Ao piano, Cida Moreira afia recantos escuros na lâmina aguda da solidão


Cida Moreira vem de recantos escuros. Foi no subterrâneo de um porão, o do Teatro Lira Paulistana, que a artista também paulistana começou a se fazer ouvir como cantora após incursões pelo teatro musical na segunda metade da década de 1970. Lá, naquele recanto escuro iluminado pela luz da arte vanguardista da cidade de São Paulo (SP), Cida gravou ao vivo em agosto de 1980 o primeiro álbum da digna discografia, Summertime, lançado em 1981. Foi em outro recanto escurto, o da antiga Casa de Francisca, que entre 2015 e 2016 Cida fez – sob a direção de Humberto Vieira – show de alta carga poética cujo áudio, captado por Gabriel Lx, gera 36 anos depois o segundo título ao vivo da obra fonográfica da dama.


Terceiro álbum de Cida lançado pela gravadora Joia Moderna, do DJ Zé Pedro, Soledade solo – Ao vivo na Casa de Francisca alude no título ao último álbum de estúdio da intérprete, Soledade (2015). Mas se irmana mais com a obra-prima A dama indigna (2011), registro de estúdio do show que devolveu a Cida o prestígio do início de carreira. Solo ao piano de toque dramático potencializado já na abertura do disco, na tensão do tema instrumental A última sessão de música (Milton Nascimento, 1973), Cida corta recantos escuros na solidão do canto torto que afia na lâmina vocal a dureza de palavras como as escritas por Belchior (1946 – 2017) na canção Na hora do almoço (1971), retrato sem filtro do isolamento familiar.


Já descompromissado das belezas formais, mas tampouco sem abrir mão delas, o canto torto de Cida sangra e corta na carne a fúria assassina de À beira do Pantanal (Raul Seixas e Cláudio Roberto, 1980) e o apetite capitalista igualmente mortal do tango Os açougueiros felizes (Les joyeux bouchers) (Boris Vian e Jimmy Walter, 1955, em versão em português de Letícia Coura, 2001), número que faz saltar a veia da dama do cabaré.


Sem amarras estilísticas, sob a própria direção musical, a poliglota saloon singer nativa reabre Querido diário (2011), tema de um Chico Buarque menos cultuado e pouco ouvido, para expor a solidão insana da selva das cidades. Na rota poética da dama carregada por asas que a gente não tem, o cavalgar lírico de Viagem (João de Aquino e Paulo César Pinheiro, 1972) jamais atropela o fluxo urgente do sangue do chico que desce pela alma da intérprete sedenta do ofício e desnudada em Preciso cantar (Arthur Nogueira e Dand M, 2013) e tampouco dilui o filosófico questionamento da existência feito com a lágrima nordestina que escorre em Cajuína (Caetano Veloso, 1979).


Ao desvendar os signos sagrados de Recanto escuro (Caetano Veloso, 2011), Cida ilumina a precisão do canto, também exercido no álbum Soledade solo para invadir as dependências de Chelsea Hotel (Leonard Cohen, 1974), desarrumadas pela fúria cega e santa do sexo, e para reativar o afeto da memória adolescente que guardava em recanto da mente Fortíssimo (Bruno Canfora e Michael Wertmüller, 1966), sucesso da cantora italiana Rita Pavone revivido por Cida em tons agudos que evocam a cantora de tons operísticos da década de 1980.


Número herdado do show A dama indigna, Youkali tango (Roger Farney e Kurt Weill, 1934) fecha o cabaré de Cida na altura destes tons agudos. Já a melancólica canção Forasteiro (Hélio Flanders e Thiago Petit, 2010), já presente no anterior álbum Soledade, reacende a solidão cortante que crava o punhal na alma do repertório de Soledade solo, sobretudo em canções como She (Marianne Faithfull e Angelo Badalamenti, 1995), súplica de desespero entrecortada no disco por versos em português recitados por Cida no teatro da canção. Versos que entreveem a finitude exposta em Anywhere I lay my head (Tom Waits, 1985). A caminho dos 66 anos, a serem festejados em novembro, Cida Moreira já espreita o fim com consciência de que coisas sagradas, como o canto cortante da dama, permanecem na escuridão dos tempos sob a impagável luz da arte. (Cotação: * * * * *)


(Crédito da imagem: capa do álbum Soledade solo. Projeto gráfico de Gabriel Martins)

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