‘Songbook’ ilumina obra sombria e angustiada de Nelson Cavaquinho


Lançado pela editora Irmãos Vitale nos moldes gráficos da série de songbooks idealizada na década de 1980 pelo escritor violonista e produtor musical carioca Almir Chediak (1950 – 2003), o livro dedicado ao cancioneiro de Nelson Cavaquinho (29 de outubro de 1911 – 18 de fevereiro de 1986) joga luz sobre a obra sombria, por vezes mórbida, do compositor, cantor, violonista e cavaquinista carioca. Nelson Antonio da Silva imprimiu assinatura forte nos sambas que compôs com parceiros como Guilherme de Brito (1922 – 2006). O Songbook Nelson Cavaquinho alinha cifras e partituras de 60 desses sambas, sem esquecer obviamente clássicos do repertório do compositor como Folhas secas (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, 1973) e Juízo final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, 1973).


Na obra de Cavaquinho, não havia tempo para temer a morte. Nas letras dos sambas, a cara da morte era vista e ela, a morte, estava viva – o que gerou morbidez e luto precoce nos versos de sambas como Quando eu me chamar saudade (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, 1972). A despedida poderia ser somente para curtir a vida por breve período, como o Carnaval, como no samba Vou partir (Nelson Cavaquinho e Jair do Cavaquinho, 1965), mas a ideia da partida, da finitude (nem que seja a de um amor), geralmente está lá, entranhada em cancioneiro fiel à natureza boêmia deste poeta tão sem lei, como o próprio artista se autodefiniu em versos de Rei vadio (Nelson Cavaquinho e Joaquim Carvalho, 1973), samba com que o cantor e compositor Romulo Fróes batizou o estupendo álbum de 2016 em que celebrou, sem reverência, a obra de Nelson Cavaquinho.


Concebida filosoficamente na mesa de bar, essa obra está embebida de dor, mesmo que disfarçada pela falsa alegria assumida em Rugas (Nelson Cavaquinho, Ari Monteiro, Augusto Garcez, 1946). Com o canto rouco, fanhoso, e com o toque personalíssimo do violão (e do lendário cavaquinho que lhe deu o sobrenome artístico), o artista legou obra melancólica, angustiada, criada nas sombras de Luz negra (Nelson Cavaquinho e Amâncio Cardoso, 1961).

Imortal, o cancioneiro existencialista de Nelson Cavaquinho vive em mesas de bar, no choro solitário dos desamados, nas festas da Estação Primeira de Mangueira (escola-musa do poeta do samba) e, sobretudo, nas angústias dos atormentados pelas faces mais sombrias da vida. Na nobre escola poética da vadiagem existencial, Nelson Cavaquinho foi rei!


(Crédito da imagem: capa do Songbook Nelson Cavaquinho)

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