Eliane Elias cai no jazz com influência do samba no álbum ‘Dance of time’


A música rotulada como bossa nova é, em síntese, samba com influência do jazz. No álbum Dance of time (Concord Jazz / Universal Music), Eliane Elias cai no jazz com influência do samba, seguindo trilha natural para quem se radicado nos Estados Unidos desde 1981. No disco, a artista faz pop jazz e dá voz a standards da canção norte-americana, como You’re getting to be a habit with me (Harry Warren e Al Dublin, 1932), com toques de samba, ritmo cujo centenário é celebrado por Elias no disco, o segundo gravado no Brasil por essa cantora, compositora e pianista paulistana.


Álbum produzido pela artista com Marc Johnson e Steve Rodby, Dance of time foi (bem) arranjado pela própria Elias com as batidas de músicos brasileiros como o violonista Marcus Teixeira, o baixista Marcelo Mariano, o baterista Edu Ribeiro, o guitarrista Conrado Goys e os percussionistas Gustavo Di Dalva e Marivaldo dos Santos. Dance of time resulta mais harmonioso e sedutor do que o antecessor Made in Brazil (2015), sem escorregar no terreno do samba para gringo. Ao contrário: a abordagem do samba-canção Copacabana (João de Barro e Alberto Ribeiro, 1946) em versão bilíngue, com arranjo vocal que remete aos conjuntos vocais dos anos 1940 e 1950 que fizeram a cabeça e os ouvidos de João Gilberto, é exemplo da maestria de Elias como arranjadora.


E por falar em João, O pato (Jayme Silva e Neuza Teixeira, 1960) – música que fazia parte do repertório do conjunto vocal Garotos da Lua na década de 1940, mas que somente foi gravada em disco por João em 1960 – faz qüen qüen com elegância na gravação que abre Dance of time. Como pianista, Elias mostra destreza para cair no samba sincopado de João Bosco, com quem canta Coisa feita (João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio, 1982). O problema é que, entre tantas músicas de alta estirpe, os eventuais temas de autoria da própria Eliane Elias, como By hand (Em mãos) e a balada Little paradise, jamais conseguem sobressair no repertório de Dance of time.


Cabe ressaltar também a sentida ausência do toque caribenho do piano de João Donato em Sambou sambou (João Donato e João Melo, 1964). Introduzida pelo sopro do flugelhorn de Randy Brecker, Speak low (Kurt Weill e Ogden Nash, 1943) é mais uma canção norte-americana reapresentada por Elias em Dance of time com sutil influência do samba, em caminho inverso da trilha percorrida pelos compositores da Bossa Nova.


Presença dupla em Dance of time, Toquinho recai com Elias no Samba de Orly (Chico Buarque, Toquinho e Vinicius de Moraes, 1970), em dueto pautado pela leveza, e toca violão em Not to cry (Pra não chorar), bela balada nostálgica composta em 1978 por Toquinho e finalizada recentemente pelo artista, em parceria com Elias, para o álbum. Toquinho interpreta a canção com Elias em apropriado tempo de delicadeza. Em contrapartida, ao cantar o samba-canção Na batucada da vida (Ary Barroso e Luis Peixoto, 1934), Elias parece pautada pela gravação antológica feita por Elis Regina (1945 – 1982) para álbum de 1974 – sem, no entanto, atingir o alto grau de interiorização e densidade da interpretação da cantora gaúcha. Contudo, Dance of time mostra que Eliane Elias sabe cair com elegância na cadência bonita do samba, ritmo que move este disco de aura mais jazzy do que jazzística. (Cotação: * * * 1/2)


(Crédito da imagem: capa do álbum Dance of time, de Eliane Elias)

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