Partideiro bamba, Almir Guineto foi verdadeiro original do samba carioca

Almir Guineto
Partideiro da alta nobreza do samba, o cantor e compositor carioca Almir Guineto (12 de julho de 1946 – 5 de maio de 2017) sai hoje de cena aos 70 anos, deixando legado histórico nos morros, quintais e terreiros. Em 1985, Guineto reinou no ano em que o pagode carioca começava a se firmar como um dos donatários das paradas musicais. Naquele ano, Almir de Souza Serra lançou o terceiro álbum solo, Sorriso novo, emplacando sucessos como Insensato destino (Maurício Lins, Chiquinho e Acyr Marques) e Jibóia (Bombril e Vilani Silva).


Em 1986, ao lançar o álbum que trouxe os hits Mel na boca (Davi Correira) e Caxambu (Élcio do Pagode, Jorge Neguinho, Zé Lobo e Bidubi), Guineto bisou e ampliou o sucesso popular em ano em que somente outro rei do pagode, Zeca Pagodinho, ombreou o êxito do colega tijucano, diplomado nas quebradas do morro do Salgueiro.


Se Pagodinho era uma relativa novidade, tendo sido revelado em 1983 por Beth Carvalho, Guineto vinha demais longe no mundo do samba. Cria do Morro do Salgueiro, Guineto integrou na década de 1960 o grupo Os Originais do Samba. Foi nessa época que ajudou a inventar o banjo, instrumento essencial na receita de samba de outro grupo, o Fundo de Quintal, do qual Guineto foi um dos fundadores em 1980.


Guineto, contudo, não esquentaria lugar no Fundo de Quintal. Logo saiu do grupo e partiu para a carreira solo gravado o primeiro álbum, O suburbano, em 1981, ano em que ganhou projeção individual ao defender o samba Mordomia (Ary do Cavaco e Gracinha) no festival MPB-Shell 81, exibido pela TV Globo. Neste primeiro álbum, Guineto emplacou o samba Saco cheio (Dona Fia e Marcos Antônio), regravado em 2014 pela cantora Maria Rita.


A partir da década de 1990, com a ascensão de grupos de pagode como Raça Negra e Só pra Contrariar, a geração do Fundo de Quintal ficou em segundo plano e perdeu a hegemonia nas paradas do samba. Parceiro de Guineto no sucesso Lama nas ruas, Zeca Pagodinho ainda se reergueu a partir de 1995, sob a batuta do produtor Rildo Hora, mas Guineto nunca mais obteve o mesmo sucesso da década de 1980. Até porque a voz rouca, de dicção muitas vezes incompreensível, foi sendo corroída por excesso de álcool e aditivos químicos.


Guineto ainda lançou álbuns com regularidade ao longo dos anos 1990, mas a discografia do artista acabou ficando espaçada a partir dos anos 2000. O último álbum, Cartão de visita, saiu em 2012, confirmando a veia do bamba. Mas não chegou a ser ouvido pelo povo que cultuava o partideiro nas rodas.


Se o mercado foi ficando refratário para Guineto, em parte por culpa do comportamento social do artista, os amigos nunca deixaram de reverenciar o sambista. Mas os tempos eram outros. E Guineto também já era outro, tendo passado os anos 2000 no município paulista de Tupã (SP), onde foi buscar distância do álcool. A volta à cidade natal do Rio de Janeiro (RJ) aconteceu somente em 2011. E foi na cidade que nasceu, herdeiro do pai sambista Iraci de Souza Serra, que Guineto morreu na manhã de hoje, deixando o nome imortalizado nas rodas de samba em que versou com maestria.

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