Álbum do Vanguart, ‘Beijo estranho’ tem gosto de sol sem calor existencial


Quarto álbum de estúdio do Vanguart, Beijo estranho (Deck) segue sem sobressaltos a trilha pop e solar expandida na discografia do grupo mato-grossense pelo álbum anterior, Muito mais que o amor (2013). A rigor, a banda já havia começado a acenar para o pop no segundo álbum, Boa parte de mim vai embora (2011), mas este disco ainda veiculava certa densidade ao versar sobre ausências. Aquele folk melancólico do início da caminhada, composto majoritariamente em inglês, ficou restrito ao primeiro álbum da banda, Vanguart, lançado em 2007 de forma independente.


Álbum produzido por Rafael Ramos, Beijo estranho chega ao mercado fonográfico dez anos após a estreia fonográfica do grupo, atualmente um quarteto formado por Hélio Flanders (voz, violão, piano, e composições), Reginaldo Lincoln (voz, baixo e composições), Fernanda Kostchak (violino) e David Dafré (guitarra e bandolim). Nos quatro anos que separam Beijo estranho de Muito mais que o amor, Hélio Flanders e Reginaldo Lincoln lançaram os respectivos primeiros álbuns individuais. Lincoln saiu na frente e apresentou Nosso lugar em 2014 sem causar repercussão com o álbum independente. Principal compositor e vocalista do Vanguart, Flanders cresceu (como compositor e intérprete) e apareceu em 2015 com a obra-prima Uma temporada fora de mim (2015), doído disco existencial que ardeu na fogueira das paixões em clima do tango.


Beijo estranho ignora a evolução de Flanders (nem tanto como cantor, mas sobretudo como compositor), parecendo retomar a obra do Vanguart do ponto em que ela havia parado em Muito mais que o amor. “O tempo certo é muito tempo para quem espera”, divaga o artista em versos de Menino (Hélio Flanders e Reginaldo Lincoln), pop rock de acento rural que faz pulsar a veia caipira do folk do Vanguart. Música-título do álbum, previamente lançada como single, Beijo estranho (Hélio Flanders) tem melodia que ecoa recantos do Clube da Esquina, evocando a obra de Lô Borges e Cia. e legitimando a presença no disco do maestro mineiro Wagner Tiso, arranjador das cordas que emolduram as considerações transcendentais feitas na letra da valseada Homem-Deus (Hélio Flanders e Reginaldo Lincoln), um dos pontos altos do repertório e do disco (justamente pelo arranjo de Tiso).


Houve assumida tentativa do Vanguart de adensar os versos de parte das 11 músicas que compõem o cancioneiro inédito e autoral de Beijo estranho, equilibrando alegrias e tristezas. Contudo, qualquer esboço de intensidade ou melancolia – perceptível em Casa vazia (Hélio Flanders), por exemplo – é diluído pela sonoridade formatada pelo produtor Rafael Ramos. Por isso, músicas mais expansivas como Felicidades (Hélio Flanders e Reginaldo Lincoln) – harmoniosamente cantada pelos dois vocalistas do Vanguart – e E o meu peito mais aberto que o mar da Bahia (Hélio Flanders e Reginaldo Lincoln) parecem mais ajustadas ao clima essencialmente solar do disco.


Compositor de produção mais irregular do que a de Flanders, Lincoln brilha mais na vibe roqueira de Quente é o medo (Reginaldo Lincoln), música solada pelo compositor do tema, do que nos tons pálidos da aquarela glam de Todas as cores (Reginaldo Lincoln). Entre a sensualidade quase épica de Quando eu cheguei na cidade (Hélio Flanders) e a súplica apaixonada de Eu preciso de você (Hélio Flanders), exemplo do tom trivial de certas letras na atual fase poética do Vanguart, o álbum Beijo estranho fica no meio do caminho, mas em lugar confortável na discografia do grupo. É bom disco, com várias músicas de apelo pop e com um gosto de sol, mas sem ser caloroso, e sem ser uma obra-prima como o existencial álbum solo lançado por Hélio Flanders em 2015. (Cotação: * * * 1/2)


(Crédito da imagem: capa do álbum Beijo estranho, do Vanguart. Arte de Juan Pablo Mapeto)

Deixe uma resposta