Bipolar, entre a depressão e a beleza de “Valse”

O golpe branco abriu uma caixa de Pandora que parece não ter fundo. Podres não param de ser revelados, a sujeira se espalha e os ânimos esquentam ainda mais. Como assistimos na quarta-feira em Brasília.

O transe continua com trama que parece saída de obra de ficção, povoada de personagens como os irmãos Safadões (que, até agora, se safaram) e seus principais delatados. Ninguém menos do que o presidente usurpador e o até então todo poderoso e arrogante líder tucano. Este, cavou sua sepultura política ao não aceitar o resultado das urnas e apostar no quanto pior (para o governo eleito) melhor (para a então oposição). Como sabemos, foi muito além, piorou geral. E, também para o bem, o jogo começa a virar.

A estratégia vinha funcionando, mas, nas duas últimas semanas, o golpe descarrilou de vez. Pensando positivamente, abriu-se a janela para eleições diretas, já e gerais, oportunidade de renovar executivo e congresso, desde que com regras forte, limando fichas sujas, réus em processos, etc. Também começam a cair as máscaras dos parciais Moro, Gilmar Mendes e companhia, até para aqueles que acreditavam neles.

Negativamente, há espaço tanto para os velhos conchavos quanto para mais exceção. Mas, nesses dois casos, as ruas (e até os gramados da capital) já mostraram que vão fazer barulho.

Realisticamente, tudo pode acontecer. Incerteza que permanece até com a opção eleições diretas que pedimos – como se sabe, na Itália, após a Operação Mãos Limpas, deu ruim, com a vitória de Berlusconi -, mas, o risco faz parte do jogo.

@@@@@Novo voo de “Valse”

Daí também depender de nós, de cada um. O que tem me levado a abrir uma coluna musical com esses desabafos estupefatos. Enquanto, obsessiva e bipolarmente, nos últimos dias meu cérebro anda tomado pela beleza de “Valse”, composição que tantos atribuem a Tom Jobim, mas não é dele. Um dos temas instrumentais do álbum “Urubu” (1976), traz a assinatura de Paulo Jobim – então repetindo o feito no disco anterior do pai, “Matita Perê” (1973), no qual emplacara outra música, “Mantiqueira Range”.

“Urubu”, que, junto ao antecessor, forma o díptico supremo na obra de Tom, é álbum que tem programação constante desde que o conheci, ao ser lançado, quatro décadas atrás. Mas o atual surto de “Valse” me abduziu por outro motivo.
A composição estará entre os petiscos de disco que acompanhei uma sessão de gravação na última terça, “Paulo Jobim e Mario Adnet: Jobim, Orquestra e Convidados” (com lançamento previsto para outubro, pela Biscoito Fino). Com a alternância de convidados – estes, a maioria novos, e muitos “filhos de” -, parte da obra de Tom ganha novas gravações e, de bônus, estão três composições de Paulo: as versões instrumentais de “Valse” e “Mantiqueira Range”, e uma canção obscura (e bela), “Saci” (com letra de Ronaldo Bastos, lançada pelo Boca Livre no álbum “Bicicleta”, em 1980).

No estúdio da Biscoito Fino, onde bases e vocais estão sendo registrados – enquanto, numa sala de ensaio da Cidade das Artes, aconteceram as gravações de cordas e parte dos sopros -, acompanhei o restante das sessões de sopro, das quais participaram instrumentistas como Paulo Guimarães, Eduardo Neves, Henrique Band, Aquiles Moraes, Everson Moraes. Nessa noite (na terça-feira, 23/5), comandada por Mario Adnet com a ajuda das filhas Joana e Antonia (que também é cantora de uma faixa, “Águas de março”) e de Paulo, filmei um pequeno trecho de “Valse” e botei no youtreco (reativando uma antiga conta para usá-la aqui nessa coluna sentimusical): trecho final de “Valse”.

Na conversa com Paulo e Mario (respectivamente, na foto acima), descobri algo que, não sei como, nunca me tocara, a “Valse” que sempre adorei é a mesma música que, dois anos depois, acrescida da letra de Ronaldo Bastos, virou “Olho d’água”, gravada por Milton Nascimento em “Clube da Esquina 2”. É canção que também sempre me encantou, com trecho da letra, que, como agora me conta Paulo, remete a Caymmi: “Caiu no mar, Nena / Pipo, cadê você? /Dora, cadê você? / Pablo, Lilia, cadê você?”.

O novo registro é instrumental, partindo do arranjo feito por Claus Ogerman para “Urubu”. Como Adnet revela, o maestro alemão, morto em março de 2016, é outro reverenciado em mais um disco celebrando os 90 anos que Tom teria completado em janeiro passado. O repertório do projeto – que prevê também um DVD com o documentário das gravações e depoimentos dos
participantes – alterna clássicos e canções menos conhecidas. A lista inclui “Desafinado” (na voz de Mario), “Chega de saudade” (com Alfredo Del Penho), “Eu te amo” (dueto de Dora Morelenbaum e Vicente Nucci), “Chovendo na roseira” (com Luiz Pié), “O amor em paz” (com Paulo), “Boto” (com Daniel Jobim), “Falando de amor” (com Alice Caymmi) e “Um certo Capitão Rodrigo” (esta, da trilha que Tom fez para a minissérie “O tempo e o vento”, com o violonista Yamandu Costa). Yamandu, que, como comentara com Adnet, é outro encantado desde sempre por “Valse” e que também pensava se tratar de composição de Tom. Equívoco que, nesses tempos de música por streaming e quase sem créditos, deve continuar. Por sinal, em texto que fiz no início do ano para uma reedição em CD de “Urubu” prevista pela Warner (caso resolva pendências de direitos autorais) cito “Valse” sem frisar que se trata de uma composição de Paulo Jobim. Talvez ainda dê tempo para corrigir a falha.

@@@@@Altos sons e sonhos

Passo o bastão para um mineiro, Rafael Martini, que mantém o nível alto no surpreendente “Suíte Onírica” (independente), disco que chegará às plataformas digitais nesta segunda-feira (29/5). Gravado pelo pianista e compositor e seu sexteto, mais a Orquestra Sinfônica da Venezuela, regida pelo maestro português Osvaldo Ferreira, em suas cinco partes a suíte transita sem fronteiras por clássico, jazz e música brasileira. Os subtítulos de duas delas revelam muito sobre a abrangência e as intenções de Martini, ‘Éter (Sonhando com Pixinguinha”) e “Rapid Eye Movement (Sonhando com Stravinsky)”. A esses dois podemos acrescentar referências de gente como Jobim e Milton, mas reciclados de maneira original, resultando em música nova e surpreendente.

Há cinco anos, Martini foi premiado (então pela segunda vez) no Festival BDMG Instrumental, em Belo Horizonte, edição da qual participei do júri. Desde então, estava ligado em seu nome, mas, à distância, sem imaginar o quanto avançara – desconhecia, por exemplo, o disco “Gesto”, que dividiu com Joana Queiroz (clarinete) e Bernardo Ramos (guitarra), lançado no fim de 2016, pela gravadora japonesa Spiral Records, e que pretendo correr atrás.

Os movimentos da “Suíte Onírica” fazem referência aos cinco estágios do sono, conta-me o texto de divulgação. “Pêndulo”, na abertura, com orquestra e coral ao lado do sexteto de Rafael (piano e voz), Alexandre Andrés (flauta), Joana Queiroz (clarineta), Jonas Vitor (sax), Trigo Santana (contrabaixo) e Felipe Continentino (bateria) dá o tom inebriante. Ecos do Clube da Esquina batem em “Dual”, esta com letra de Makely Ka, outro cantor e compositor da cena contemporânea de Belo Horizonte, que também é o autor do texto narrado em “Rapid Eye Movement”.

Grande música, para voar sem sair do chão, como nos sonhos.

@@@@@CDesovada

Três CDs e um DVD (este, “Celebrizar”, da cantora Sandra Duailibe, ficou para a semana que entra) também chegaram aos meus domínios.

Com destaque para “Forasteiro” (Kuarup), de Lencker, cantor, compositor e violonista/guitarrista que desconhecia. O nome soa estrangeiro, mas (Italo) Lencker faz canção brasileira, com um pé no Nordeste em muitos momentos, nestes, contando com a sanfona de Mestrinho. Ele também passa por samba (“Clara”), balada jazzy à la Djavan (“Tirano”, “Deu jazz”), toada (“Eu só”), salsa (“Oferanda”). Coautor das dez composições, seis em parceria com Camila Oliveira e as restantes com diferentes letristas, Lencker também foi o coprodutor (com Rodrigo Panassolo) do disco registrado em São Paulo. Ele esbanja domínio dos fundamentos em trilha abrangente e muito rodada. Quase sempre com frescor, em conteúdo reforçado pelo seguro cantor e por arranjos e instrumentistas. Além de Mestrinho (na faixa-título e de abertura, em “Tirano” e “Nano”), participam Ricardo Herz (violino em “Baião digital”) e uma base nas mãos de Kabé Pinheiro (bateria e percussão), Peter Mesquita (baixo acústico e elétrico) e Raul Misturada (guitarra e efeitos).

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Outro cantor e compositor, o brasiliense Alberto Salgado trafega também com invenção em “Cabaça d’água” (independente / patrocínio Gov. Brasília). É seu segundo disco solo, tendo como mote o desastre ambiental no Rio Doce, tema explicitado na faixa-título. Fluente no violão, Salgado dividiu a concepção dos arranjos com dois dois músicos que gravaram as bases, o baterista Célio Maciel e o baixista Sandro Jadão.

São dez canções autorais, oito delas em parcerias, incluindo, entre outros, Chico César (na toada “Ave de mim”), que participa do vocal e também pode ser uma boa referência para o caminho entre o regional e o pop seguido por Salgado; o baixista Arthur Maia, esbanjando habilidade no seu instrumento em “Histórias do vento”; e, em “Da jangada em pleno mar”, o piauiense radicado em Brasília Climério Ferreira, compositor que nos anos 1970 formou um trio com os irmãos Clodo e Clésio. Um dos destaques no disco tem letra de um jornalista da área musical, Leonardo Lichote, que se mostra bom de imagens e cortes na urbana “Beto Copa Rita”. Já o xaxado “Pele debaixo da unha” é reforçado pela participação de um especialista no forró contemporâneo, Silvério Pessoa.

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Num terreno entre o pop e o experimental, “Boca” (patrocínios Natura Musical e Secretaria da Cultura de SP) é o quarto disco de Curumim. Cantor, compositor, baterista, multi-instrumentista, produtor atuante no pop contemporâneo paulistano, sozinho ou com parceiros em quatro músicas, ele assina (usando seu nome de batismo, Luciano Nakata Albuquerque) 11 das 13 faixas. Completam o repertório uma canção de Russo “Baiana System” Passapusso (“Boca pequena parte 2”) e um trecho de poema de Beto Bellinati declamado pelo próprio (“O burguês que deu errado”). Os sons sintéticos produzidos a partir de um MPC (instrumento que dispara programações de bases e batidas eletrônicas) dão o tom e a possível monotonia é quebrada pelas diferentes participações e parcerias. O rapper Rico Dalasam, por exemplo, divide voz e autoria de “Tramela”. Para fechar o disco, “Paçoca” é um samba de roda de bar, acústico (violão, cavaquinho, trombone, percussões e vozes), composto por muitas cabeças (Curumin e mais quatro parceiros, incluindo as cantoras Andreia Dias, Anelis Assumpção e Iara Rennó). Boa saideira.

@@@@@Ao vivo, logo mais

Neste sábado, entrando pela madrugada de amanhã, no Circo Voador, após o grupo Dônica fazer o show de abertura, Lô Borges vai mostrar seu disco de estreia, em 1972, o do tênis velho na capa, e também as composições que emplacou no mesmo ano no álbum “Clube da Esquina”, que dividiu com Milton Nascimento os créditos.

Enquanto neste domingo, 28 de maio, a partir das 11h, a boa é encher a Avenida Atlântica, no show pelas Diretas-Já que vai contar com apresentações de, entre outros, Caetano, Mano Brown, Criolo, Otto, Maria Gadu, Teresa Cristina, Mart’nália, BNegão, Pedro Luís… Até lá e, como sempre, #foratemer, #foragolpe!

Créditos: fotos de ACM e divulgação (retrato de Rafael Martini), e reproduções capas de discos

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