Letras de Belchior expõem a pressa e fúria de viver do astro que sai de cena


“Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão / O meu som, a minha fúria e essa pressa de viver / E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza / E arriscar tudo de novo com paixão”, ponderou Antonio Carlos Belchior (1946 – 2017) em versos ardentes de Coração selvagem (1977), música que há 40 anos deu nome ao terceiro álbum do cantor, compositor e cearense. As letras passionais de Belchior dizem muito sobre a alma do artista que saiu de cena na noite de ontem, 29 de abril, em cidade do Sul do Brasil (leia texto sobre a trajetória do cantor).


Composto e gravado ao longo da década de 1970, o suprassumo do cancioneiro de Belchior expôs o som e a fúria daqueles anos de rebeldia sufocada pelo sistema. Já na primeira música gravada, Na hora do almoço (1971), o compositor pôs na mesa o silêncio ensurdecedor que anestesiava as relações familiares, num reflexo do medo que imobilizava a sociedade. Na obra que volta e meia citava músicas dos Beatles, Belchior expôs urgências e desesperos de uma juventude que viu, naqueles anos 1970, ruir os sonhos alimentados pela contracultura da década de 1960. “Ando mesmo descontente / Desesperadamente eu grito em português”, bradou Belchior em versos de A palo seco (1974).


O canto torto de Belchior soava mesmo cortante como as letras que remexeram em feridas geracionais e que deram a pista da angústia pessoal que paralisaria a vida do artista nos últimos anos. Belchior cantou a solidão das pessoas das capitais, como explicitou em versos de Alucinação (1976), música que batizou a obra-prima da discografia do artista. “Precisamos rejuvenescer”, avisou nos versos do rock Velha roupa colorida (1976), petardo do referencial álbum Alucinação. É que, já naquela época, Belchior percebeu que nossos ídolos ainda eram os mesmos, como concluiu, com boa dose de amargura e desilusão, na letra de Como nossos pais (1976), outra música do disco que sedimentou a obra do artista.


Contudo, ao mesmo tempo em que denunciou angústias e solidões, Belchior já se revelou, ele próprio, um solitário. “Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho / Deixem que eu decida a minha vida”, ordenou em Comentário a respeito de John (1979). John, claro, era John Lennon (1940 – 1980), o beatle que personificou o sonho da uma revolução contracultural que, pelo balanço feito por Belchior nas letras contundentes da obra do artista, já tinha fracassado.


A partir dos anos 1980, Belchior saiu progressivamente do caminho do mainstream e andou sozinho, pelas margens do mercado comum da música, mas sempre fazendo shows em que cantava as letras dessas músicas cheias de som e fúria. O cantor ensaiou algumas voltas em discos pouco ouvidos como Melodrama (1987) e Bahiuno (1993), mas a obra imortal da década de 1970 já tinha garantido a Belchior a eternidade no panteão de ídolos da MPB por conta de músicas valorizadas por letras cheias de paixão e pressa de viver. É por elas que o artista vai ser sempre lembrado…


(Crédito da imagem: Belchior em foto de divulgação)

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