Infusão de “Sangue negro” em semana de mágoa (esta, também positiva, nas mãos e cordas de Dori & PC)

Melhor começar pelo melhor, a música que sustenta essa coluna, deixando no pé a depressão. O pedido para o concerto no Municipal não foi atendido, mas o jazz bateu forte na semana que se encerra. E vai continuar como trilha nos próximos, em disco que não para de (me) tocar. “Sangue negro” (independente) é a surpreendente estreia do pianista e compositor Amaro Freitas, pernambucano de 25 anos que parece ter décadas nas costas, mesmo que soando com extraordinário frescor. Invenção, técnica e tesão conjugados em seis longos temas que ampliam as noções de um jazz com sotaque brasileiro.

No fim de 2016, a música de Amaro tinha me chamado a atenção num edital do qual fiz parte do júri. No início do ano, vi que o disco já estava nas plataformas de streaming e pude confirmar o quanto era inovador e vigoroso o trabalho do pianista e seus músicos (meio anônimos, já que apenas os nomes aparecem na Apple Music, sem os respectivos instrumentos). Enquanto não foi divulgado o resultado (que possibilitará um show de Amaro no Rio, no segundo semestre), e assediado por tantos outros títulos, deixei o álbum digital meio congelado. Versão em CD prensada e, finalmente, com os dévidos créditos ao alcance, “Sangue negro” voltou a rolar sem parar desde então esse. É música que se insere na grande tradição do jazz moderno, a partir do fim dos anos 1940 e inícios dos 50, quando a geração de Bird, Dizzy, Monk, Miles, Mingus aproximou o gênero nascido nos bordéis de New Orleans das correntes de vanguarda e das salas de concerto. Cerebral mas igualmente visceral, conectada ao mundo e ao seu habitat, e com muito de brasilidade em seu conteúdo. Produzido por outro grande pianista jazzista e brasileiro, este com mais estrada, o gaúcho Rafael Vernet, o disco traz nas quatro primeiras faixas a formação de piano (Amaro), contrabaixo (Jean Elton) e bateria (Hugo Medeiros).

“Encruzilhada”, na abertura do álbum, é a que mais bate em praias pernambucanas, tendo o saltitante frevo, conduzido por um sinuoso walking bass de Elton, como uma das referências. Encontro com o jazz que gera algo orgânico e indivisível, outras coisas. As duas seguintes, “Norte” e “Subindo o morro”, são temas mais líricos, que remetem à vertente modal introduzida por Bill Evans a partir do “Kind of blue” de Miles Davis. Enquanto “Samba de César”, confirma o título, com o gênero matriz da brasilidade tratado de forma desconstruída. Em “Estudo 0”, juntam-se ao trio o saxofonista Eliudo Souza e o trompetista Fabinho Costa, que reforçam o tom épico e andarilho do longo tema, que, à guisa de orientação, tem um ar de Coltrane em sua fase “A love supreme”. É ótima passagem para a faixa-título e de encerramento, também com o quinteto e longa (8’43’’), que tem introdução free e prossegue em forte pulsação, sangue negro, novo e pernambucano para o jazz.

Por feliz coincidência, vou assistir a uma das primeiras apresentações de Amaro Freitas fora de seus redutos. O pianista e compositor do “Sangue negro”é uma das atrações da sétima edição do Jurerê Jazz Festival, entre 20 de6 abril e 1º de maio. É programação na sua maioria gratuita e ao ar livre, que pode ser conferida aqui: Jurerê Jazz. Quando chegar minha hora, no último fim de semana do evento, contarei mais.

@@@@@Intervalo teatral

Antes de prosseguir na CDesovada, saio de minha trilha para compartilhar a descoberta que foi a estreia de “Palhaços”, peça que ficará em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim (Teatro Rogério Cardoso) até 30 de abril – sextas e sábados às 20h, domingos às 19h. Apenas dois atores no palco, Bernardo Peixoto e Cadi Oliveira (ambos formandos da escola de teatro CAL), sob a direção preci(o)sa do experiente Marcus Alvisi, que também adicionou cirúrgicas referências contemporâneas ao texto atemporal e impressionante de Timochenco Wehbi. Este um dramaturgo de Presidente Prudente, também sociólogo formado na USP e que trabalhou no movimento teatral do ABC paulista, morto aos 43 anos em 1986, que eu, em minha ignorância nas artes do palco, nunca ouvira falar.

Montada pela primeira vez em 1974, criada sob o impacto da obra de Fellini, a trama se passa no camarim de um circo caindo aos pedaços. Nele se encontram o palhaço da trupe decadente e um espectador amargurado, perdedor na vida, que enveredam por profunda conversa, cheia de atritos e revelações. Mais não conto para não cair no spoiler.


@@@@Piano e violão de aço

Retomo a música com mais instrumental brasileiro que anda de mãos dadas com o jazz, “The Finland Concert” (Guitarra Brasileira) é registro da apresentação que Wagner Tiso (piano) e Victor Biglione (violão de aço) fizeram em março de 2014 na cidade de Vantaa, nos arredores da capital finlandesa. Dupla que volta e meia se reúne, os dois vinham de turnê que passou por Espanha, Portugal, França, Itália e, mais que azeitados, serviram dez pratos com um cardápio na maioria de clássicos brasileiros. Samba, baião, balada com direito a floreios e improvisos viajantes. Em meio a, entre outros, Ataulpho (“Na cadência do samba”), Caymmi (“Saudades da Bahia”), Chico (“Sonho de um carnaval”), Jobim (“Eu sei que vou te amar”), Gil (“Procissão” emendada a “Expresso 2222”) e Cartola (“As rosas não falam”), a francesa (depois adotada pelos EUA) “Autumm leaves” (Prevert e Kosma) está muito bem ambientada. O mesmo vale para o único tema inédito, a vinheta composta na ocasião por Tiso, “Poema finlandês”. Sem erro.


@@@@@Fado por brasileiro

Na contramão dos recentes discos brasileiros dos portugueses Zambujo (cantando Chico Buarque) e Carminho (no tom de Jobim), o paulista de Santo André Edson Cordeiro volta com “Fado” (independente / www.edsoncordeiro.com). Editado na Alemanha, onde o contratenor vive há dez anos, o disco ganha turnê que rodará o Brasil entre fim de abril e junho.

Aos 50 anos, completados em fevereiro, Cordeiro é intérprete além da média com carreira que começa pela dance music, passa por pop e MPB e chega até o lírico. Diversidade que, segundo o currículo atualizado, se mantém, artista multiuso atendendo diferentes públicos e palcos. Agora, além do timbre e do estilo operístico que o aproxima dos quase sempre dramáticos fadistas, Cordeiro adota o sotaque lusitano. Para quem está desse lado do Atlântico, portanto, soa, com certeza, disco de música portuguesa – resta saber a opinião dos irmãos do além-mar (não fiz busca por resenhas lusitanas). São 11 faixas, algumas delas clássicos até para quem pouco mergulhou nesse maravilhoso mundo, como “Barco negro” e “Estranha forma da vida”. Entre elas, um raro espécime brasileiro no gênero, “Fado tropical”, de Chico Buarque e Ruy Guerra (nos créditos, sem o Ruy, identificado pelo restante de seu sobrenome, Guerra Coelho Pereira). Escrita nos anos 1970 e repleta de mensagens para o período ditatorial em que o Brasil estava afundado. À exemplo de Carminho, que pediu permissão a Chico para fazer mudança em trecho da letra de “Retrato em branco e preto”, Cordeiro consultou e foi autorizado a trocas mais profundas em “Fado tropical”.

@@@@@Pop pop

Fluente na onda que já se anuncia no nome artístico, Alexandre Grooves, “Multi” (independente, distribuição Tratore) também apresenta algo da diversidade proposta em seu título. São nove composições do cantor, compositor, multi-instrumentista, arranjador e produtor paulistano, e ainda a paralâmica “Ska”, esta em tratamento fiel, que pouco avança em relação à (boa) versão de Herbert, Bi e Barone.

Músico que tocou com, entre outros, Seu Jorge, Maurício Manieri, Jair Oliveira e o grupo Funk Como Le Gusta, este é o segundo disco de Grooves, dez anos após a estreia solo (“Amanhã eu não vou trabalhar”, 2007).

Leve e solto, quesitos que estão entre os motores da música pop. Como prova em “É tudo gente”, pop com letra de forte mensagem, antídoto para o discurso de ódio e racismo de gente como o deputado carioca-fascista e seus seguidores. Baladas como a funk “Sou louco por ela” e a pop “Garota da capa” podem lembrar do melhor Lulu Santos, enquanto o samba-rock “Cancela”, destaque no álbum, tem um quê do Djavan na ponta dos cascos.

@@@@@Novas e viciantes doses

Por fim, voltei, como prometido, ao novo de Dori Caymmi e, como previra, “Voz de mágoa” cresceu muito no ouvido. Doses que pediram outras, destravaram as sensações de poema musicado e exacerbada nostalgia de Paulo César Pinheiro, (o rosto desfocado da mão no ombro) e como um vício, o “disco de tristeza na vitrola” não para de tocar. Neste fim de semana, disputa cabelo a cabelo o título de mais executado nesse pedaço com o “Sangue negro” que abriu os trabalhos.

Mea culpa, portanto, que vale como lição para quem se mete a disparar opiniões apressadas. Nos já distantes anos 1990, antes de a internet e seu tempo real mudar as regras, os então ainda fortes jornais de Rio (JB e Globo) e São Paulo (Estadão/JT e Folha) achavam que ser mais rápido era o principal objetivo. O que nos forçava a muitos tiros no escuro. Lembro-me da resenha que cometi a partir de uma prova do clipe de “Haiti” passada por alguém da iniciante Conspiração para o subeditor de Cultura da vez. Pressionado pelo fechamento, ouvi o quase rap de Caetano e Gil num tocador de VHS com som de rádio de pilha (equivalente hoje ao de um celular sem fone de ouvido). Semanas depois, quando finalmente recebi o CD “Tropicália 2”, pude rever a opinião (sem explicar o que me levara à anterior).

De volta às novas músicas de Dori, ele compartilha dos mesmos sentimentos de seu parceiro mais frequente nos últimos anos, saudade de um mundo profundo e delicado, cada vez mais atropelado pelos tempos contemporâneos. Na medida certa (idem para ambiente e receptor), há momentos epifânicos. Canções de aparente e intencional monotonia que não param de gerar surpresas. Como “Canção sem fim”, questionando o anunciado fim das mesmas; “Disco”, captando a sensação que a música gravada produz; e “Padroeiro”, retrato cheio de mágoa da cidade do São Sebastião. Além das 13 com PC, mantêm o encanto, fechando o álbum, a única parceria com o saudoso Fernando Brant, “Serra do Espinhaço”; e “No coração das procelas”, esta, com Paulo Frederico e Pedro Amorim, já tinha se saído bem em álbum do ano passado que só conheci há duas semanas, “Mar aberto”, do quarteto Breno Ruiz, Roberto Leão, Renato Braz e Mario Gil. Como o desses discípulos, a “música do Brasil” de Dori é para ser sorvida com o devido tempo. E, por associação, passa-me o bastão para esses tempos de mágoa.


@@@@@Sempre dá para piorar

Realista e pragmaticamente, o mundo contemporâneo não permite otimismo para os humanos. Regrado mais por interesses econômicos do que qualquer outro fundamento ou disputa – seja político, religioso, filosófico… -, tal vertente gera a distopia que já vigora. A desigualdade entre nações poderosas e miseráveis aumenta; a disputa por recursos naturais e a destruição do meio-ambiente idem. Por mais que a medicina avance, são alarmantes os níveis de doenças: físicas, sejam novas ou antigas (como as transmitidas por mosquitos e demais vetores que pegam carona em aviões e navios transoceânicos e se espalham democraticamente); ou mentais, muitas acompanhando a humanidade desde sempre mas só identificadas no século passado, outras efeitos colaterais do mesmo admirável mundo industrial-tecnológico-internauta que me permite compartilhar esse texto em breve para qualquer um que estiver conectado na Terra.

Como um dos filhos não nos cansa de ensinar, caso Pato Donald e seu colega russo (mais chineses, norte-coreanos, israelenses e demais donos de armas atômicas) apertem seus botões, a Humanidade sumirá ou voltará para as cavernas, mas, a Terra, que já passou por outros fins do mundo, vai se recuperar.

Antes do pior, depende de cada um lutar contra tanta insanidade. No caso da Síria, por mais que o Assad da vez seja um déspota, não é a intervenção dos EUA que vai melhorar alguma coisa. Como exemplos recentes estão o Iraque de Saddam (sem as armas que, mentirosamente, foram usadas como motivo pelo Bush filho para a invasão) e a Líbia de al-Gaddafi, ambos só pioraram após americanos e aliados entrarem pesado. Ironicamente, o capenga governo trumpista teria se fortalecido após o bombardeio desta semana. Já vimos esse filme antes.

Se fosse egoísta, não teria motivos para nos últimos tempos ter transformado essa coluna sentimusical numa espécie de muro das lamúrias. Estou, estamos, K, nossos dois filhos, parentes próximos, entre aqueles que, apesar dos retrocessos no Brasil e no mundo, têm os direitos básicos garantidos. Poderia ligar o foda-se e sair pelo mundo tentando me esquivar dos conflitos (e não ficar livre de acidentes, em cada esquina). Plano de pé na estrada que não está descartado, mas, consciência é algo que quando bate não dá para desligar. Por muito tempo pensei que estaria imune aos conflitos, mas a escalada da direita hidrófoba está entre os motivos que me fizeram descer do muro.?

Não dá para, por exemplo, assistir de camarote a uma das vergonhas da semana no Rio. Os habituais vômito do deputado com ideias fascistas naquele clube que não merece usar seu nome. Mas, como sabemos, boa parte da comunidade judaica repudiou o convite. E, na verdade, sobre clubes continuo adepto da máxima de um dos Marx ilustres da mesma comunidade, Groucho: “Eu não frequento clubes que me aceitem como sócio!” Nem o Fluminense, com sede no mesmo bairro de elite (mas se garantindo graças aos garotos da periférica Xerém), pelo qual torço, mas sem fanatismo.

No Brasil, apesar do contorcionismos de analistas econômicos que tentam dourar a pílula, os indicadores continuam péssimos. O país se apequena e ridiculariza, grandes transações rolam nos bastidores; o Congresso afundado na lama e um STF cúmplice do golpe tentam dar verniz constitucional e mantêm o laranja/banana no Planalto enquanto for conveniente para a diabólica trama.

PS: peço perdão às frutas, as sem agrotóxicos não merecem a comparação.

PS2: crédito imagens, reproduções de capas CDs e divulgação da peça “Palhaços”.

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