‘Hardwired to self-destruct’: Metallica mostra força, mas peca pelo excesso

Metallica (Foto: Divulgação)Metallica lança disco duplo com 77 minutos de duração (Foto: Divulgação)

A duração do novo disco do Metallica é proporcional ao tempo que esperamos para ouvi-lo. Oito anos após “Death magnetic” – maior intervalo da carreira -, sai “Hardwired… To self-destruct”, com 12 faixas e 77 minutos. Sim, há musicas dispensáveis. Mas também há ótimas faixas que, se bem selecionadas, reforçarão o show no Lollapalooza São Paulo, em março do ano que vem. O G1 separa o joio do trigo no faixa a faixa abaixo.

 

LOLLAPALOOZA 2017
Festival rola em 25 e 26 de março em SP

O álbum é divulgado como “duplo”, o que faz cada vez menos diferença na era do streaming. Mas pode render uma graninha a mais do fiel fã-clube que ainda compra cópias físicas. O lançamento oficial é nesta sexta-feira (18), mas um dia antes foram lançados clipes para todas as músicas (clique abaixo para assisti-los).

Assim como em “Death magnetic”, você ouvirá por aí: o Metallica voltou às raízes e está na melhor forma desde o “Black album” (1991). O papo repetido até tem sua razão: as melhores faixas têm elementos que lembram de “Kill’Em all” (1983) até boas partes da irregular era “Load” (1996). Mas que fique claro: mesmo se você achar esse o melhor em 25 anos, não espere algo tão bom quanto os álbuns de 1991 para trás.

O problema de “Hardwired… To self-destruct” são músicas que tiram o pé do acelerador e se arrastam, sem inspiração – nada a ver com “Death magnetic”, mais ligado no 220 do thrash metal. Se tirassem um punhado de faixas (minha lista negra: 3, 6, 8 e 10), sobraria um discasso. Letras pessimistas, de uma distopia tecnológica, são ponto a favor. É um mérito desafiar a era do déficit de atenção, e exigir que o fã fique quietinho ouvindo no tempo em que faria 462 snaps. Mas, seja em 1983 ou 2016, ainda vale a lição: menos é mais.

1 – “Hardwired” – Veja o clipe

A faixa quase-título abre o disco com um galope feroz de bateria e baixo.  A música de três minutos é direta e rápida. O solo agudo com mil notas por segundo vai agradar a adolescentes hiperativos e fãs de Alvin e os Esquilos. Lembra uma versão simplificada da época de “Kill’em All” (1983). A duração da primeira divulgada do disco dá impressão errada: as outras são bem maiores.

O tema da autodestruição e distopia não poderia ser mais atual com o resultado das eleições dos EUA. O apocalipse inevitável vem “no caminho da paranoia”, canta James. “Você percebe que a esperança está se apagando?”. Sim. Começo certeiro. (PS: A interpretação política é nossa, já que James Hetfield odeia o assunto e, apesar de se assumir conservador, nunca fala de eleições e partidos).

Metallica no vídeo de 'Atlas, rise' (Foto: Divulgação)Metallica no vídeo de ‘Atlas, rise’ (Foto: Divulgação)

2 – “Atlas, rise!” – Veja o clipe

Essa lembra o “New Wave of British Heavy Metal” que Lars idolatrava no início dos anos 80, quando estava começando com o Metallica. As viradas de bateria, o riff de guitarra que acompanha o vocal no refrão e até a letra sobre figuras mitológicas remetem ao Iron Maiden.

A voz menos melódica, claro, é a antítese dessas bandas. Atlas é um dos titãs da mitologia grega, que perdeu uma batalha contra Zeus e foi condenado a carregar o céu nas costas. Mas não é uma história de lamentação. O recado de James para Atlas é: segura esse choro.

3 – “Now that we’re dead’ – Veja o clipe

Em escala descendente de velocidade, a pressa de “Hardwired” virou essa faixa lenta e com trechos de guitarra cadenciada. Tinha até potencial de fazer cabeças balançarem. Mas, infelizmente, é pouco vibrante. É um pastiche de Metallica. Os sete minutos são desde já candidatos a melhor momento para comprar uma bebida ou fazer xixi no Lollapalooza.

A coisa ainda piora no meio, quando entra um solo horroroso que nem o wah-wah disfarça. A letra amarra o pessimismo da primeira faixa e a resignação da segunda. Há luz na escuridão e tudo tem seu lado bom, eles dizem. O verso “Quando as chamas queimarem / Talvez aqueçam nossos ossos morrendo” é uma lição Pollyana heavy metal que você respeita.

4 – “Moth into flame” – Veja o clipe

Ufa, o nível volta a subir. Surgem mais traços melódicos de guitarras emprestadas do metal britânico da geração anterior à dos americanos. A voz de James é até enfeitada com overdub e aparentes efeitos no pré-refrão. Mas isso não compromete a agressividade típica deles.

A letra, que deve ser a mais comentada do álbum, ataca “rainhas pop” obcecadas pela fama – as tais “mariposas na luz”. A decadência social é descrita como uma “destruição que se torna viral”. Uma ótima forma de ser atual sem deixar de ser Metallica.

5 – “Dream no more” – Veja o clipe

Aqui eles se arriscam e acertam no tom mais épico do disco. Quando o vocal entra, a música já mudou duas vezes de dinâmica. A sonoridade das guitarras super graves de lentas dá uma cara de metal contemporâneo – como se seguissem o rumo de “Load” (1996). James sobe a voz, com mais pompa do que o normal.

O tema da música é velho conhecido dos fãs: o universo do escritor de terror H. P. Lovecraft. Ele já inspirou “The call of ktulu” (1984), “The thing that should not be” (1986) e “All nightmare long” (2008). O coisa-ruim mitológico Cthulhu das histórias do autor ajuda a reforçar a mensagem apocalíptica.

6 – “Halo on fire’ – Veja o clipe

No início, tem um dos trechos mais levinhos do disco, com dedilhado que lembra as faixas mais acessíveis da era “Load” e “ReLoad” (1997). Seguem oito minutos e quinze de uma música que não justifica tempo tão grande – mesmo problema de “Now that we’re dead”.

Os riffs levam do nada a lugar nenhum e tentam se resolver em um suposto final triunfante. O encerramento com “alô escuridão, diga adeus” é feito sob medida para marcar o final do primeiro disco. A letra fatalista sobre desejos que dão errado tem um resumo básico: de boas intenções o inferno está cheio. O mesmo se pode dizer dessa música.

James Hetfield canta para milhares de fãs do Metallica no Palco Mundo (Foto: Luciano Oliveira/G1)James Hetfield no Rock in Rio (Foto: Luciano

Oliveira/G1)

7 – “Confusion” – Veja o clipe

Uma batida marcial anuncia a segunda parte do álbum duplo. A voz só entra com um minuto e meio. James encarna um soldado acordando após a guerra – é fácil lembrar da clássica “One”. O soldado da música nova ainda consegue sentir e se mover, mas perde lentamente a sanidade.

A faixa é mais coesa do que outras. O tema de guerra inspira a bateria e até o solo, que remete aos gritos do soldado que não consegue esquecer os horrores da batalha. Claro que não chega aos pés da velha música que faz o Boça do “Hermes e Renato” ficar bem louco e chapar o coco, mas tudo bem.

8 – “ManUNkind” – Veja o clipe

O eco no vocal de James na ponte remete à faixa título de “Master of puppets”. Tem até uma melodia marcante, mas falta estofo para uma faixa que quer parecer grandiosa. A repetição do refrão à exaustão tem jeito de encheção de linguiça.

O trocadilho adolescente do título (que transforma a palavra humanidade em algo como desumanidade, em inglês) é digno da página “Crítica Social F*da” no Facebook. A letra sobre a fraqueza de Adão no Jardim do Éden é a que vai mais longe no tema central do disco: basicamente, a humanidade deu errado.

9 – “Here comes revenge” –  Veja o clipe

Tem todos os clichês do Metallica – o “ah” cuspido no final do verso, a introdução longa com variações do mesmo riff, a bateria sozinha com um dedilhado antes da entrada da voz -, mas funciona. Tem o equilíbrio entre peso e apelo pop que foi alcançado em “Black album” (1991).

O mito da vez é a história bíblica de Caim e Abel, os filhos de Adão da faixa anterior. A vingança é encarnada com o que o Metallica tem de melhor: raiva e sangue nos olhos. Dá força ao segundo disco, no geral mais fraco que o primeiro.

10 – “Am I savage?” – Veja o clipe

Outra música pouco inspirada que parece só marcar presença para justificar um disco duplo. Tudo previsível. Uma das poucas coisas fora da curva é a guitarra quebrada do pré-refrão e da parte final, que serviria melhor a uma banda mediana de nu-metal do que ao Metallica.

A letra conversa com “ManUNkind”, mas fala sobre a própria desumanidade: um ser que deixa de ser humano, atingido por uma espécie de vírus que também ataca seus iguais. “Eu sou selvagem?”, pergunta James.

11 – “Murder one” – Veja o clipe

A faixa mais curtinha do segundo disco (só 5:46), com letra que cita versos do Motörhead em homenagem a Lemmy, é mais lenta e pesada, de um jeito que o Metallica faz com o pé nas costas. Sem novidade, mas bem resolvida. Falta um refrão matador para ser uma música recomendável para tocar entre “Enter sandman” e “Welcome home (Sanitarium)” no Lolla.

É uma boa faixa para tentar pesar as vantagens e desvantagens de se fazer um disco de “volta às origens”, que remeta demais às glórias passadas. Tudo bem, é legal, mas qual a razão para ouvir isso e não as duas faixas citadas no parágrafo anterior?

12 – “Spit out the bone” – Veja o clipe

Oba, voltou a velocidade da faixa de abertura, “Hardwired”. O thrash metal afiado é um ótimo encerramento para um disco de altos e baixos. Só que tem mais do dobro do tempo da primeira música. Será que a banda – principalmente Lars Urich – vai ter fôlego para mandar bem essa ao vivo?

A letra termina bem a história, em tom pessimista, mas até com um pouco de humor. A “desumanidade” é confirmada e os homens são dominados de vez por máquinas. Os versos são mensagens para que os humanos transformem seus corpos em computadores – e “cuspam os ossos”, avisa James. Crítica social f*da.

Capa do novo disco do Metallica, 'Hardwired... To self-destruct' (Foto: Divulgação)Capa do novo disco do Metallica, ‘Hardwired… To self-destruct’ (Foto: Divulgação)

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