Com 29 músicas, álbum de Alexandre Pires como ‘crooner’ peca por excesso


Sem nominá-la, Caetano Veloso cita implicitamente a série fonográfica Aquarela brasileira, responsável pela explosão popular do cantor carioca Emílio Santiago (1946 – 2013) a partir de 1988, no texto em que apresenta o álbum duplo DNA musical, lançado por Alexandre Pires neste mês de março, por ora somente nas plataformas digitais (as edições em CD duplo, em DVD e em kit com CD e DVD chegam ao mercado fonográfico a partir de abril pela gravadora Som Livre). Mesmo sem nominar a série de discos gravados por Emílio com sucessos da MPB, Caetano cita explicitamente a admiração do cantor mineiro pelo ofício de crooner exercido por Emílio nestes discos.


Alexandre Pires canta bem. O talento vocal e o star quality do Mineirinho ficaram evidentes desde que o artista despontou na primeira metade da década de 1990 como vocalista e líder do grupo de pagode Só pra Contrariar. Só que Alexandre não é Emílio Santiago, um dos maiores cantores brasileiros de todos os tempos, dono de voz aveludada e extremamente afinada, celebrado no repertório de DNA musical com regravação de Saigon (Cláudio Cartier, Paulo César Feital e Carlão, 1985), canção que Emílio tomou para si ao regravá-la em 1989 no segundo dos sete discos da série Aquarela brasileira.


Neste DNA musical, projeto audiovisual produzido por Paula Lavigne com Fernando Young, Pires expõe vícios e virtudes, a sós ou com convidados estelares, em gravações captadas em vídeo para o vindouro DVD. O repertório é, no geral, excelente. De todo modo, se era para homenagear Roberto Carlos, artista geralmente refratário à liberação de composições de lavra própria, Pires poderia ter escolhido canção mais emblemática do que Eu e ela (Mauro Motta, Robson Jorge e Lincoln Olivetti, 1984), gravada no álbum em que o Rei começa a dar voz a repertório menos nobre. Em Eu e ela, aliás, Pires evoca o timbre macio da voz de Emílio sem o mesmo refinamento.


Contudo, o maior problema de DNA musical são os limites de Pires como intérprete de canções que exigem densidade emocional. A abordagem de Trocando em miúdos (Francis Hime e Chico Buarque, 1977) é exemplo perfeito de que, não, não basta um cantor ter boa e afinada voz para ele se tornar legítimo intérprete de qualquer música. Pires cai muito bem no samba sincopado Amor até o fim (Gilberto Gil, 1966). Já os floreios vocais e instrumentais que adornam o registro de As rosas não falam (Cartola, 1976) põem em segundo plano o lirismo poético do tema.


Do ponto de vista instrumental, a produção musical e os arranjos de Pedro Ferreira – executados por músicos de incessante virtuosismo como o baterista Carlos Bala, o baixista Jorge Helder, o saxofonista Marcelo Martins e os guitarristas Leo Amuedo e Torcuato Mariano, entre outros do mesmo naipe – armam cama confortável para Pires rolar em homenagens a ícones da música brasileira, como Tim Maia (1942 – 1998), lembrado com Bons momentos (Marcos Cardoso e Michel, 1982), balada doída de saudade, daquelas a que Tim sabia dar o devido valor e entonação.


Como reafirma a interpretação de Deixa eu te amar (Agepê, Camillo e Mauro Silva, 1984), Pires sabe cair bem no samba, inclusive nos de tom mais popular, caso deste hit sensual do cantor Agepê (1942 – 1995). Os arranjos de DNA musicalnos sambas estão mais para boate do que para terreiro. Nesse contexto, Café com leite (Martinho da Vila e Zé Katimba, 1996) não chega a soar fraco na gravação feita por Pires com Martinho da Vila.


A propósito, boa parte do marketing feito em torno do álbum DNA musical reside no fato de o projeto juntar Pires com ícones como Djavan, com quem ele desfolha Pétala (Djavan, 1982) com beleza e de quem canta (com propriedade) medley com os sambas Capim (1982), Serrado (1978), Fato consumado (1975) e Flor de lis (1976). Já o chamado de Jorge Ben Jor não basta para fazer O telefone tocou novamente (Jorge Ben Jor, 1970) reverberar na cadência sedutora do compositor do tema. A questão é que um crooner, por mais eficiente que seja, fica aquém dos intérpretes originais (tanto que o supra-sumo da discografia de Emílio Santiago está concentrado nos álbuns da década de 1970).


Essa diferença de patamar fica evidente quando Pires cai no samba para celebrar Elis Regina (1945 – 1982) com medley que agrega Águas de março (Antonio Carlos Jobim, 1972), É com esse que eu vou (Pedro Caetano, 1947) e Madalena (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, 1970). Em Madalena, samba cheio de soul, arranjo e interpretação perseguem os matizes da gravação original de Elis. Mesmo quando atinge nível mais alto de interpretação, como no samba Kid Cavaquinho (João Bosco e Aldir Blanc, 1974), Pires somente ombreia outros intérpretes do tema. Em A flor e o espinho (Nelson Cavaquinho, Alcides Caminha e Guilherme de Brito, 1947), o crooner se fere ao tentar adensar o tom da interpretação, pois essa densidade emocional não faz parte do DNA musical do cantor. Basta ouvir o registro pálido de Estranha loucura (Michael Sullivan e Paulo Massadas, 1987) e compará-lo com a gravação original de Alcione, com quem Pires já abordou a música em dueto gravado em 1998 para álbum da Marrom. O Mineirinho cai mais à vontade na leveza pop do Lindo lago do amor (Gonzaguinha, 1978).


O fato é que, das 29 músicas reunidas nas 24 faixas de DNA musical, somente Pérola negra (Luiz Melodia, 1971) ganha grande e original interpretação que cai em suingue que reforça o blues embutido no tema, em faixa já adiantada no EP editado em janeiro com as gravações de Por causa de você (Antonio Carlos Jobim e Dolores Duran, 1957), Você não entende nada (Caetano Veloso 1970) – samba gravado em dueto com Caetano Veloso, convidado também do registro seresteiro de Meu bem, meu mal (Caetano Veloso, 1981) – e Ive Brussel (Jorge Ben Jor, 1979), cantada na cadência do reggae em dueto com Seu Jorge.


É fato também que, no confronto com os habituais álbuns de Pires, DNA musical ganha longe no que diz respeito ao repertório e ao padrão dos arranjos. Mas sofre com a reversão das altas expectativas (a bem da verdade, já parcialmente diluídas em janeiro com a edição do EP). Das faixas com convidados, o dueto com Milton Nascimento em Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967) merece menção honrosa porque os cantores procuram tons e nuances para tentar renovar composição já tão gravada.


A inclusão de músicas como Ah! Como eu amei (Jota Velloso e Ney Velloso, 1981) – um dos últimos hits radiofônicos do cantor Benito Di Paula, regravado por Pires com dose de suingue cubano adicionado ao fim da faixa – respeita o DNA musical de artista que sempre transitou por repertório mais popular, geralmente longe do universo da MPB predominante neste projeto idealizado com a intenção de dar upgrade a Pires no mundo da música, ainda que caiba lembrar que convidados como Gilberto Gil, presente (com a voz sem viço por conta de já superados problemas de saúde) na filosófica Deixar você (Gilberto Gil, 1982), já gravaram com o anfitrião na fase áurea do grupo Só pra Contrariar. Álbum longo que roça uma hora e 40 minutos de duração, DNA musical tem lá bons momentos. Mas peca pelo excesso. Com 24 faixas, soa irregular. Com 12, poderia ser considerado bom. Menos é mais! (Cotação: * * 1/2)


(Crédito da imagem: capa do álbum DNA musical, de Alexandre Pires)

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