Desapegada de letras mortas, Carol Naine aviva discurso em show no Rio


Carol Naine desapegou das velhas letras mortas. Com obra pautada por discurso afirmativo da força feminina, a artista retalha convenções da sociedade machista com a faca amolada dos versos afiados do cancioneiro autoral. “Pra você que esqueceu que não, rapaz, você não é Deus”, avisa a cantora e compositora carioca ao fim dos versos do samba Você não é Deus (Carol Naine, 2016), uma das 11 músicas do segundo álbum de Carol, Qualquer pessoa além de nós (2016), lançado na web em novembro e editado em CD neste mês de maio.

Radicada em São Paulo (SP), a artista voltou à cidade natal para lançar o disco em show apresentado na noite de sábado, 27 de maio, no Teatro Eva Herz do Rio de Janeiro (RJ). Ao discurso cortante, repleto de finas ironias, Carol aliou o canto afinado e leve, de musicalidade sintonizada com o toque refinado do trio formado por Alexandre Vianna (teclados, arranjos e direção musical), João Benjamin (baixo) e Rafael Lourenço (bateria).


O verbo é o motor da música da compositora, como já indicara o jogo de palavras armado na letra de Dizputa (Carol Naine, 2016), single lançado em 11 de novembro para anunciar o lançamento do álbum Qualquer pessoa além de nós. Tanto que as letras resistem sem música, com discurso que roça o formato de prosa. Não por acaso, a música que fecha o roteiro, Às senhoras e senhores (Carol Naine e Luciana Elaiuy, 2016), teve a letra recitada em off na abertura do show em fina costura dramatúrgica.

“Amanhã teremos uma nova geração de versos / Que só os poetas mortos entenderão”, concluiu Carol ao fim da letra autobiográfica de Amanhã (Carol Naine Luciana Elaiuy, 2016), primeira das 19 músicas dos 17 números do roteiro da apresentação carioca do show, em cujo bis a cantora rebobinou Rio (Carol Naine, 2016), samba em que a compositora deu trégua no discurso valente para declarar amor à cidade natal.


A declaração de amor ao Rio foi feita com clichês que paradoxalmente inexistiram na metalinguística Canção-clichê (Carol Naine, 2016), em cuja letra Carol discorreu sobre a escrita das músicas de amor com direito a um “grand finale” realçado na subida da voz e no toque do trio. Já a cadência bonita de Rio ignorou os clichês do samba-exaltação para cair (bem) no samba-jazz que emergiu das águas da Bossa Nova nas boates cariocas da primeira metade da década de 1960. No número, Carol pegou pandeiro cujo toque não alterou a pulsação do samba-jazz feito virtuosamente pelo trio.


Composição estrategicamente alocada ao fim de pot-pourri de sambas machistas, Feminina (Luciana Elaiuy, 2016) tirou a roupa do varal para estancar a dor da mulher que seguia a dura e caseira rotina trabalhista de Emília (Haroldo Lobo e Wilson Batista, 1942) e que apanhava na pancada de Lá vem ela chorando (Dinheiro não há) (Ernani Alvarenga, 1931), samba enraizado na insensibilidade da cultura patriarcal da década de 1930 e regravado por Beth Carvalho há 40 anos no álbum Nos botequins da vida (1977) em ação que, se fosse hoje, levaria a cantora-bamba a ser condenada nos tribunais das redes sociais, em universo virtual, aliás, abordado com humor pela artista em Mitou (Carol Naine, 2016).


Na contramão da sentença proferida pelo compositor paulista Paulo Vanzolini (1924 – 2013) no título de Mulher que não dá samba (1974), incluído no risível pot-pourri de temas machistas, a compositora escreve sobre mulheres que dão sambas e canções, como a avó Maria, musa inspiradora de Feito Maria (Carol Naine, 2016), música que exemplifica a suavidade das melodias da compositora, característica que contrasta com o peso de versos que, não raro, esmagam já defasados padrões sociais enquanto elevam visões mais libertárias da mulher no desenrolar do século XXI.


Na estreia carioca do show Qualquer pessoa além de nós, a cantora Marina Íris foi convidada para dividir Casa 82 (Carol Naine, 2013) em dueto erguido na cadência de um samba que evocou, na voz quente de Íris, os sambas de Baden Powell (1937 – 2000) com Paulo César Pinheiro gravados por Elis Regina (1945 – 1982) no início da década de 1970 para mandar recado a desafetos conjugais. Casa 82 é música do primeiro independente álbum da anfitriã, Carol Naine (2013), do qual a cantora também reviveu Virundun (Carol Naine, 2013), dando giro nacional para expor mutretas e improvisos da cena econômica do Brasil. No show, Virundun soou sem a pulsão dos sopros orquestrados por Thiago Amud para a gravação do disco lançado há quatro anos.


No mesmo tom politizado, 22 de abril denunciou o arrastão que saqueia o Brasil há 517 anos. Sim, Carol Naine toca a real na obra autoral. “Eu desapeguei das velhas letras mortas / Ensanguentadas de palavras póstumas / Aproximei o verbo da pessoa / E a pessoa da conclusão”, avisa, quase didática, na primeira estrofe de Quimera não (Carol Naine, 2016).


A conclusão é que a força do disco e show Qualquer pessoa além de nós reside sobretudo no poder da reflexão do discurso de artista que vai direto ao ponto. Com métricas circunstanciais, como a própria compositora conceitua modesta em verso da Canção-clichê, as músicas de Carol Naine parecem ser só para dizer. E dizem. (Cotação: * * * *)


(Crédito da imagem: Carol Naine em 27 de maio de 2017 no Teatro Eva Herz, na estreia carioca do show Qualquer pessoa além de nós, em fotos de divulgação de Thársila Di Britto)

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