Poeta alagoano publica livros feitos à mão utilizando material reciclado

Papelão, papel reciclado e linhas de costura. Foi com esses materiais que o alagoano Arthur Martins, o “Tattu”, produziu e lançou seu primeiro livro de poesias, “Poeninhos”, além de trazer ao estado um movimento chamado Cartoneira, que busca difundir literatura a partir de materiais reciclados e de fácil acesso.

O movimento, cujo nome remete a cartón (papelão em espanhol), surgiu na Argentina, em 2002, durante uma severa crise econômica e política daquele país. O poeta Washington Cucurto encontrou no lixo que tomava as ruas de La Boca, em Buenos Aires, uma saída para manter sua antiga editora, fazendo livros com capas de papelão. O título das obras e a arte da capa eram pintadas à mão.

A partir daí o movimento começou a se espalhar por outros países, inclusive pelo Brasil. Arthur Martins conta que o primeiro contato que ele teve com esse tipo de produção foi durante uma viagem a Pernambuco, em 2014.

“Eu tava passando alguns dias em Garanhuns, e vi um cara de longe com uma bicicleta e uma bandeira escrito ‘poesias’. Acabei conhecendo um poeta, Andrea Ribas, que também faz os livros dele em Cartoneira. Acabei comprando o livro. Conversamos bastante e depois fui à casa dele em Recife e descobri um mundo imenso que representa esse movimento”, conta Martins.

Ele explica que a maioria das Cartoneiras é feita com pintura, no entanto, ao voltar para Alagoas, resolveu dar um toque mais pessoal ao trabalho. “Até onde eu sei, a que eu faço é a única feita com bordado”.

Livro é feito com papelão, papéis reciclados e linha de costura (Foto: Derek Gustavo/G1)Livro é feito com papelão, papéis reciclados e linha de costura (Foto: Derek Gustavo/G1)

O primeiro livro de Arthur, “Poeninhos”, foi lançado na Bienal do Livro de 2015, sob o selo independente TATUdo Dito Cartoneiras, criado por ele e pela esposa, Cássia Jesus.

“Quando eu conheci o movimento, que visa diminuir custos na produção e traz ressignificação para o papelão, pensei logo que poderia lançar minhas poesias. Eu sempre escrevi poesias, mas guardava. Foi depois que eu percebi que podia publicar. Pelos caminhos normais, achei que não poderia, mas depois que descobri a “Cartoneira”, tudo mudou, eu poderia lançar minha obra”, diz o poeta.

Produção artesanal

Arthur e a esposa coletam nas ruas o material utilizado nas publicações, e fazem cada uma delas à mão, de forma artesanal.

“A gente coleta o papelão no Centro. Todas as lojas colocam muito papelão na rua. Pegamos a quantidade que a gente precisa, que já vem no formato que facilita a confecção, e trazemos para casa. Aqui temos um molde, cortamos no formato do livro, e depois fazemos a marcação para fazer o bordado da capa, ponto por ponto, e para prender as páginas”, relata Martins.

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A única parte que não é feita na casa deles é a impressão das páginas. “Quando lançamos na Bienal, todo o processo, inclusive a impressão, foi feito aqui em casa. Mas a impressora não aguentou o trabalho, e agora fazemos em uma gráfica”, conta Cássia.

Após a coleta do papelão, eles levam um dia inteiro para fazer dois livros. Como o processo de produção é totalmente artesanal e feito à mão, o que impossibilita uma produção maior, eles fazem os livros por encomenda.

“Esse formato é incrível, porque torna-se algo completamente pessoal. A poesia é da capa até o ponto final da última poesia. Se torna algo próprio do autor. O livro ‘Poeninhos’ é de fato meu, porque tem meu suor. É literalmente autoral, diz Martins.

“A Cartoneira possibilita lançar autores, pessoas da periferia que não tem como publicar suas obras. A nossa é recente, e a gente tá pensando em levar oficinas para pessoas que muitas vezes não têm acesso à literatura. Quem sabe não existam pessoas que saibam escrever, que saibam se expressar, e que podem enxergar na Cartoneira uma plataforma para espalhar suas obras”, conclui Cássia.

Futuro

O movimento Cartoneira, embora recente em Alagoas, já começa a mostrar frutos. Depois do sucesso na Bienal, em que todos os exemplates de “Poeninhos” foram vendidos, Arthur já começou a preparar mais dois livros. Outros autores também demonstraram interesse em fazer parcerias para publicações.

“No ano que vem, tenho dois lançamentos no estilo cartoneiro. Um voltado para o público juvenil e outro para o público geral. Também já recebemos convites para lançar livros de outras pessoas, para lançar através do selo ‘TATUdo Dito’. Já estamos conversando com eles, e estamos abertos a mais parcerias”, conclui Arthur.

Arthur e a esposa fundaram o selo independente "TATUdo Dito Cartoneira" (Foto: Derek Gustavo/G1)Arthur e a esposa fundaram o selo independente “TATUdo Dito Cartoneira” (Foto: Derek Gustavo/G1)

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