Com altos e baixos, filme dramatiza os bastidores do Plano Real

Fatos:

No final de fevereiro de 1994 foi lançado o Plano Real, um conjunto de medidas econômicas radicais que resultou na estabilização da moeda e no fim da inflação, de quase 50% ao mês, que dizimava o país. A inflação acumulada nas três décadas anteriores estava em 1 quatrilhão por cento, e 12 dígitos já tinham sido cortados da moeda em sucessivas e fracassadas reformas monetárias.

O Real resultou do trabalho coletivo de uma equipe de economistas reunidos pelo então ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso. Trabalhando com carta branca (ou quase) em um bunker à prova de pressões políticas (ou quase), em poucos meses essa equipe logrou frear a inflação e aumentar o poder de compra da população.

O PT votou contra, mas o êxito do plano levou à eleição e à reeleição de FHC, em 1994 e 1998, nas duas vezes no primeiro turno, nas duas vezes contra Lula. Lançado candidato à presidência, FHC foi sucedido na Fazenda pelo diplomata Rubens Ricupero e, em seguida, quem diria, pelo político Ciro Gomes. Mais de 30 anos depois, os efeitos benéficos do Real ainda são sentidos por todos os brasileiros, independente de idade, ideologia, gênero, raça e religião. Assista ao trailer de “Real – O plano por trás da História”.

Os bastidores da formulação e da execução do Plano Real são dramatizados em “Real – O plano por trás da História”, longa-metragem de Rodrigo Bittencourt que será lançado nos cinemas no dia 18. É inspirado no livro “3000 dias no bunker: um plano na cabeça e um país na mão”, do jornalista Guilherme Fiúza. Livro e filme elegem como protagonista o economista Gustavo Franco: sua trajetória e seus conflitos pessoais naquele período são o fio condutor da narrativa.

A recapitulação dos acontecimentos é competente, mas o roteiro peca em alguns detalhes. Alguns diálogos são caricatos. O protagonista está construído de forma convincente, mas se percebe uma compreensível timidez na composição de personagens secundários na trama – como Itamar, FHC, Pedro Malan, Persio Arida etc – todos retratados com pinceladas muito superficiais. O grande desafio do roteiro era justamente equilibrar uma história pessoal com a reconstituição de um episódio da história do país – em outas palavras, combinar conflitos individuais e coletivos. O desafio é vencido apenas de forma parcial.

É no retrato mais intimista dos conflitos de Gustavo Franco que o filme cresce: no tenso jantar da sequência de abertura; nas idas e vindas com a namorada Renata (Paolla Oliveira, ótima no papel); na rigidez emocional e na dificuldade psicológica do personagem diante das contrariedades no trabalho e na vida conjugal. Um subtexto sutil sobre o sentido do sucesso e da ambição e sobre a natureza das relações afetivas permeia esses momentos, valorizados pela interpretação econômica de Emílio Orciollo Neto.

Pois bem. Li que o longa-metragem de Rodrigo Bittencourt faz parte da seleção oficial do tradicional Cine Pernambuco, que estava previsto para acontecer entre os dias 23 e 29 deste mês. Mas o festival teve que ser adiado – ou cancelado, não ficou claro – depois que sete cineastas decidiram retirar seus filmes, em protesto contra obras “alinhadas à direita conservadora” e a “grupos que querem implantar uma ditadura no Brasil”. Entre essas obras estariam um curta sobre o filósofo Olavo de Carvalho – conservador, e daí? – e, justamente, o longa “Real – O plano por trás da História”, que só sob efeito de drogas pesadas poderia ser classificado como alinhado à “direita conservadora”.

Ou seja, em nome da defesa da democracia, da diversidade e da tolerância, existem hoje no Brasil cineastas que exigem a interdição – ou seja, a censura – de obras cuja simples existência representa “um desrespeito à visão política e social de outros filmes”. Ou seja, eles estão afirmando que só existe uma visão política e social válida e que merece ser respeitada: a deles. Pensam que estão resistindo a sei lá o quê. Estão apenas sendo ridículos.

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