Tchau, Georgios Kyriacos Panayiotou

2016 não perdoa, mata. E, na música, Dona Morte tem trabalhado além da conta. George Michael pode ter produzido pouco para o tamanho de seu talento e para o que se esperava dele, mas deixa uma obra irretocável, num trajeto que começa pelo pop, anima as pistas de dança, vai fundo no soul e flerta com jazz. Lançado em 1999, seu quarto álbum solo, “Songs from the last century” é um exemplo do grau atingido pelo cantor, dessa vez, apenas mergulhado em repertório de outros autores. Muitos standards jazzísticos (como “You’ve changed”, clássico na voz de Billie Holiday) e também do pop (como “Roxanne”, do police Sting, mas em roupagem para jazz crooner algum botar defeito). Se fosse para escolher um só, esse seria o disco. Mas, o compositor também deu provas de sobras de maestria, desde a balada “Careless whisper”, que lançou quando ainda integrava a dupla Wham! com Andrew Ridgeley.

Ao surgir, esbanjando jovialidade no Wham!, não dava para imaginar que George Michael iria tão longe. Perfil alegre do qual começou a se descolar já no seu brilhante disco solo de estreia, “Faith” (1987). E ainda mais no segundo, “Listen without prejudice, Vol.1”, genial até na capa (a foto de uma praia lotada, em 1940, em Coney Island, de Weegee, pseudônimo do fotógrafo americano nascido na Ucrânia Arthur Usher Fellig). Esse álbum foi lançado em 1990, quando o jovem artista deu mostras de que começava a perder a fé na indústria cultural. O garoto bonitão e talentoso que deixava as meninas molhadas não era o que se pensava/esperava dele.

Como se sabe, bateu de frente com sua gravadora, Sony, e, devido a esse litígio, ficou seis anos sem lançar álbum inédito, até voltar, em 1996, com o soturno e belo “Older”, que dedicou postumamente a dois brasileiros, o companheiro Anselmo Feleppa (vítima da Aids em 1993) e Tom Jobim (que morreu em dezembro de 1994).

A ligação de George Michael com o Brasil se intensificou a partir de janeiro de 1991, quando fez o show mais surpreendente do Rock in Rio 2 – naquela edição, o festival aconteceu no Maracanã. Fui um dos convertidos pelo arrebatador concerto, calcado na música soul, e, desde então aguardei uma segunda dose, que nunca houve. Tchau, Georgios Kyriacos Panayiotou.

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