Senhor cantor, Cordeiro vai do lúdico ao trágico em show com tom do fado


Edson Cordeiro pareceu sinceramente emocionado ao reencontrar o público da cidade do Rio de Janeiro (RJ) na plateia do Theatro Net Rio na noite de ontem, 31 de maio de 2017, na estreia carioca do show Fado tropical. “Foi no Rio que tudo começou”, lembrou o cantor paulista, em alusão à explosão da carreira no início da década de 1990. Aos 50 anos (os últimos dez vividos na Alemanha), Cordeiro está temporariamente no Brasil para fazer show baseado no recente álbum Fado (2017), lançado na Europa e à venda nas apresentações do artista nessa turnê nacional.


Já distante da pirotecnia vocal e visual dos espetáculos iniciais, o cantor se mostrou intérprete maturado pelo tempo, embora, no bis, tenha se permitido cantar Fado tropical (Chico Buarque e Ruy Guerra, 1973) com certo exibicionismo no tom tropicalista de número que acabou em samba com a entrada de quatro ritmistas e que apresentou o último dos três figurinos usados pelo artista no show.


A rigor, a voz rara de contratenor dispensa artifícios visuais e excessos. Somente com os toques da guitarra portuguesa de Wallace Oliveira e do violão de Sérgio Borges, saudados efusivamente em cena pelo cantor como “os maiores músicos brasileiros de música portuguesa”, Cordeiro provou na primeira metade do show que consegue dar voz a fados com a alma geralmente doída do gênero.


No fado Meu amigo está longe (Alain Oulman e José Carlos Ary dos Santos, 1977), gravado há 40 anos pela cantora portuguesa Amália Rodrigues (1920 – 1999), Cordeiro bisou o registro pungente do disco, traduzindo no canto lacrimoso toda a melancolia do tema interpretado de início a cappella, com assumida conotação gay. Fado também propagado na voz referencial de Amália, Estranha forma de vida (Alfredo Rodrigo Duarte e Amália Rodrigues, 1962) mostrou que o sotaque português emulado por Cordeiro resultou natural em cena, sem afetação que empanaria o brilho das interpretações.


Fado encerrado com trinados operísticos, Foi Deus (Alberto Janes, 1952) soou como carta de intenções deste cantor que alternou tons e timbres com naturalidade, como ouvido no navegar trágico de Barco negro (Caco Velho, Piratini e David Mourão Ferreira, 1954) em vocais arrepiantes. A polivalência vocal é tanta que permitiu ao intérprete evocar até o canto agudo da centenária Dalva de Oliveira (1917 – 1972) ao levar a marcha-rancho Estrela do mar (Marino Pinto e Paulo Soledade), iluminada por Dalva em gravação lançada em 1952, para o universo da música portuguesa.


Em Novo fado da Severa (Frederico Freitas e Júlio Dantas, 1931), tema da trilha sonora do primeiro filme falado de Portugal, o choro da guitarra lusitana de Wallace Oliveira potencializou o drama desta Traviata de além-mar.


Com dois atos entrecortados por execução instrumental do vivaz choro Brasileirinho (Waldir Azevedo, 1949), o show ganhou ares mais lúdicos nessa segunda metade. O paletó vermelho do figurino ilustrou bem a mudança de tom nesse bloco em que Cordeiro saudou os afetos nômades de Meu amor é marinheiro (Alain Oulman sobre versos de Manuel Alegre, 1974), celebrou as delícias boêmias de Lisboa à noite (Carlos Alfredo Dias e Fernando dos Santos, 1966), fez caras & bocas ao interpretar Vou dar de beber à dor (Alberto Janes, 1968) e brincou ao cantar com sotaque português o samba Disseram que eu voltei americanizada (Vicente Paiva e Luiz Peixoto, 1940) em alusão à origem lusitana da cantora Carmen Miranda (1909 – 1955), intérprete original do tema.


Na sequência, Cordeiro fez pulsar Coração vagabundo (Caetano Veloso, 1967) – com a bossa do tema evocada no toque do violão de Sérgio Borges – e cantou a balada Lovesong (Robert Smith, Simon Gallup, Porl Thompson, Roger O’Donnell, Boris Williams e Lol Tolhurst, 1989), do grupo inglês The Cure, como se fosse a cantora norte-americana Billie Holiday (1915 – 1959), no melhor estilo Lady sings The Cure, antes de voltar para o universo do fado com Fria claridade (Pedro Homem de Mello e José Marques do Amaral, 1951).


Em qualquer idioma, com qualquer sotaque, Edson Cordeiro é sempre um senhor cantor, como provou ao ir do trágico ao lúdico, com naturalidade e segurança, no retorno aos palcos da cidade do Rio de Janeiro (RJ) com o memorável show Fado tropical. (Cotação: * * * *)


(Créditos das imagens: Edson Cordeiro em fotos de Mauro Ferreira na estreia carioca do show Fado tropical, no Theatro Net Rio, em 31 de maio de 2017)

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