Exemplo que fica

O intelectual que deixou o Brasil órfão hoje, também deixou uma obra fundamental, fonte de consulta para o presente e o futuro. Legado que ameniza o fim de uma vida longa e bem vivida, discreta, longe dos holofotes, mas influente, abrindo caminho para novos pensadores. Aos 98 anos, ativo física e intelectualmente até perto do fim, Antônio Cândido também foi um homem político, um dos fundadores do PT, que, nos últimos tempos, traiu tanto de seus princípios e ideais. Professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na USP (e cursos apresentados em universidades na França e nos EUA), muito também contribuiu para a difusão da literatura brasileira no mundo.

Como crítico literário, pautado pela ética, sem acreditar em fórmulas científicas para a atividade, no calor da hora, foi quase sempre certeiro em suas avaliações, apontando a grandeza de muitos livros e autores ainda então desconhecidos. A lista passa pelos, hoje, icônicos Manuel Bandeira, Clarice Lispector, João Cabral de Mello Neto, Oswald de Andrade e o “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa – romance que, antes de todos, definiu como um clássico instantâneo, divisor de águas na literatura.

Carioca de nascença, paulistano de adoção após, na infância e no início da adolescência, passar por Minas Gerais, interior de São Paulo e França, ele se graduou em Filosofia – antes, começara e largou o curso Direito da USP. Com doutorado em Ciências Sociais (sua tese foi um ensaio sociológico e antropológico sobre o caipira do interior paulista, “Os parceiros do Rio Bonito”), Antônio Cândido foi um brasileiro universal. Exemplo de grandeza para o país que, no momento, se apequena.

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