Domingo de piano em Jurerê

Deixei, meio a contragosto, a jam session no bar do Il Campanario – entrevista na foto “mondrianica” de abertura dessa coluna de despedida do Jurerê Jazz Festival. Mas, com o voo de volta ao Rio partindo cedo na manhã desta segunda, o melhor a fazer é subir esse texto o quanto antes. Daí ter que abandonar o jazz de uma banda que, entrando pela madrugada da segunda, incorpora gente que já passou pelo palco do evento ou vai tocar amanhã, como o fluente violonista Felipe Coelho. Este é o escalado para nesta segunda Primeiro de Maio, a partir das 17h, fazer o show de encerramento no palco gratuito. Enquanto, às 20h, acontece O Grande Encontro – este, com ingresso, no clube P12 -, fechando a sétima edição do Jurerê Jazz. Contemporâneos e do mesmo Nordeste de Belchior, o show de Elba, Alceu e Geraldo ganha também um viés de homenagem ao cantor e compositor cearense.

Nesse domingo, no palco armado no shopping aberto do Jurerê Internacional, a proposta era uma noite de piano. Três trios (completados por baixo e bateria) estavam escalados e, mesmo com a ausência do primeiro, a programação se impôs. Dois ótimos pianistas, em estilos diversos, ambos exuberantes nos solos e de técnica segura: Luiz Gustavo Zago, catarinense de Lages radicado em Florianópolis, estaria mais para Bill Evans, enquanto o recifense Amaro Freitas mais para Thelonious Monk.

Zago, com Richard Montano (bateria) e Tiê Pereira, alternou boas composições próprias e variações para repertório conhecido que passou por Beatles, Nirvana e o bolero “Besame mucho”.

Há cerca de quatro anos, recebi de Zago seu primeiro CD solo, de 2010, “Até amanhã”, que deixara boa impressão, transitando por bossa e jazz a partir de formação clássica. Agora, ao vivo, a adesão de elementos do pop e mais groove aumentaram o interesse, com direito a bis pedido pelo público.

Em sua primeira passagem o Floripa, o pianista pernambucano Amaro Freitas também foi além do exuberante disco de estreia, “Sangue negro”, produção independente que teve lançamento em streaming no fim de 2016 e versão física coincidindo com o Jurerê Jazz de 2107.

Bela estreia, portanto, ao lado dos músicos que gravaram o disco, o baixista Jean Elton e o baterista Hugo Medeiros. No repertório estavam as seis longas faixas de “Sangue negro”, nas quais Amaro revira os fundamentos de frevo e samba. Uma delas, “Subindo o morro”, segundo a explicação do músico, trata-se de um “frevo balada”, termo que criou para o andamento lento que imprimiu ao habitual pipocante ritmo. Outro frevo, esse mais explícito e saltitante, “Encruzilhada” é cheio de quebradas e surpresas. O trio ainda apresentou duas composições novas do pianista, uma delas explorando uma das 20 formas do ritmo do coco pernambucano; mais uma do baterista (“Música pra gaveta número 5”); e dois iluminados clássicos, “Blue Monk” (de Thelonious Monk, uma das prováveis influências do jovem pernambucano) e, esta em número solo, a valsa “Luiza”, de Tom Jobim. Vigoroso, lírico e também cerebral, Amaro também ganhou a plateia, que o chamou para o bis.

Deixe uma resposta