Riva emerge do mar de Caymmi com o álbum mais sedutor da discografia


Marina de la Riva demora a cair no samba de Dorival Caymmi (1908 – 2014) na primeira das 14 faixas do álbum Rainha do mar, lançado pela gravadora Universal Music neste mês de março de 2017. Antes de começar a cantar o samba que dá nome ao disco gravado sob a direção musical de Ricardo Valverde, Rainha do mar (1939), a cantora carioca de ascendência cubana dá voz ao Canto a Yemanjá (André Luiz e Tio Jorge). Quando finalmente cai no samba de Caymmi, a faixa – de longos nove minutos e 35 segundos – se torna deliciosamente irresistível com a cadência do samba misturada com o balanço latino do piano de João Donato, arranjador da faixa em parceria com os músicos da gravação. Em que pese a duração excessiva dessa faixa-título, Riva geralmente acerta ao mergulhar no mar de Caymmi com referências e cantos de temas de outras praias. Esse link do cancioneiro de Caymmi com o universo musical de países como Cuba e Argentina diferencia Rainha do mar – Marina de la Riva canta Caymmi de outros songbooks dedicados ao cancioneiro do compositor baiano.


Quase sempre, a conexão é inspirada e soa legítima, apropriada. A canção É doce morrer no mar (Dorival Caymmi e Jorge Amado, 1941), por exemplo, é envolta em refinado e delicado arranjo assinado pelo violonista Wesley Vasconcelos e o bandolinista Agnaldo Luz com Riva (produtora do álbum) e o músico Ricardo Valverde, sendo valorizada com a inclusão da zamba argentina Alfonsina y el mar (Ariel Ramírez e Félix Luna, 1969) em link plenamente justificado pela conexão temática entre as composições de versos poéticos. Outro exemplo bem-sucedido da conexão da obra de Caymmi com o universo musical hispânico é a junção de Acalanto (1957) – em arranjo lúdico criado por Valverde com evocação do mundo infantil pelo toque do vibrafone – com Este niño lindo, lindo e tradicional acalanto mexicano.


Em contrapartida, nem a récita de Oração à Rainha do Mar (Marina de la Riva) tira Riva da superfície com que entra em Sargaço mar (1985), um dos temas mais densos do repertório de Caymmi. Já o piano e o arranjo de João Donato tampouco pintam Marina (1947) de forma a tornar o samba-canção realmente envolvente. Mas quase todo o disco é interessante, como mostra o registro de O bem do mar (1954), canção praieira cantada por Riva em duo terno com Danilo Caymmi. Riva também seduz quando cai nos sambas Doralice (Dorival Caymmi e Antônio Almeida, 1945), Saudade da Bahia (1957) e Vestido de bolero (1944), todos envoltos em roupagens feitas na medida das rodas de choro.


Dentro da roda do samba de Caymmi, Riva também acerta o tom buliçoso de Rosa Morena (1942), dando certo ar rural ao tema. A propósito, o acento caipira de Sodade matadeira (1948) reitera o êxito do diretor musical Ricardo Valverde na criação de arranjos surpreendentes que exploram nuances do cancioneiro de Caymmi sem desfigurar repertório de arquitetura já originalmente irretocável. Perto do fim do disco, o samba-canção Só louco (1955) se impõe como outra boa surpresa do disco, conseguindo soar renovado com o arranjo minimalista criado pelo baixista Fábio Semeshima com o toque do baixo em primeiro plano. Riva e Ney Matogrosso dividem a interpretação de Só louco e Dos gardenias (Isolina Carrillo, 1947) – bolero acoplado ao samba-canção – em tons interiorizados, mas sem drama.


Riva arremata o álbum Rainha do mar com a junção dos cânticos afro-brasileiros Oração de Mãe Menininha e Canto de Nanã, ambos lançados por Caymmi em 1972 e acoplados no disco com os temas afro-cubanos Babalu (Margarita Lecuona, 1939) e Drumi Ogguere (Gilberto Valdés, 1939?). Pelas conexões afinadas, Marina de la Riva emerge do mar de Dorival Caymmi com o melhor álbum da discografia da cantora, conseguindo dar um recorte inédito e bonito a um cancioneiro já tão (bem e mal) gravado. (Cotação: * * * *)


(Crédito da imagem: capa do álbum Rainha do mar – Marina de la Riva canta Caymmi. Arte de Juanito Jaureguiberry e Martin Lehmann)

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