Conexões musicais, pianos e datas

A hipocrisia reina no Brasil. Por que acreditar nas recentes afirmações do ex-presidente da OAS? O mesmo que, duas vezes antes, inocentara o Sapo Barbudo, agora, tenta algum benefício. Sob suspeita estão também as de pai e, trancafiado há quase dois anos, filho Odebrecht? Delações negociadas sob medida para o obcecado mib de Curitiba, ainda desesperada e fanaticamente necessitando de provas. Após três anos de cerco, continuam frágeis as denúncias contra Lula, que, como parece, no máximo, teria usado de laranja no sítio e desistido do triplex. Muito pouco se pensarmos no tanto desviado por gente como Cabral e Cunha, para ficar em dois exemplos fluminenses.

Se é para valer, que Temer, grande parte de ministério e Congresso, assim como dezenas de governadores e ex-presidentes-governadores-prefeitos sejam igualmente tirados de cena. Volta Dilma ou eleições diretas e gerais apenas para não delatados, se é que vai sobrar alguém. Então, chega de enrolação e passemos para a música.

@@@@@Afro-brasil-uruguai

Contemporâneo e miscigenado, moderno sem ser modernoso, “Parador Neptunia” (Dubas Música) começou a ser conferido meio no escuro, com infos filtradas no texto de divulgação. Normalmente, aguardaria a versão em CD que o selo Dubas promete para breve, mas regras também existem para serem quebradas. E motivos não faltam para justificar a transgressão, principalmente a força das 12 faixas do novo álbum da cantora e compositora Tamy, uma capixaba radicada há cinco anos em Montevideo. Foram muitas doses desde a manhã de ontem, 21 de abril, quando o disco foi liberado nas plataformas de streaming. Serviço prático mas, ainda precário, sem ficha técnica, tive que apelar para a rede social e a amizade com Tamy para conseguir os nomes de autores de canções e músicos e demais envolvidos.

Artista que acompanho desde a estreia em CD, em 2005, com o esperto “Soul mais bossa”, ela cresceu a cada nova tentativa, como provaram “Tamy” (2011) e, principalmente, “Caieira”. Este, de 2013, editado quando já estava radicada com o marido e também compositor, violonista e produtor musical Francisco Vervloet na capital uruguaia, mas com conteúdo trazido do Brasil, a partir da troca com artistas do século XXI (Donatinho, Lili Araujo, Alberto Continentino, Kassin, Francisco Vervloet) e pontuais participações de consagrados como Roberto Menescal e Jaques Morelenbaum.

Agora, Tamy vai muito além de minha expectativa (embaralhada pela possível falta de isenção) e de sua até então bossa pop grooveada. Em boa parte, graças à profunda imersão na cultura musical do pequeno grande país no qual está vivendo. Experiência que ajudou no crescimento da compositora e também da cantora, esta igualmente beneficiada pelo agenda de shows mais intensa, a partir do projeto “Tamy invita” que mantém desde 2012 com músicos da cena local e convidados brasileiros de passagem por Montevideo.

Produzido por Rodolfo Simor , que mantém em Vitória o estúdio Torre Inc e é conhecido por seu trabalho com outro capixaba, Silva, o também guitarrista (com inventivos solos aqui e ali) e multi-instrumentista gravou boa parte das bases, se desdobrando por guitarras, drum-machine, samplers, baixo, baixo synth, Fender Rhodes, orgão, arranjos de base. Através do disco, em mais dois outros estúdios, ambos no Uruguai, outros instrumentistas adicionaram cores locais, especialmente os percussionistas Ferna Nuñez (tambor “chico”), Noé Nuñez (tambor “repique”), Diego Paredes (tambor “piano”), com batuques usados em diferentes contextos, tanto em temas explicitamente afro-uruguaios quanto em canções e baladas mais etéreas. Algumas participações especiais também foram somadas ao material produzido por Simor e Tamy. O resultado é rico, diversificado, surpresas a cada faixa.

Ritmo afro-uruguaio por excelência, parente do afro-brasileiro samba, o candombe dá as caras em muitos momentos, integrado à alquimia musical que Tamy já tinha conseguido. Explicitamente, como em duas canções do veterano Ruben Rada, “Te parece” (vídeo aqui) e, esta com a voz e congas do músico, “Ayer te vi”; ou ainda de outros autores uruguaios, como “En un repique con vos” (de Sebastián Jantos, que também assina o arranjo de base).

Outros caminhos se abrem, delirantes como a bossa eletrônica “Estrellas”, esta, parceria com mais um lendário tecladista e compositor uruguaio, Hugo Fattoruso, que também toca piano e faz vocalises; a canção expressionista “Festa de Iabá” (escrita com Vervloet) ; o cântico “Amor de filha” (uma das três com letra e música de Tamy); as hipnótica-eletrônicas “Naná de Agua” (Ernesto Díaz) e “Imposibles” (Fernando Cabrera); ou baladas como “Alice” (Matheus Von Krüger) e a pastoral e viajante “Neptunia” que fecha o álbum. Esta, nome de uma praia no litoral norte do Uruguai, refúgio de alternativos, é a única sem as intervenções de Simor, e foi escrita pela cantora com Vervloet e ainda César Lacerda, que participa com violão e vozes, em instrumental acústico completado pelo acordeom de Hugo Fattoruso.

Diferentes e próximas, tendo a África como uma fonte comum, as culturas de Brasil e Uruguai dançam o pop planetário segundo Tamy e suas conexões.

@@@@@Pianos brasileiros

Até “Parador Neptunia” chegar, ontem, às plataformas de streaming e aos meus ouvidos, o piano brasileiro vinha dominando o pedaço. Apenas dois discos físicos na semana, mas grandes, ambos de relativamente novos pianistas fazendo música instrumental que caminha em paralelo com o jazz ou com o clássico. Um deles, Diogo Monzo, em seu terceiro disco solo, homenageando aquele que foi um dos nossos maiores pianistas, Luiz Eça; outro, Fabio Torres, com mais estrada e três discos no Trio Corrente, também se revelando ótimo compositor em “De cara pro sol”.

Nascido em Barra do Piraí, estado do Rio, vivendo em Brasília após se formar em piano no Rio, Diogo Monzo (site) migrou da música clássica para a popular, ou o jazz, após ser apresentado à arte de Luiz Eça. Após dois discos solos mais autorais, “Luiz Eça por Diogo Monzo” (Fina Flor) nasceu como conclusão de curso de mestrado na UNB e chega cercado de benções pianísticas. Além da inspiração de Eça (avalizada pela viúva deste, Fernanda Quinderé, coprodutora ao lado de Monzo e do baterista Di Stéffano), o CD foi registrado no estúdio Monteverdi, de outro talento contemporâneo das teclas, André Mehmari, responsável por gravação, mixagem e masterização – com exceção da faixa 5, “Imagem”, esta mixada por mais um jovem pianista fora de série, David Feldman.

Ou seja, não tem erro, em profundo painel da obra do criador do Tamba Trio. Este, um sucesso comercial em plena bossa nova que espalhou pelo Brasil dos anos 1960 a febre dos trios de piano, contrabaixo e bateria – um fenômeno, guardadas as proporções após cinco décadas, similar ao das duplas sertanejas masculinas que imperaram até a recente entrada em cena das mulheres da sofrência.

Voltando ao tributo de Monzo, ele não tenta reproduzir o estilo do pianista, que teria completado 81 anos em 3 de abril, mas partiu precocemente, aos 56 anos, em 1992. O foco é o compositor fabuloso que Eça também foi, através de oito temas. Um deles, “Imagem”, entra duas vezes no disco, ambas com participação de Mehmari no piano acústico, enquanto Monza, apenas nesta, toca o elétrico; sendo que uma versão é com a letra de Aloysio de Oliveira, na voz de Leila Pinheiro.

Seis das dez faixas foram gravadas em trio, completado por bateria (Di Stéffano) e contrabaixo (Bruno Rejan ou Sidiel Vieira), magistral no tratamento sinuoso que é imprimido ao clássico “The Dolphin” (esta a composição regravada por um dos inventores do jazz modal, Bill Evans). Em “Quase um adeus”, o trio vira quarteto graças ao acordeom de Lulinha Alencar; enquanto “Eçaniando”, único tema sem a assinatura do homenageado, é um improviso solo de Monzo.

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Belo tributo a Luiz Eça, que, nesta segunda, 25/4, ganhará outra homenagem discográfica. No Theatro Net Rio, acontece o show de lançamento de “Em casa”, projeto idealizado pelo baixista (e filho de Luiz) Igor Eça, gravado na Biscoito Fino por Dori Caymmi, Toninho Horta, Edu Lobo, Mauro Senise, Itamar Assiere , Jurim Moreira, Ricardo Costa e Zé Renato.

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Em “De cara pro sol” (Maximus), o pianista (e compositor dos 11 temas) Fabio Torres (site) alterna faixas de piano solo com acompanhadas por violoncelo (Heloisa Torres), violão/guitarra (Marcus Teixeira), contrabaixo (Paulo Paulelli) e flauta (Rodrigo y Castro). Valsas, choros e estudos sem fronteiras entre popular e clássico predominam no repertório. É vertente que está mais para a camerística do que a jazzística, e pela qual, para ficar em apenas uma e grande referência, tanto caminhou Jobim. É o que ouvimos na lírica “A menina que comia música”, apresentada por piano, cello e flauta; e em boa parte dos seis números de piano solo, especialmente “Venezuelana nº 2” e os “Estudos” nº 1 e 2. Mas há composições e interpretações nas quais as definições ficam mais difusas, ou, jazzísticas, caso de “Passeio (Dedicada a Rosa Passos)” – esta a cantora (compositora, violonista) com quem Fabio tanto trabalhou no Trio Corrente- , com o tema introduzido pelo piano, recebendo em seguida a companhia do contrabaixo (Paulelli, por sinal, é outro elo no Corrente) e da guitarra, ambos com direito a comentários.

Independentemente do escaninho, grande música, com muitos encantos e funções, entre elas, como resume Torres no título de outra composição, “Pra esquecer das Coisas Úteis”.

@@@@@Grande piano ao vivo

O feliz acaso de dois discos do novo piano brasileiro levam a outro pianista fundamental, veterano e contemporâneo, Osmar Milito. Sempre às sextas e aos sábados, com duas entradas, às 20h e às 23h, no Hotel Rio Othon Palace, na Avenida Atlântica, ele é o âncora do recente, e em fase de “soft opening”, projeto Mistura Mar, idealizado por Pedro Paulo Machado (que, por décadas manteve o clube de jazz carioca Mistura Fina). Neste fim de semana, Milito e o contrabaixista Augusto Mattoso apresentam o mais que oportuno passeio “De Luiz Eça a Bill Evans”.


@@@@@Jazz, blues, pop em Jurerê

Como comentei há duas semanas, Florianópolis está em pleno Jurerê Jazz, festival que começou nesta quinta-feira, dia 20, e vai prosseguir até 1º de maio. Boa parte da programação (90%) é gratuita e ao ar livre, e pode ser conferida aqui. Tema para explorar mais na semana que vem, quando, in loco, vou conferir os últimos dias da sétima edição do festival idealizado e produzido por Abel Silva (homônimo do escritor e letrista fluminense).


@@@@@22 de abril

Floripa que me faz lembrar também que, há um ano, aos 92 anos bem vividos, partiu meu pai, Salim Miguel, aqui fotografado em 2010 por um dos filhos, meu irmão Paulo Sérgio. Saudades e boas lembranças que permanecem.


Dia 22 de abril no qual, como me avisa o site “Jazz on the tube” , com um registro ao vivo em video de “Orange was the color of her dress, then blue silk”(aqui), Charles Mingus estaria completando 95 anos de vida. Deles, o contrabaixista, compositor, arranjador, bandleader (e também pianista, tem um disco de solo fabuloso, “Mingus plays piano”, em 1963) viveu apenas 56.

Em outra coincidência, ao procurar infos sobre um dos pianistas dessa coluna, vi que hoje também é o aniversário de Diogo Monzo. Portanto, parabéns duplo, pelos 32 anos e pelo tributo a Luiz Eça.

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