Espírito arisco de Itamar paira sobre primeiro CD da banda Isca de Polícia


É sintomático que a primeira e melhor música do primeiro álbum da banda Isca de Polícia se chame Arisca (Péricles Cavalcanti). Com a cadência descontinuada de samba, Arisca já mostra que o espírito desassossegado de Itamar Assumpção (1949 – 2003) – mentor da banda criada em 1981 para tocar com o Nego Dito – paira inquieto sobre Isca – Volume 1 (Elo Music / Tratore), álbum lançado neste mês de abril de 2017, com dez músicas inéditas, em CD e em edição digital.


Paira não somente o espírito, mas também a evocação do compositor paulista, citado nominalmente no atravessado samba As chuteiras de Itamar (Paulo Lepetit, Vange Milliet e Ortinho). Reverberações da estética do movimento musical rotulado como Vanguarda Paulista ecoam ao longo do álbum, aumentando o poder de sedução de músicas em si pouco atraentes como Corpo fechado (Vange Milliet) e Meus erros (Paulo Lepetit e Arrigo Barnabé).


E esse eco é o que mais importa neste primeiro disco da banda Isca de Polícia. A reunião de Jean Trad (guitarra), Luiz Chagas (guitarra), Paulo Lepetit (baixo), Suzana Salles (voz), Vange Milliet (voz) e Marco da Costa (bateria) faz sentido justamente por evocar o espírito arisco da música de Itamar Assumpção, compositor mais inspirado do que Paulo Lepetit, autor (com diversos parceiros) de oito das dez músicas do álbum.


É curioso que nem as presenças de nomes em tese dissociados da estética de Itamar – como Arnaldo Antunes (parceiro de Lepetit em Dentro fora e em Xis, rock no qual o ex-Titã também figura como cantor) e Zeca Baleiro (parceiro de Lepetit em É o que temos, é o melhor, tema antenado no qual o artista também pôs voz) – alteram a sonoridade marcante da Isca de Polícia. Ao contrário: todos entram no tom da Isca, fisgados pelo espírito de um som que conserva o frescor quase 40 anos após a criação do movimento surgido em 1980.


Se Atração pelo diabo (Paulo Lepetit e Carlos Rennó) vende a alma ao infernal rock’n’roll, Eu é uma coisa sobressai pela poética de Alice Ruiz, autora da letra da música de Lepetit. E aqui cabe lembrar que Ruiz foi parceira de Itamar, evocado no reggae Itamargou, presente de Tom Zé, vanguardista de outra era e de outra estética, mas em fina sintonia com a banda.


Enfim, o álbum Isca – Volume 1 mostra o que a banda tem para hoje. E o que tem é o melhor dessa banda atualmente, sobretudo se for levado em consideração que a (oni)presença do criador Itamar Assumpção no álbum é somente espiritual… (Cotação: * * * 1/2)


(Crédito da imagem: capa do álbum Isca – Volume 1, da Isca de Polícia. Arte de Gal Oppido)

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