Historiador faz um inventário dos horrores do pós-guerra

Capa do livro 'Continente selvagem'O final da Segunda Guerra costuma ser associado a imagens de alegria e celebração, com multidões nas ruas recebendo em festa os soldados aliados. Em “Continente selvagem – O caos na Europa depois da Segunda Guerra Mundial” (Zahar, 504 pgs. R$ 89,90), o historiador britânico Keith Lowe mostra que não foi bem assim. Mergulhada na anarquia e no caos, a Europa foi cenário de um festival de atrocidades inomináveis, que se estenderam, em alguns países, durante anos após o armistício. Em outras palavras, os europeus continuaram se matando mesmo após o fim do conflito: esta é uma história de violência e vingança, não de reconstrução e reconciliação.

Em todo o continente, 35 milhões tinham sido mortas e cidades inteiras foram arrasadas. Lowe lembra que a distribuição das mortes foi desigual: a Inglaterra registrou 300 mil mortes, enquanto a Alemanha perdeu 6 milhões, e a União Soviética, 27 milhões. A essas cifras obscenas da morte, acrescente-se o drama dos desumanos deslocamentos populacionais em massa – na Polônia, Hungria, Romênia, Iugoslávia, Estados bálticos e na própria Rússia – sem falar na fome endêmica e na implosão dos padrões morais que vigoravam antes de 1939. Terminada a guerra, a quase total ausência de instituições fez emergir o pior de cada indivíduo – em muitas regiões não havia mais polícia, jornais, transportes, bancos, hospitais, mercados, dinheiro, governos locais.

Com base numa pesquisa exaustiva em arquivos de diferentes países, Lowe cobre um arco temporal que vai do final da guerra, em 1944/45, ao estabelecimento de um equilíbrio ainda instável no continente, já no fim da década de 1940. Nos países libertados, alemães e colaboradores foram caçados, mutilados e torturados, ou sumariamente executados; um violento antissemitismo renasceu – 1.500 judeus que sobreviveram ao nazismo na Polônia foram assassinados por poloneses entre a liberação pelos soviéticos e o verão de 1946; outras minorias foram barbaramente perseguidas; e dezenas de milhões de pessoas foram expulsas de suas terras ancestrais.

O livro se divide em quatro partes, cada uma mais horripilante que a outra na descrição das barbaridades cometidas por e contra pessoas comuns em praticamente todos os países da Europa, em uma atmosfera de ressentimento e ódio sem limites. Na primeira, “O legado da guerra”, Lowe faz um balanço da destruição física de cidades inteiras e da destruição moral e psíquica de boa parte dos sobreviventes. Narra também o drama dos refugiados, a tragédia da fome e as diversas formas de violência que se tornaram rotineiras em todo o continente: o capítulo sobre os estupros em massa é particularmente brutal, com dados estatísticos e relatos assustadores.

Na segunda parte, “Vingança”, o autor investiga a motivação da violência descontrolada, com as antigas vítimas de campos de trabalho escravo e ex-prisioneiros de guerra se transformando em carrascos capazes de descontar anos de brutalização em todos aqueles que associavam a seus algozes – incluindo mulheres e crianças. A taxa de criminalidade subiu assustadoramente, economias entraram em colapso e boa parte da população, no limiar da fome, abandonava qualquer princípio moral para sobreviver.

Na terceira parte, “Limpeza étnica”, além dos desdobramentos da tentativa de extermínio do povo judeu, Lowe apresenta a tragédia de outras etnias perseguidas e assassinadas aos milhares, particularmente na Europa Oriental, onde antigas rivalidades represadas se transformaram em episódios sangrentos, com matanças que envolveram vários outros povos. Dezenas de milhares de poloneses foram dizimados por ucranianos; búlgaros massacraram gregos; e húngaros liquidaram iugoslavos. Muitos aproveitaram o cenário de caos para resolver também disputas ideológicas: comunistas foram perseguidos na Europa Ocidental, e capitalistas no Leste.

Na parte final, “Guerras dentro da guerra”, são relatados conflitos localizados e persistentes que não terminaram no Dia da Vitória. Lowe analisa em detalhe o drama dos países que se libertaram do ocupante nazista apenas para serem ocupados em seguida pelos invasores soviéticos, no processo de subjugação da Europa Oriental pelas tropas de Stálin. Por fim, estabelece a ponte entre o pós-Segunda Guerra e a Guerra Fria, que determinaria os rumos do planeta nas décadas seguintes. A Segunda Guerra, afirma o autor, não foi apenas uma batalha por território: foi também uma disputa racial e ideológica que estava na raiz de mais de uma dezena de pequenas guerras civis.


Mais que uma história definitiva de um período até aqui estudado apenas de forma fragmentada, “Continente selvagem” vale como um lembrete de que a fronteira entre a civilização e a barbárie é muito mais tênue do que parece. É uma leitura dolorosa, mas necessária.

Leia abaixo um trecho de “Continente selvagem”:

“Imaginem um mundo sem instituições. Um mundo em que as fronteiras entre os países pareçam ter se dissolvido, deixando uma paisagem única, interminável, na qual as pessoas viajam em busca de comunidades que não existem mais. Não há mais governos, sejam eles em escala nacional ou local. Não há escolas ou universidades, não há bibliotecas ou arquivos, nenhum acesso a qualquer tipo de informação. Não há cinemas ou teatros, e, certamente, não há televisão. O rádio de vez em quando funciona, mas o sinal é distante, e quase sempre em uma língua estrangeira. Ninguém vê um jornal há semanas. Não há ferrovias ou automóveis, não há telefones ou telegramas, não há correio, nenhuma forma de comunicação a não ser o que é passado de boca em boca.

Não há bancos, mas isso não causa uma grande dificuldade porque o dinheiro não tem mais nenhum valor. Não há lojas, porque ninguém tem nada para vender. Nada é feito aqui: as grandes fábricas e comércios que costumavam existir foram todos destruídos ou desmantelados, bem como a maioria dos outros edifícios. Não há ferramentas, a não ser o que pode ser desenterrado do lixo. Não há comida.

A lei e a ordem virtualmente não existem, porque não existe força policial ou judiciário. Em algumas regiões parece não existir mais nenhum sentido claro do que seja certo ou errado. As pessoas se servem do que querem sem respeitar o direito de propriedade – na verdade o sentimento de propriedade em si praticamente desapareceu. Os bens pertencem apenas àqueles que são fortes o bastante para preservá-los e àqueles que se dispõem a guardá-los com as próprias vidas. Homens armados percorrem as ruas pegando o que desejam e ameaçando qualquer um que procure impedi-los. Mulheres de todas as classes se prostituem por comida e proteção. Não existe vergonha. Não existe moral. Existe apenas sobrevivência”.

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