Sons do mundo em extinção: do samba-jazz-joyceano ao pessoa zen

A sangria prossegue mas Temer não larga o osso. Pior para todos, incerteza que aumenta, ainda mais com um Congresso desmoralizado, sem credibilidade alguma para votar reformas e menos ainda para escolher um presidente. Daí bater na tecla de que o caminho para o Brasil se reinventar passa por eleições diretas e gerais. Janela de oportunidade que se abre.

Enquanto o impasse político continua, os investimentos em música diminuem e criadores e produtores se viram. Mesmo sem patrocínio, a 28º edição do Prêmio da Música Brasileira vai acontecer, dia 19 de julho, no Teatro Municipal do Rio, este ano homenageando Ney Matogrosso. Foi o que, na semana retrasada, o criador e diretor Zé Maurício Machline anunciou em jantar de adesão ao projeto que, este ano, vai acontecer com investimento dele e do trabalho voluntário de artistas, produtores, técnicos e demais envolvidos na grande rede que envolve um evento desse porte.

Também sem seus principais apoiadores, mas com o aval da prefeitura e do comércio local, está de pé a nona edição do Bourbon Festival Paraty. Será no próximo fim de semana, entre os dias 9 e 11 de junho, jazz, blues, instrumental brasileiro em show gratuitos e ao ar livre, espalhados por diferentes locais da cidade histórica. No palco principal, da Praça Matriz, vão se apresentar, entre outros, o trompetista americano Wallace Roney, o grupo Bell Brazil (com participação de Filó Machado), Leo Gandelman & Julio Bittencourt Trio, o gaitista suíço Grégoire Maret e o 3×1, projeto que reúne os músicos Mestrinho, Pipoquinha e Alex Buck. A programação completa do evento e o desabafo de seu criador e produtor, Edgard Radesca, podem sem conferidos no site oficial do festival: aqui.

No Rio, a quase octagenária OSB, com seus 83 músicos sem receber salário há sete meses, faz neste fim de semana concertos-manifestos com o objetivo de arrecadar verbas para seu sustento. Hoje, na Escola de Música da UFRJ (com “doação livre” do público); em, amanhã, na Sala Cecilia Meireles (R$ 50, e aceitando doações para que músicos da Orquestra Sinfônica Brasileira).


@@@@@

Em meu velho e em extinção mundinho discográfica, ainda mais para quem optou por correr fora do mainstream, até que a semana discográfica foi cheia. Sete CDs físicos, o DVD que sobrara da passada e ainda um álbum duplo transferido para o HD. Muitas horas gastas e saldo razoável, entre confirmações e surpresas.

Confirmação de Joyce Moreno em “Palavra e som”, que a Biscoito Fino lança no Brasil após a edição japonesa em 2016 (selo Rambling). Produção dela com Kazuo Yoshida, gravado e mixado em março do ano passado por Carlos Fuchs no estúdio Tenda da Raposa, é disco autoral, com direito a subtítulo, “Na boca do cantor, toda palavra dança”. Estes são versos da canção que dá nome ao álbum, com letra e música da própria, que assina sozinha dez das 13 faixas. Nas três em parceria, vai do veterano Paulo César Pinheiro (em “Casa da flor”) ao emergente João Cavalcanti (na toada “Dia lindo”, beleza reforçada pelo canto de Dori Caymmi, o filho de Dorival abençoando o letrista filho de Lenine), e, numa das surpresas, encontra o “fantasma” de Torquato Neto (em “O poeta nasce feito”, poema que o tropicalista de Teresina suicidado aos 28 anos em 1972 enviara ao amigo Ronaldo Bastos, que, agora, repassou-o para a amiga em comum).

Palavras que dançam com o samba jazz que predomina, em meio a valsa (“Mar e lua”), bossa para um bairro carioca quase nunca lembrado (“Humaitá”), toada caipira (“Ave Maria Serena”). Joyce (voz e violão), Hélio Alves (piano), Tutty Moreno (bateria) e Rodolfo Stroeter (baixo) formam o quarteto que gravou as bases, com eventuais participações em cinco faixas. O guitarrista Lula Galvão (que também toca violão na já citada “Dia lindo”) sola com invenção na declaração de amor à música que é “Mingus, Miles & Coltrane” – a letra ilustra o efeito libertador da obra desse trio de contemporâneos na fase mais revolucionária do jazz. “Na 75”, única sem letra, mas com os vocalises característicos de Joyce, traz o trombone baixo de Mattis Cederberg. Enquanto um coro de dez vozes, a percussão de Paulino Dias (tantan), o bandolim de Pedro Amorim e o violão 7 cordas de Alfredo Del Penho engrossam o caldo de “Sambando no apocalipse”. É o que poderíamos classificar como um samba desabafo, de protesto, no qual o ritmo é o antídoto contra os podres poderes.

@@@@@

Mais confirmação em “A mil tons” (Maritaca), duo de flauta (Léa Freire) e piano (Amilton Godoy) interpretando dez temas instrumentais do paulistano que criou o Zimbo Trio e a pioneira escola de música Clam. A mesma dupla tinha trocado os papéis quatro anos atrás, em “Amilton Godoy e a música de Léa Freire”, disco no qual o mestre confirmava o grau atingido pela instrumentista e compositora que tinha 16 anos quando começou a se destacar no Centro Livre de Aprendizagem Musical.

A cumplicidade e a amizade de décadas transbordam nos dez temas de Godoy, música inserida no que conhecemos como jazz brasileiro. Vem de diferentes períodos, conta-me o texto de divulgação. Algumas dos anos 1970 (“Choro”, “O batráquio”, ); uma inédita, “Três irmãos”, homenagem do mano Amilton aos seus dois irmãos também pianistas Adylson e Amilson; e o tema que o Zimbo sempre usou na passagem de som, “Teste de som”. Boa viagem.

@@@@@

Também instrumental e de mais um duo, Gileno Santana (trompete) & Tuniko Goulart (violão), “Inevitável” (Caligola Records) confirma a impressão deixada pela audição digital três meses atrás. Os dois, músicos brasileiros radicados em Portugal, são hábeis em seus instrumentos, passeando por repertório na maioria próprio, entre choro, samba e baião. Mas o disco é prejudicado pelos breves e didáticos comentários que antecedem cada faixa. Fica parecendo um programa de rádio ou podcast, que pode fazer algum sentido para usar em escolas, mas a audição do disco é, inevitavelmente, prejudicada pelas interrupções constantes.


@@@@@

Entre as surpresas, está “Pop banana” (Biscoito Fino), disco no qual a cantora cabo-friense Júlia Vargas avança em relação ao de estreia. Há dois anos, o CD e DVD “Ao vivo em Niterói” (Coqueiro Verde), creditado a Júlia Vargas e os Barnabés, tinha vigor e a curiosidade de regravar quatro músicas da paraibana Cátia de França. Agora, o repertório é na maioria inédito e de compositores novos, salpicado de regravações que também fogem do óbvio e retornam à década de 70 do século XX. Seu timbre forte, com registro que lembra o do setentista Ney Matogrosso (que participa de um dueto em “Pedra dura”, de Ivo Vargas e André Vargas), é valorizado pela instrumentação inusitada, na qual predominam naipe de sopros (arranjados pelo saxofonista, clarinetista e flautista Marcelo Bernardes, que também participou do DVD em Niterói), acordeom, percussões e baixo, com arranjos de Julia e três músicos de sua banda, Gabriel Barbosa (bateria), Marcos Luz (baixo) e João Bittencourt (acordeom). Sem violão ou guitarra, com piano apenas em uma faixa (“A vida não é sopa”, de Marcos Mesmo) e violino ou rabeca em duas outras, Júlia flana com segurança e frescor por uma MPopB que também flerta com o Nordeste. Nela cabem referências do início dos anos 1970 como “Samba jambo” (a dupla Nelson Jacobina e Jorge Mautner no auge), “Lady Jane” (o pop progressivo dos irmãos Nando e o hoje membro da ABL Geraldo Carneiro, lançado pela banda carioca A Barca do Sol em seu disco de estreia em 1974), “Comadre” (uma das primeiras da dupla João Bosco e Aldir Blanc gravadas por Elis, em 1973) e “Mã” (Tom Zé safra “Estudando o samba”, o disco de 1976 ressuscitado por engano por David Byrne). Achados que convivem bem ao lado das canções novas, quatro delas de Claos Mózi, incluindo a faixa-título e de abertura (que cita tanto João Donato quanto Jorge Ben) e as também interessantes “De riso e rosa”, “Sem ciúme” e “Eva Maria” (esta em parceria com Victor Lobo).


@@@@@

Boa surpresa também é “Vendaval” (independente / patrocínio Flavio Belliboni), de Lele Martino. Paulistana que, imagino, deve regular com a faixa etária de Júlia Vargas, seu disco de estreia tem perfil musical similar. MPopB, mais pop do que a colega, com pontuais regravações em meio a cardápio autoral. Nesse caso, da própria, que se perde alguns pontos no quesito intérprete, ganha alguns como compositora, de oito (duas em parceria com Diogo Fráguas) das 11 faixas. Quase sempre no terreno das baladas, que se garantem graças a temas e versos e à boa embalagem instrumental. Em outro paralelo com o disco resenhado antes, também é som de banda, com arranjos e direção musical de Peter Farrell (violão e guitarra), mais Fráguas (violão e guitarra), Carlinhos Noronha (baixo) Eduardo Marques (bateria), Felipe Roseno (percussão) e Guilherme Ribeiro (teclados e arranjos de metais).

Nas três regravações, se Lele pouco acrescenta com a saltitante levada de “Você não entende nada” (Caetano), compensa com sobras na ralentada, visceral e bluesy versão que imprime em “Preciso me encontrar” (Candeia) e na jazzy e “amywinehouseana” para “Get up, stand up” (Bob Marley e Peter Tosh).

@@@@@

O que me leva à terceira surpresa da semana, esta por vir de onde pouco esperava: “Luis Carlinhos canta Bob Marley” (independente). Cantor e compositor carioca que começou a carreira no início dos anos 1990 no Dread Lions, grupo que ficou conhecido negativa e preconceituosamente por seu reggae de condomínio da Barra da Tijuca, Luis Carlinhos mergulha em sua principal referência com sagacidade. É um tributo com sabor de roda de fogueira, instrumental acústico e minimalista. Apenas voz e violão ( Carlinhos), baixos acústico ou elétrico (Lancaster Pinho), bateria (João Viana) e percussão (Léo Mucuri, Marcos Suzano ou João Hermeto) e pontuais participações de outros solistas: incluindo, o trombone de Marlon Sette em “Soul shake down party”); o acordeom de Marcelo Caldi em “Natural mystic”; o violoncelo de Federico Puppi em “Rock it baby” e “Who the cap fit”, o trompete de Leandro Joaquim em “Waiting in vain”; o banjo de Davi Moraes em “Real situation”. Funciona, Bob com sotaque carioca e praieiro.

PS: tentei googlear a capa, mas não aparece, enquanto o site em nome dele cai numa página impublicável. Se sobrar tempo, fotografo e jogo aqui (mas almoço e Juventus versus Real Madrid me aguardam).

@@@@@

Fechando a CDesovada física, “Contos de Beira D’Água” (independente, com patrocínio gov. de SP e distribuição Tratore), de Filpo Ribeiro e A Feira do Rolo, bateu na trave. O grupo, formado por dois paulistanos e dois paraibanos, conta-me o texto de divulgação, tem como referência ritmos e instrumental nordestinos e do interior do Brasil em geral, passando por fandango (entre o Paraná e São Paulo), lundu mineiro. Com exceção de um tema de domínio público, “Melado Venâncio”, o repertório é original, sendo que sete das dez canções têm as mãos de Filpo Ribeiro (voz, rabeca, pífanos, baixo, triângulo…), algumas em parceria com seus colegas no grupo, Marcos Alma (piano, Rhodes, violão 7 cordas, baixo…), Gugué Medeiros (zabumba, ganzá, reco, vocais…) e Diogo Duarte (triângulo e vocais). Soou algo sincero e ingênuo nas duas primeiras doses. Terá nova chance e se mudar de opinião, retomo.


@@@@@

Sim, teve também o DVD que sobrara da semana passada. Maranhense radicada em Brasília, Sanda Duailibe comemora dez anos de carreira no show “Celebrizar” (independente / patrocínio Gov. de Brasília). Cantora correta, músicos idem, pouco ousa no repertório recheado de sucessos radiofônicos de diferentes períodos. Vai de “Lembra de mim” (Ivan Lins e Vitor Martins) a “Epitáfio” (Sérgio “Titãs” Britto); de “Certas canções” (Tunai e Milton) a “Por enquanto” (Renato Russo); de “Primavera” (Cassiano e Silvio Rochael) e “A vizinha do lado” (Caymmi). Melhor quando, entre os extras, com o guitarrista Nelson Faria e o baixista Paulo Dantas, investe em pérola da genial e pouco lembrada Fátima Guedes, “Absinto”.

@@@@@

Na fila dos assédios digitais, “Dois em Pessoa – Vol. II” me obrigou a trabalho extra – os arquivos que recebi para download entraram sem crédito algum; tive que preencher nome das faixas um a um e depois tentar descobrir como botar na sequência certa, e não na alfabética, que o iTunes insiste. Perrengue compensado pelo conteúdo da nova investida do casal Renato Motha e Patrícia Lobato pela obra poética de Fernando Pessoa, dessa vez, atendendo encomenda do distribuidor do disco no Japão, Yoshihiro Narita. Com lançamento no Brasil agendado para julho – e já disponível para pré-venda no site da dupla, aqui -, o álbum repete o formato do primeiro volume, lançado em 2004: é duplo, dividido em disco de canções e de sambas, com 13 faixas em cada.

Não importa a batida, podemos chamar de bossa-zen, a poesia metafísica de Pessoa (e dois de seus heterônimos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis) filtrada pelo minimalismo musical da dupla de cantores e iogues. Motha, que produziu o disco e musicou 25 dos 26 poemas, canta, assina os arranjos, toca violões, mais cordas, baixo e bateria digitais, e manipula sons da natureza e corporais; enquanto Patricia (que musicou a outra, “Qualquer caminho”) canta e toca percussão. E, ao lado deles, muito presente, está o piano de Tiago Costa. Experimente.

Deixe uma resposta