Guardião da tradição, Criolo reproduz batidas perfeitas em álbum de samba


Ao se deparar com a ilustração criada pelo artista gráfico Elifas Andreato para a capa do álbum Espiral de ilusão (Oloko Records / Pommelo), Criolo batizou o desenho de Guardião. É na posição de guardião das tradições do samba que o cantor e compositor paulistano apresenta as armas e se coloca no disco disponibilizado nas plataformas digitais a partir de hoje, 28 de abril de 2017. Por mais que não traga a centelha de inovação esperada de um disco de sambas inéditos compostos por um rapper que vem quebrando barreiras nas quebradas, Espiral de ilusão gira redondo em torno da roda do gênero centenário.


Fica difícil identificar a contribuição dos produtores Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral no álbum, já que Criolo emula batidas perfeitas do samba ao longo das dez gravações de Espiral de ilusão, quase sempre com excelente resultado. As obras-primas do disco aparecem já na abertura, Lá vem você (Criolo) e Dilúvio de solidão (Criolo). Com versos dirigidos à mulher amada que abandonou o lar, Lá vem você traz o larará que, a rigor, é o mesmo laiáraiá de Martinho da Vila, muso inspirador de Criolo na composição do samba. Já Dilúvio de solidão derrama “chuva de saudade”, lirismo, melancolia e melodia à moda nobre de Paulinho da Viola. É nesse belo samba que aparecem pela primeira vez as vozes de Martinha Soares, Naloana Lima e Naruma Costa, formadoras do coro feminino intitulado Clarianas em alusão à cantora Clara Nunes (1942 – 1983) – coro, a rigor, mais evocador das pastoras das velhas guardas do samba do que da mineira Guerreira, voz luminosa do samba da década de 1970.


É com essas vozes e com os toques do cavaco de Ricardo Rabelo, das sete cordas do violonista Gian Correa e das percussões de Alemão, Guto Bocão e Maurício Badé que Criolo entra na roda do samba, bafejada pelo sopro de Ed Trombone. Por mais que o disco mande alguns recados sociais, como já haviam sinalizado os versos (“Eu não quero viver assim a mastigar desilusão / Este abuso social requer atenção / Foco, força e fé, já falou um irmão / Meninos mimados não podem reger a nação”) do refrão do single Menino mimado (Criolo), o artista apresenta um disco de samba tradicional tanto na cadência quanto na temática, mais próxima do universo poético do gênero – pautado em geral pela desilusão exposta em Calçada (Criolo), samba que remete às criações da Velha Guarda – do que da artilharia retórica dos manos do universo do hip hop. Criolo soa mais lírico e menos feroz no disco.


Curiosamente, esse toque mais atual da guerra civil dos cotidianos das periferias é o assunto do único samba não composto por Criolo, Hora de decisão (Ricardo Rabelo e Dito Silva). “O tempo fecha na favela / É fera engolindo fera / Quem não tem proceder já era”, avisa Criolo através de rimas alheias mais sintonizadas com a linguagem nua e crua das ruas e do rap.


Mesmo sem sair da roda tradicional do samba, Criolo se mostra o compositor inspirado que se consagrou há seis anos com o álbum Nó na orelha ( 2011). No samba Nas águas (Criolo), o rapper sambista se banha nas tradições afro-brasileiras e pede axé aos orixás. Em Filha do Maneco (Criolo, Ricardo Rabelo e Jefferson Santiago), samba de breque gravado em clima de samba-choro, Criolo narra a aventura do mano que enfrenta o futuro sogro, o tal Maneco, guardião machista das tradições da filha. Moreira da Silva (1902 – 2002) cantaria o samba.


No samba-título Espiral de ilusão (Criolo), mágoas de amores são destiladas em tons menores enquanto o artista dá um pito na musa amada que o deixou na sofrência. Já Boca fofa (Criolo) abre a janela de um salão de gafieira, para onde o samba é levado pelo toque de Ed Trombone enquanto Cria da favela (Criolo) faz o rapper entrar com ginga e propriedade na roda da chula e do samba baiano – com batidas marcadas nas palmas das mãos, com vozes (do coro e de todos os músicos) e com um fraseado próximo do coco de embolada – para tocar em temas atuais. “Delação premiada é jogo de poder / … / Criado em favela, é melhor não mexer”, adverte Criolo, provando que continua na linha de frente da música pop brasileira com este grande álbum de sambas inéditos e autorais, Espiral de ilusão, guardião atento de tradições centenárias. (Cotação: * * * * 1/2)


(Créditos das imagens: capa do álbum Espiral de ilusão, de Criolo. Arte de Elifas Andreato. Criolo em foto de divulgação de Caroline Bittencourt)

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