Convertido em sambista, Criolo prega o bem em show de cadências bonitas


Lá veio Criolo com larará messiânico que, entre cadências bonitas do samba, seduziu o público que assistiu à estreia carioca do show Espiral de ilusão em apresentação iniciada no Circo Voador já na madrugada deste sábado, 3 de junho de 2017. “Criolo! Criolo! Criolo!”, reverenciou o público fervoroso, diversas vezes, como se estivesse diante do novo Messias do universo pop brasileiro. “Deus os abençõe”, saudou, cúmplice, o cantor e compositor paulistano, numa das vezes em que ouviu o público gritar o nome do artista.


No palco-púlpito do Circo, Criolo pregou a vitória do bem contra o mal em discursos feitos entre uma música e outra. Sintomaticamente, uma das duas únicas composições cantadas fora do trilho autoral do rapper convertido em sambista foi a apocalíptica Juízo final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, 1973). O fato é que a luz do samba de Criolo chegou aos corações que encheram a pista e a arquibancada do Circo Voador. Um samba, diga-se, devotado às tradições do gênero que, no show, confirmou a grandeza do álbum Espiral de ilusão (2017), lançado em abril.


Após a estreia nacional em Porto Alegre (RS), em 27 de maio, o show Espiral de ilusão chegou à cidade do Rio de Janeiro (RJ) em duas apresentações que, por conta dos ingressos esgotados antecipadamente, viraram três com o show adicional programado para a próxima sexta-feira, 9 de junho, no mesmo Circo Voador.


Com o toque de percussões, violão e cavaquinho, além dos metais que sopraram o clima de gafieira em que se ambientaram Boca fofa (Criolo, 2017) e o inédito samba Língua felina (Criolo, 2017), Criolo reiterou no show a alta qualidade dos sambas compostos para o álbum Espiral de ilusão. Ao lado de Nas águas (Criolo, 2017), samba que emergiu empolgante com baticum afro-brasileiro e com forte coro popular (a ponto de ser repetido na improvisada extensão do bis), Lá vem você (Criolo, 2017) foi confirmado como o grande sucesso do disco com o larará que emula a cadência manemolente dos sambas de Martinho da Vila.


Desaguando no show com o maior exemplo de devoção de Criolo aos cânones do samba da Velha Guarda, inspiração também para a pavimentação de Calçada (Criolo, 2017), Dilúvio de solidão (Criolo, 2017) completou a trinca de instantâneas obras-primas do disco, evocando a elegância lírica de Paulinho da Viola. Em roteiro que contabilizou somente 16 músicas em 17 números (diferença justificada pela oportuna repetição do samba afro-brasileiro Nas águas no arremate do bis), o artista falou quase tanto quanto cantou composições como o samba de breque Filha do Maneco (Criolo, 2017).


Vestido com bata branca que legitimava o tom messiânico do discurso, Criolo pregou o amor sem posse e receitou regras de bem-viver entre um samba e outro. Contudo, na letra de Hora da decisão (Ricardo Rabelo e Dito Silva, 2017), admitiu que às vezes o tempo fecha na favela. E por falar nas comunidades, Cria de favela (Criolo, 2017) abriu a roda baiana e fechou o show, antes do bis, com Criolo dizendo os versos na prosódia falada do coco de embolada, com os vocais mastigados do público-súdito adensando o refrão.


Já o refrão politizado de Menino mimado (Criolo, 2017) – “Eu não quero viver assim a mastigar desilusão / Este abuso social requer atenção / Foco, força e fé, já falou um irmão / Meninos mimados não podem reger a nação” – foi fermento para a massa indignada e motivou outro coro de “Fora Temer!”, ouvido mais de uma vez ao longo do show caloroso.


Sambas que antecederam o álbum Espiral de ilusão na discografia de Criolo, Linha de frente (Criolo, 2011), Casa de mãe (Criolo, 2012), Quatro da manhã (Criolo, 2012) – samba feito pelo artista com inspiração na mãe lutadora – e Fermento pra massa (Criolo, 2014) ratificaram no show que o samba sempre fez parte da composição do cancioneiro de Criolo, rapper convertido em sambista sem perder a fé na humanidade, sobretudo na do público ao qual se dirige como ar messiânico. (Cotação: * * * * 1/2)


Eis o roteiro seguido em 3 de junho de 2017 por Criolo na estreia carioca do show Espiral de ilusão, no Circo Voador, na cidade do Rio de Janeiro (RJ):

1. Nas águas (Criolo, 2017)

2. Lá vem você (Criolo, 2017)

3. Boca fofa (Criolo, 2017)

4. Língua felina (Criolo, 2017) – música inédita

5. Dilúvio de solidão (Criolo, 2017)

6. Menino mimado (Criolo, 2017)

7. Calçada (Criolo, 2017)

8. Hora da decisão (Ricardo Rabelo e Dito Silva, 2017)

9. Espiral de ilusão (Criolo, 2017)

10. Filha do Maneco (Criolo, 2017)

11. Juízo final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, 1973)

12. Casa de mãe (Criolo, 2012)

13. Cria de favela (Criolo, 2017)

Bis:

14. Quatro da manhã (Criolo, 2012)

15. Linha de frente (Criolo, 2011)

16. Fermento pra massa (Criolo, 2014)

17. Nas águas (Criolo, 2017)


(Créditos das imagens: Criolo em fotos de Mauro Ferreira no Circo Voador, no Rio de Janeiro, na madrugada de 3 de junho de 2017, na estreia carioca do show Espiral de ilusão)

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