Na trilha das diretas

Eleições diretas, já e gerais, esta é a opção para superar a crise política sem precedentes. Afinal, com um Congresso desmoralizado como o atual, qual a legitimidade de uma eleição indireta para a presidência? Após o golpe branco em 2016, um remendo do bem na Constituição abriria a chance de, a partir das urnas, o Brasil voltar aos trilhos democráticos, recuperar credibilidade.

Outra opção, misto de pedido de desculpas de boa parcela dos golpistas e pacto abrangente, seria devolver a Dilma (ainda lembram das pedaladas?) o que resta do mandato. Ou seja, uma espécie de tampão até as eleições diretas previstas para 2018.

Se é que alguém ainda confiava em Temer, as delações da JBS derrubaram qualquer dúvida. Delações que ainda acabaram com a carreira do playboy travestido de homem público que sempre foi Aécio Neves, pior exemplo da casta política que atrasa o Brasil há décadas. Delações que também aumentam as suspeitas sobre Moro e a parcialidade da Lava Jato, após o juiz ter preservado Temer das muitas perguntas incomodas feitas por Cunha.

Na quinta-feira, estivemos K e eu entre os milhares que tomaram as ruas do Brasil pedindo fora Temer e Diretas Já. Cerca de 17h30m, encontramos a Candelária lotada, avançando pela Avenida Rio Branco. Era tanta gente que o nosso plano inicial de seguir dali para o Teatro do BNDES onde César Lacerda & Rômulo Fróes fariam o show do disco “O meu nome é qualquer um” foi abortado. Por uma boa causa. Diversidade é a palavra para descrever o perfil coletivo, mas era possível identificar muitas bandeiras e camisas vermelhas; muitos jovens, de universitários a secundaristas; sexagenários como nós e mais velhos; negros; gays; sindicalistas; famílias de diferentes formações… Postei na rede social foto na qual K e eu brindamos com uma das muitas bandeiras vermelhas ao fundo. Mais para anarquista velho doidão, não sou filiado a partido algum, mas não vi sentido em editar a imagem e cortar a bandeira. É hora de união para reerguer o Brasil na lona.

Ao chegarmos nos arredores da Cinelândia, pouco depois das 20h (na foto que abre essa coluna), sinistras formações da PM começavam a cercar os principais pontos de acesso. Até aquele momento não tínhamos assistido à cena alguma de violência mas embarcamos no metrô com maus pressentimentos – K queria ficar, mas, insisti com meu plano de trocar a política por comida e bebida. Já leblonamente instalados, começaram a aparecer os relatos da pancadaria habitual, que, segundo os truculentos policiais, teria sido iniciada pelos mascarados que eles nunca conseguem agarrar.

@@@@@ Música numa hora dessa…

Em meio às turbulências políticas, fiz o dever de casa e começo pelas sobras da semana passada. O DVD “A música é o meu país” (Calabouço / Sete Sóis / Canal Brasil) oferece panorâmica da já encorpada mas restrita a poucos obra do cantor, compositor e violonista Fred Martins. Com cinco álbuns lançados, o primeiro, “Janelas”, em 2001, ele também teve composições gravadas por Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Renato Braz e Maria Rita.

Os três primeiros da lista acima, por sinal, estão entre os convidados dele no show que serve de base para o DVD, em noite na qual também participaram a cantora Lívia Nestrovski e músicos como Fred Ferreira (guitarra), Marcelo Martins (saxofone), Jessé Sadoc (trompete), Janaina Salles (violoncelo), Pedro Braga (guitarra), Fernando Caneca (guitarra e violão), Alex Rocha (baixo) e Victor Bertrami (bateria). Além desse material, registrado, em outubro de 2015, no Teatro da Universidade Federal Fluminense (UFF), o DVD usa canções filmadas num apartamento em Lisboa e num prédio histórico em Santiago de Compostela, estas com convidados e músicos como a cantora portuguesa Cristina Águas e a cabo-verdiana Nancy Vieira.

Fluente e eclético, Fred Martins navega do samba (como o que abre o show, voz e violão à la João Gilberto, “A filha da porta-bandeira”) ao blues (“Avesso”, uma das cantadas em duo com Zélia Duncan, que permanece no palco para o sucesso pop que também ganhou de Fred, “Flores”), passando por tinturas espanholadas e mouras (“Novamente”, que, no DVD, tem versão em Lisboa, na voz de Cristina Águas, e volta nos extras, no show de Niterói e com Ney, o intérprete que a lançou).

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Também cumpre seu papel o livro de partituras acompanhado de um CD “Arraial do Pavulagem: Livro de Músicas” (Natura Musical). No disco estão 19 faixas tiradas dos oito álbuns que o grupo lançou entre 1995 (“Gente da nossa terra”) e 2013 (“Céu da Camboinha”). Para quem vive longe de terras, águas e ritmos paraenses pode soar a mesma coisa, entre o carimbó e derivados, para catalogar no escaninho de folclore. Mas, como o didático volume lista, são muitos os gêneros explorados pelo grupo. Entre outros, retumbão, mazurca, xote bragantino, marabaixo, toada de Boi Bumbá, samba de cacete, chula marajoara, quadrilha junina e, claro, carimbó. Tudo composto por dois dos integrantes do Pavulagem, Júnior Soares e Ronaldo Silva. É título de referência, material de consulta que mapeia o grande Brasil musical.

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Três títulos físicos completam a CDesovada da semana, sendo que um deles, “Atlas” (Sony Music), tem mais de um ano de estrada, mas não tinha chegado aos meus ouvidos. É o segundo disco do Baleia, grupo carioca formado por Sofia Vaz, Gabriel Vaz, Cairê Rego, Felipe Ventura, David Rosenblit e João Pessanha. Tinha algumas referências deles, ouvira o anterior “Quebra azul” (em 2013, quando a filha caçula de Tom Jobim, Maria Luiza, ainda participava do coletivo), mas, não parara para procurar por “Atlas” nas plataformas de streaming. Agora, as oito faixas rodaram bem no CD player, pop-rock experimental, climático, em produção do grupo com Bruno Giorgi. A pastoral “Véspera”, bossa lisérgica, por exemplo; ou a seguinte, “Salto”, fechando o disco com ecos entre Los Hermanos e Radiohaed. Melhor ainda é a embalagem gráfica, também concebida por eles e Lisa Akerman, esta, a responsável pelas ilustrações de capa e livreto, que fazem do disco belo produto.

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Bossa nova do século XXI, “Almateia Duo” (Humaitá) pouco acrescenta ao estilo quase sexagenário. Mas confirma a habilidade do compositor, tecladista e produtor Ricardo Duna Sjöstedt nessa praia, agora acompanhado de Ana Cecilia Mamede, cantora e compositora que divide ou assina sozinha boa parte do repertório. Entre as 12 faixas, apenas uma não é deles, “Namorar”, de Gonzaguinha, em versão protocolar. Se cantor e cantora também se limitam ao correto, musicalmente estão muito bem cercados, incluindo, além do piano de Sjöstedt, instrumentistas como Bebe Kramer (acordeom), Nicolas Krassik (violino), Ricardo Silveira (guitarra), Augusto Mattoso (contrabaixo), Lu Coimbra (violoncelo) e os vocais de Maurício Maestro, Claudio Nucci e Zé Renato.

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Compositor gaúcho com dois discos solo anteriores, Rogério Ratner se dedica à difícil tarefa de musicar poesia e prosa em “Canções para leitores” (RRK Records). Autores na maioria conterrâneos dele, como Martha Medeiros, Paula Taitelbaum e Fabrício Carpinejar, foram as fontes nas quais bebeu para suas baladas rock, blues, pop e derivados, quase inteiramente gravadas pelo também produtor e engenheiro de gravação, mixagem e masterização Ciro Moreau (violões, guitarras, programação sinth e samplers e arranjos). Canções quase sempre amarradas pelo texto, que não decolam mesmo nas vozes de diferentes intérpretes em cada faixa, num elenco que inclui, entre outros, Ana Krüger, Dudu Sperb, Monica Tomasi, Karine Cunha e o próprio Ratner.

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Por fim, e por streaming, também foram muitos os discos conferidos, links na maioria recebidos através do email da coluna. Nada que chamasse a minha atenção, mas pretendia dar um passagem no material das últimas semanas. Só que o arquivo no qual adiantara o texto foi apagado por acidente, numa atualização do mac. Restaram como prova do trabalho perdido duas capas que separara, uma pela foto (“Revolução”, de Novoleo), outra pelo título, homenagem ao trompetista de jazz que partiu tão cedo, “Clifford Brown”, de Pantaleão.

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