionado no som do gueto (mas ao mesmo tempo valorizando esse som), o artista firma parceria até com a cirandeira pernambucana Lia de Itamaracá, parceira e convidada de Moça namoradeira, rap cujo refrão cirandeiro foi encorpado com as vozes de Jurema Otaviano e Jussara Otaviano.


Reforçando o discurso de afirmação da negritude, A coisa tá preta (Rincon Sapiência, Paulinho da Costa, Octavio Bailly Jr. e Claudio Slom) subverte o sentido negativo da expressão-título do rap enquanto dispara artilharia contra o racismo (velado ou assumido) praticado cotidianamente fora dos guetos.


“Se a liberdade é contra a lei, meu conteúdo é ilícito”, julga o rapper no verso-sentença de Meu bloco. Tire a hipocrisia do caminho que Rincón Sapiência está passando com o discurso livre e com o som lícito que pautam Galanga livre, álbum que firma o artista na cena do Brasil. (Cotação: * * * *)


(Crédito da imagem: capa do álbum Galanga livre, de Rincon Sapiência)

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