CD de Curumin, ‘Boca’ fala de sexo e política com fraca mordida melódica


Luciano Nakata Albuquerque, o Curumin, sempre sobressaiu na cena musical brasileira pós-anos 2000 como baterista e produtor musical. Mesmo assim, o multi-instrumentista paulistano vem construindo discografia solo, se aventurando na arte de cantar e compor. A obra do artista começou a ser erguida em 2005, ano do primeiro álbum de Curumin, Achados e perdidos. Mas ele nunca brilhou como solista vocal e tampouco como arquiteto de canções. Boca, quarto álbum álbum de Curumin, lançado neste mês de maio de 2017, é disco que vai contentar somente quem abre mão de boas melodias em nome de uma estética musical. O melhor do disco é a arte gráfica criada por Ava Rocha para o CD.


Bem colocada com o auxílio da tecnologia de estúdio, a voz nem chega a ser o problema do disco. O repertório de Boca se debate entre a política de Boca pequena parte 1 (Luciano Nakata Albuquerque) e a sensualidade de Terrível (Luciano Nakata Albuquerque e Russo Passapusso) – sabor já experimentado por quem sorveu Boca de groselha (Luciano Nakata Albuquerque), reggae erótico apresentado como primeiro single do álbum produzido pelo próprio Curumin com Lucas Martins e Zé Nigro, músicos que se revezam nos toques de vários instrumentos.


Há guitarras, baixos e baterias no disco, mas são os sons sintéticos, extraídos do MPC programado por Curumin, que embasam a sonoridade quente do álbum. A eletrônica pesa mais na balança, mas o fato é que até parece orgânico o baticum programado por Curumin para O burguês deu errado – faixa em que Beto Bellinati recita trecho de poema de lavra própria, No slam resistência, em artifício que reitera a falta de melodia em Boca.


No geral, o som de Curumin embute referências brasileiras em mix de timbres e vozes de sotaque universal. Tanto que soa natural a prosódia típica do hip hop norte-americano ouvida na voz do convidado Russo Passapusso em Boca pequena parte 2, parceria de Passapusso com o anfitrião. A propósito, o rapper Rico Dalasam, cantor e parceiro de Curumin em Tramela, arma jogo de palavras no rap em que solta a voz.


Faixa que reforça a ausência de melodia em disco que, para todos os efeitos, foge intencionalmente do formato da canção, Cabeça (Luciano Nakata Albuquerque) potencializa a vocação de Boca para criar climas, habilidade já anunciada na introdução de Bora passear (Luciano Nakata Albuquerque), música que abre o álbum.


Em bom português, o repertório do álbum Boca tem várias músicas pouco sedutoras. Entre elas, Boca cheia (Luciano Nakata Albuquerque e Indee Styla), composição assinada e cantada por Curumin com a espanhola Indee Styla. Aliás, Boca cheia é exemplo de como ótimos músicos e produtores, como Curumin, podem criar sonoridade envolvente que disfarça a falta de inspiração melódica.


No fecho, Paçoca emula o samba de arquitetura mais tradicional, tirando alto partido da malícia e do descontraído reforço vocal de Andreia Dias, Anelis Assumpção, Iara Rennó e Max B.O. – turma que compôs e gravou com Curumin esse samba que destoa do clima de Boca, mas que aponta um caminho musical que o artista poderia ter seguido com mais ênfase neste disco com muito patrocínio (inclusive o do Governo do Estado de São Paulo e o do projeto Natura Musical), muita eletrônica, muito papo, mas pouca música efetivamente boa na boca desse artista que, por ora, fica mesmo na história fonográfica como instrumentista e como produtor. (Cotação: * *)


(Crédito da imagem: capa do álbum Boca, de Curumin)

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