Ayrton Montarroyos olha canções como grande intérprete em belo CD


Mais do que uma bela voz, é preciso ter alma e vocação de intérprete para tirar um samba como Alto lá (Arlindo Cruz, Sombrinha e Zeca Pagodinho, 2000) da roda habitual e transportá-lo para um salão na cadência de samba-canção que cai no ritmo do tango, imprimindo uma até então insuspeita dramaticidade aos versos do pagode, sob a moldura de cordas orquestradas pelo arranjador Arthur Verocai. A proeza é de Ayrton Montarroyos, cantor pernambucano que ganhou projeção nacional há dois anos ao participar do programa The voice Brasil (TV Globo), (con)sagrando-se vice-campeão na temporada de 2015. A estilosa recriação de Alto lá exemplifica o olhar de (grande) intérprete com que o artista mira as canções que compõem o nada óbvio repertório do álbum Ayrton Montarroyos, lançado neste mês de abril de 2017 em edição do selo paulistano Perfexx.


A competente produção de Thiago Marques Luiz é valorizada pela presença de sete arranjadores – Arthur Verocai, Diogo Strausz, Rovilson Pascoal, Vinicius Sarmento, Vitor Araújo, Yuri Queiroga e Zé Manoel – que contribuem para a excelência do disco. Cantor que se apropria das canções, o que torna irrelevante o fato de a maioria das músicas do álbum Ayrton Montarroyos já terem registros fonográficos anteriores, o intérprete já diz a que veio na faixa que abre o disco, Diariamente (Paulo César Gyrão e Gérson, 1972), canção já gravada por cantores do alto quilate de Alaíde Costa, Emílio Santiago (1946 – 2013) e Pery Ribeiro (1937 – 2012), intérprete original do tema que Ayrton suaviza ao suplicar por um pouco mais de paz e amor matinais. A harpa celestial de Cristina Braga sobressai no arranjo de Yuri Queiroga, realçando a mansidão do alvorecer romântico.


Música até então nunca registrada em disco, Portão (Lula Queiroga) reabre a sensação de que Ayrton Montarroyos é disco de grandes canções gravadas com grandes arranjos na voz de um cantor que tem tudo para se tornar grande neste país de cantoras. O sopro do flugelhorn de Sidmar Vieira acentua o toque refinado do arranjo do guitarrista Rovilson Pascoal. Com faro para garimpar repertório, como o single com E então (Tiné) já sinalizara, Ayrton apresenta bela canção inédita de Zeca Baleiro – À porta do edifício, feita para Cauby Peixoto (1931 – 2016) e arranjada em clima seresteiro por Rovilson – e um bolero igualmente inédito de Zé Manoel, Tu não sabias, arranjado por Diogo Strausz com o toque límpido do piano de Zé, ouvido também na (deslocada) vinheta instrumental Do outro lado, creditada a Ayrton e inspirada por versão em português (escrita por Zé Manoel) da canção canadense On the other side (Jay Jay Johanson, 2011).


Com jeito de hit radiofônico, se ainda houvesse espaço nas rádios para um disco como o de Ayrton, Tudo em volta de mim vira um vão (Ângelo Souza, o Graxa, 2014) ganha polimento com o canto do intérprete e com as cordas arranjadas por Filipe Massumi. Já Não me arrependo (Caetano Veloso, 2006) poderia ser uma das grandes surpresas do disco se a já esquecida canção não tivesse sido abordada em 2015 por Laila Garin, intérprete da mesma grandeza de Ayrton. Em contrapartida, Que sejas bem feliz (Cartola, 2015) roça o sublime no tempo da delicadeza do arranjo de Yuri Queiroga e do toque da harpa de Cristina Braga.


Por fim, Vamos ficar sol (Tibério Azul e Ângelo Mongiovi, 2011) ilumina mais uma vez o canto grave e extremamente afinado de Ayrton Montarroyos entre as sete cordas do violão de Vinicius Sarmento, arranjador da faixa. Mas cabe lamentar que um grande disco como Ayrton Montarroyos omita imperdoavelmente os nomes dos músicos no luxuoso encarte da edição física em CD. Faltou rigor na revisão da ficha técnica. Felizmente, não faltou rigor na seleção do repertório, dos arranjadores e dos músicos. Afinal, um cantor se faz grande também – e sobretudo – pelas escolhas certas como as feitas por Ayrton neste estupendo primeiro álbum do artista. Ayrton Montarroyos é uma voz do Brasil! (Cotação: * * * * 1/2)


(Crédito da imagem: Capa do álbum Ayrton Montarroyos. Design de Raul Luna. Foto de Luan Cardoso)

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