Recesso do Rappa é saída digna para banda que ia virar clone de si mesma


O anúncio de que o grupo carioca O Rappa vai entrar em recesso por tempo indeterminado, após cumprir agenda de shows que se encerra em fevereiro de 2018, talvez oculte um impasse artístico. Desde que voltou aos palcos em 2011, após um primeiro hiato iniciado em 2009, O Rappa tem feito shows lotados, porque a banda sempre manteve a pressão no palco. Mas o fato é que o quarteto – formado atualmente por Marcelo Falcão, Marcelo Lobato, Lauro Farias e Alexandre Menezes, o Xandão – corria o risco de virar clone de si mesmo, como sinalizou o irregular último álbum de músicas inéditas do grupo, Nunca tem fim… (2013), lançado há quatro anos.


Um projeto acústico gravado ao vivo e editado em 2016, nos formatos de CD e DVD, cumpriu a missão de dar mais tempo ao Rappa com registro de roteiro revisionista. Só que, por mais que os shows sejam azeitados, a banda nunca mais teve real relevância criativa no universo pop brasileiro desde a ruidosa saída do baterista Marcelo Yuka em 2002. E Yuka tampouco obteve a mesma força sem O Rappa – como provou o igualmente irregular álbum solo lançado pelo artista no início deste ano de 2017.


Nesse sentido, a decisão do Rappa de entrar em recesso é acertada. É melhor sair de cena antes do desgaste absoluto na criação de repertório. No comunicado, a banda exalta as “experiências incríveis” vividas desde a volta aos palcos, em 2011. “Talvez as mais importantes desses mais de 20 anos de carreira. Viajamos o Brasil de ponta a ponta, lançamos dois discos, emendamos quatro turnês internacionais que incluíram um Lollapalooza nos EUA, mais de dez datas na Europa, três na Austrália e uma na Nova Zelândia”, lista o grupo no comunicado.


Sem dúvida, como já dito, os shows da banda continuaram sendo prestigiados e elogiados pelo público. Mas shows são feitos (também e às vezes principalmente) de sucessos colecionados no auge artístico de um cantor ou banda. No estúdio, na hora de gravar um disco com repertório novo, é que fica claro se banda ainda tem algo a dizer. O Rappa já parecia ter pouco ou nada a dizer com a contundência de outrora.


O recesso “sem previsão de volta” é, portanto, saída honrosa e digna para uma banda que fez história e marcou época na música pop brasileira ao longo da década de 1990 com repertório já antológico.


(Crédito da imagem: O Rappa em foto de divulgação)

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