Show em que Silva canta Marisa é o feliz ponto alto da carreira do artista


O show em que Silva canta o repertório de Marisa Monte é ponto alto e feliz na trajetória do cantor, compositor e músico capixaba. Quando saiu do palco da casa Vivo Rio na noite de ontem, 6 de abril de 2017, após cantar Não vá embora (Marisa Monte e Arnaldo Antunes, 2000), Silva já tinha conquistado o público ao dar voz e texturas novas a um cancioneiro já em si irresistível pela própria natureza pop. Mas o bis reservava uma surpresa para o público que foi à estreia carioca do show Silva canta Marisa. A rigor, uma surpresa já meio desvendada pelo público: a entrada da própria Marisa Monte em cena.


Após avalizar no palco o projeto do parceiro, dizendo ter ficado emocionada com o show, Marisa cantou com Silva a primeira composição gravada feita com os irmãos Lúcio Silva e Lucas Silva, Noturna (Nada de novo na noite), canção de beleza rara. Marisa reproduziu com perfeição o registro vocal da gravação feita com o parceiro para o álbum Silva canta Marisa (slap, 2016), mostrando mais uma vez porque é uma das melhores cantoras do Brasil de todos os tempos. Um trio de cordas foi posto em cena para este número e permaneceu no palco quando, na sequência, Marisa puxou Velha infância (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte, 2002) ao violão, com Silva nos teclados, fazendo a segunda voz e eventuais contracantos no hit tribalista.


E ainda teve mais. Manifestando a vontade de cantar uma música de autoria de Lúcio Silva e Lucas Silva, a cantora pegou um papel com a letra de Feliz e ponto e arriscou um dueto com o cantor na música lançada por Silva no álbum anterior, Júpiter (slap, 2015), e amplificada a partir de clipe gravado com imagens que difundiram a livre interação sexual de homens com mulheres e com homens.


Com liberdades estilísticas no roteiro do show dirigido por Marcus Preto, Silva foi além do cancioneiro autoral da artista e já abriu a apresentação com Chuva no brejo (Moraes Moreira, 1975), música que Marisa registrou no CD e DVD Barulhinho bom (1996). Desde este primeiro número, ficou evidente que Silva canta Marisa com total reverência às melodias. Os arranjos – quase todos calcados nos teclados pilotados pelo artista – situaram as canções em outro universo musical, mas sem jamais desfigurá-las. O que favoreceu a interação entre artista e público na estreia carioca do show. A pegada do arranjo da canção De noite na cama (Caetano Veloso, 1971) mereceu aplausos e menção honrosa.


Feito por Silva com o guitarrista Rodolfo Zamor (coprodutor do álbum que inspirou o show), o baixista Jackson Pinheiro e o baterista Hugo Coutinho, o show superou o disco. Até porque, ao vivo, músicas como Ainda lembro (Marisa Monte e Nando Reis, 1991) e o menos inspirado Tema de amor (Carlinhos Brown e Marisa Monte, 2000) ganharam energia. E, não raro, o coro do público. Tanto que, antes da entrada de Marisa no bis, o número aplaudido com mais entusiasmo na apresentação tinha sido Amor, I love you (Marisa Monte e Carlinhos Brown, 2000), música incluída no roteiro horas antes da estreia carioca e cantada a plenos pulmões pelo público.


Amor, I love you foi encaixada no bloco acústico em que Silva, ao violão, cantou Sonhos (Peninha, 1977) – em momento que remeteu mais a Caetano Veloso do que a Marisa, ainda que a cantora tenha registrado a canção no primeiro DVD, Marisa Monte ao vivo (1988) – e A sua (Marisa Monte, 2001).


Silva acertou na dose de efeitos e programações eletrônicas. Eles entram no percurso de Na estrada (Carlinhos Brown, Nando Reis e Marisa Monte, 1994), por exemplo, sem desviar a canção do curso melódico original. O bonde do dom (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte, 2006) também passou pelo trilho melódico original do disco de sambas lançado por Marisa há 11 anos, Universo ao meu redor (2006).


Aliás, a arquitetura do cenário do show de Silva evocou o set cinematográfico que emoldurou um dos shows mais refinados de Marisa, Universo particular (2006), perpetuado no DVD Infinito ao meu redor (2008). Como cantor, Silva brilhou ao reviver O que me importa (Cury, 1971) com a dose exata de melancolia embutida na canção lançada por Adriana, mas popularizada na voz de Tim Maia (1942 – 1998) em 1972 e revivida por Marisa no álbum da cantora que mais parece ter pautado Silva neste projeto, Memórias, crônicas e declarações de amor (2000).


Em contrapartida, o cantor caiu mal no suingue dos Novos Baianos ao dar voz a Eu sou o caso deles (Moraes Moreira e Luiz Galvão, 1972) e ao tentar desvendar O mistério do planeta (Moraes Moreira e Luiz Galvão, 1974), músicas que Marisa registrou no DVD Barulhinho bom – Uma viagem musical (1996) com os próprios Novos Baianos.

Silva acertou novamente a rota da própria viagem quando voltou para o cancioneiro autoral de Marisa, cantando sucessos como Eu sei (Na mira) (Marisa Monte, 1991), música que mostra o bom domínio que a artista tem do idioma da composição pop, e Beija eu (Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Arto Lindsay, 1991). Enfim, pode ser que haja quem feche os ouvidos para o canto do repertório de Marisa por Silva. Mas, ao menos na apresentação carioca, o show Silva canta Marisa soou extremamente feliz. E ponto final. (Cotação: * * * *)


(Crédito das imagens: Marisa Monte e Silva no palco da casa Vivo Rio, em fotos de Mauro Ferreira, na estreia carioca do show Silva canta Marisa)

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