Histórias de família

Na parte inferior esquerda da imagem, a estrela Eta Carinae, que já foi uma das mais brilhantes do céu noturno terrestre.

O pai chegou em casa exausto. Os filhos, uma menina de cinco anos e um menino de sete gritavam, brigavam e corriam pela casa esbarrando nos adultos. O jovem pai, numa tentativa de ficar em paz, segura as crianças pela mão: “Se vocês pararem com essa algazarra e forem para o quarto brincar quietos com seus ipads eu dou tudo o que me pedirem”. Esperança parou imediatamente e olhando firme, plantada em suas duas perninhas fortes no chão asseado, perguntou assustada: “Tudo mesmo, papai?” O pai, querendo se ver livre, respondeu displicente: “Tudo”. A menina levantou o rosto e de olhos bem abertos pediu: “Então traga minha vó Maria de volta”.

A avó Maria falecera dois anos antes. À Esperança disseram que tinha ido para o céu. Tinha virado uma estrela. A menina não se conformou, e pediu ao pai o impossível.

A menina de cinco anos sente falta da vó Maria. Quando vai à casa do vô Francisco, logo pede para olhar a gaveta em que a avó guardava as maquiagens. Brinca um pouco com os batons escolhendo a cor mais bonita. Para diante de algum perfume e aspira forte com o seu narizinho encostado à tampa. Volta-se para o avô e diz. Agora vamos ver Pele de asno, o conto de fadas na versão de Jacques Demi estrelado por Catherine Deneuve, um filme de 1970.

A menina de cinco anos já viu o filme mais de trinta vezes. Senta-se ao lado de Francisco e fica vidrada, paralisada. Fixada na história. Mas volta e meia olha para o lado e pergunta: “Você está chorando vovô?” E não espera a resposta para não perder nem um minuto da história até o desenlace final. Aí corre para o colo do avô e passa os dedinhos no canto de seus olhos para ver se há lágrimas.

Esperança de cinco anos já sabe que há coisas impossíveis de serem alcançadas. Sabe também que existem a paixão e o amor. E conhece o sentimento expresso nas grossas lágrimas do avô Francisco.

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