Palavras de Joyce fazem a cama na varanda de sons de álbum irretocável


Cidadã carioca, Joyce Moreno é dona de obra que ganhou o mundo, mas que tem como base e guia as palavras e os sons de (re)cantos maravilhosos da cidade do Rio de Janeiro (RJ). Não por acaso, a cantora e compositora lançou há cinco anos na Europa um álbum de intérprete, Rio de Janeiro (2012), que saudou músicas e compositores da cidade natal. Palavra e som, álbum autoral de músicas inéditas editado no Brasil neste mês de maio de 2017 pela gravadora Biscoito Fino, foi gravado para o Japão e lá lançado em 2016. Com capa que expõe Joyce em pintura do artista japonês Shinichi Sugaya, o disco chegou do outro lado do mundo sem perder de vista o Rio de Janeiro, (um) berço do samba saudado já na música que abre o disco, No mistério do samba (Joyce Moreno, 2014), com o atento toque do violão da artista.


Composição lançada por Maria Rita no álbum Coração a batucar (2014), No mistério do samba decifra a gana do povo bamba do Brasil, país de recantos rurais seguidos pela linha melódica da toada Dia lindo, composta por Joyce, letrada pelo carioca João Cavalcanti (com versos que vislumbram com assumido medo o fim da estrada humana) e gravada com a voz cheia de terra de Dori Caymmi.


O repertório de Palavra e som inclui valsa de ar jazzy que poetiza o amor, Mar e lua (Joyce Moreno), e densa balada que dilui o romantismo desta visão poética, O amor é o lobo do amor (Joyce Moreno), além de buliçoso tema, Forrobodó das meninas (Joyce Moreno), que evoca a pioneira maestrina Chiquinha Gonzaga (1847 – 1935) e, de quebra, a feminilidade também pioneira do cancioneiro autoral da própria Joyce Moreno – empoderamento que vem desde o início da discografia da artista, na década de 1960, mas que ficou mais evidenciado em 1979 a partir da exposição simultânea de canções como Essa mulher (Joyce Moreno), Da cor brasileira (Joyce Moreno) e, claro, Feminina (Joyce Moreno). Essa feminilidade gerou um canto em feitio de oração, Ave Maria Serena (Joyce Moreno), composição de luz sagrada que clareia o sertão no toque da viola de 10 cordas tocada por Alfredo Del-Penho.


Em que pese a diversidade rítmica do repertório, é em torno do samba que gravita o disco produzido pela própria Joyce com o produtor japonês Kazuo Yoshida. Esse samba pode ter paisagens e contornos menos óbvios como Humaitá (Joyce Moreno) – saudação ao bairro carioca que abriga a cantora – e pode exaltar a influência do jazz, da bossa de Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994) e da urbanidade pioneira de Noel Rosa (Joyce Moreno), referências aglutinadas em Mingus, Miles & Coltrane (Joyce Moreno).


Com habilidade para pôr sons em palavras, ainda que geralmente parta da melodia na arte da composição, Joyce é também poeta da canção – poeta que já parece feita tal é a naturalidade do encaixe das palavras nos sons e melodias. Por isso, O poeta já nasce feito – parceria póstuma da artista com o compositor e poeta tropicalista Torquato Neto (1944 – 1972) – se harmoniza no disco ao apresentar melodia feita por Joyce na pisada do baião para versos que chegaram à artista em 2014 através de outro poeta compositor, Ronaldo Bastos.


Contudo, às vezes, o som dispensa palavras, como no samba-jazz Na 75 (Joyce Moreno), levado para salão de gafieira somente com vocalizes dessa cantora que se tornou melhor com o passar dos anos. Essa voz maturada como vinho poetiza o poder da criação na música-título Palavra e som (Joyce Moreno). “Deixe que a palavra faça a cama na varanda do som”, ensina a compositora neste álbum de músicas e letras já indissociáveis.


Parceria de Joyce Moreno com outro poeta compositor, Paulo César Pinheiro, Casa da flor abriga letra em que o poeta brinca com os sons das palavras como se fosse Djavan. Com alguns tons jazzísticos, Casa da flor mostra que, no álbum, as palavras são valorizadas pelo som produzido em total harmonia por Hélio Alves (piano), Rodolfo Stroeter (baixo) e Tutty Moreno (bateria e percussão) sob direção musical da própria Joyce Moreno, mestra no violão e nos arranjos. A esse quarteto fantástico, se juntam eventualmente outros craques dos sons como Paulinho Dias e Pedro Amorim, que tocam tantã e bandolim, respectivamente, em Sambando no apocalipse (Joyce Moreno).


No CD, uma das obras-primas da discografia da artista, as palavras de Joyce Moreno (e dos poetas parceiros) fazem a cama na varanda dos sons de álbum de musicalidade irretocável que reitera o talento desta cidadã carioca que transita pelo mundo. (Cotação: * * * * *)


(Crédito da imagem: capa do álbum Palavra e som. Joyce Moreno em pintura de Shinichi Sugaya)

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