‘Animais fantásticos e onde habitam’ é ‘Harry Potter’ maduro e militante

Não julgue um livro pela capa. Nem um filme pelos primeiros 30 minutos. É bastante chato o início de “Animais fantásticos e onde habitam” (assista ao trailer acima), que estreia nesta quinta-feira (17). O começo desse filhote (adulto) de “Harry Potter” serve apenas para matar a saudade dos fãs da saga – e para matar de sono o público em geral.

saiba mais

Mas depois a magia acontece. A superprodução – que é derivada de Potter, foi escrita pela mesma autora, J.K. Rowling, e mostra muita bruxaria – sobrevive aos próprios defeitos: enredo simplório, personagens (todos novos, ninguém da franquia original volta) idem, atuações apenas discretas e um desfecho meloso e tão apaixonado por ele mesmo que se recusa a, de fato, acabar. Mas o saldo é positivo.

O filme segue, com toda a correção do mundo, a receita do provável sucesso.

Tem visual e conteúdo atraentes, computação gráfica convincente – que vale o orçamento gigantesco –, humor, suspense, terror, romance, drama, aventura e, como se não bastasse, ação.

E tem a mensagem militante (não exatamente sutil e sempre muito acessível) do tipo “diga ‘não’ à intolerância e ao preconeito, não segregue os diferentes”. Se você pensou que este é um “Harry Potter” com figuras adultas, de teor maduro, na linha dos “X-Men”, você pensou certo.

O protagonista aqui não é uma criança ou um adolescente, mas um bruxo dos anos 1920 (papel de Eddie Redmayne) que guarda em sua maleta um verdadeiro zoológico cheio das criaturas bem bizarras que batizam o longa (veja imagens de alguns deles ao fim do texto).

Cena de 'Animais fantásticos e onde habitam' (Foto: Divulgação)Cena de ‘Animais fantásticos e onde habitam’ (Foto: Divulgação)

‘Momento FAQ’

Antes de continuarmos, um breve momento FAQ (dúvidas mais frequentes):

1. “Animais fantásticos e onde habitam” vai convencer os fãs de “Harry Potter”?

Sim, vai. A autora é a mesma (J.K. Rowling, que estreia como roteirista), o diretor é o mesmo (David Yates, felizmente muito superior ao que cometeu no recente “A lenda de Tarzan”), o clima é o mesmo. Tem bruxaria, seres mágicos, mensagem editificante, aquela coisa.

2. Mas então vale só para fãs de ‘Harry Potter’?

Não, nada a ver. Quem nunca viu o original pode acompanhar sem problemas. Embora derivado de “‘Harry Potter”, este “Animais fantásticos…” se passa 70 anos antes. Sai Londres, entra Nova York. Saem os personagens juvenis, entram adultos. E entra mais humor também.

3. Então o filme novo “para em pé” sozinho?

É um subproduto que justifica sua existência para além da ambição financeira de ser blockbuster e faturar como o fanatismo dos órfãos do bruxo. E que ambição: antes mesmo da estreia, já havia sido anunciado que “Animais fantásticos…” vai ser uma saga com cinco capítulos.

Eddie Redmayne e um dos seres incomuns de 'Animais fantásticos e onde habitam' (Foto: Divulgação)Eddie Redmayne e um dos seres incomuns de ‘Animais fantásticos e onde habitam’ (Foto: Divulgação)

Números

Os números aqui não são detalhe insignificante. “Animais fantásticos e onde habitam” deriva de uma série best-seller escrita que vendeu 450 milhões de cópias de seus sete volumes, com tradução para 79 idiomas. Nos cinemas, rendeu oito filmes, que arrecadaram mais de US$ 7 bilhões em todo o mundo.

Na trama original, Harry Potter usava na escola de bruxaria um livro didático chamado justamente “Animais fantásticos e onde habitam”. Foi a esse material que J.K. Rowling recorreu na hora de dar continuidade à obra.

Ela assina o roteiro (e faz tudo bem esquemático, sem medo de apelar às vezes a clichês de soluções bem mágicas e milagrosas, parecendo criativas mas sendo de fato somente preguiçosas). Já a direção ficou com David Yates, que tem no currículo quatro filmes de Potter. Ou seja: tudo em casa e com aprovação prévia dos fãs.

Cena de 'Animais fantásticos e onde habitam' (Foto: Divulgação)Cena de ‘Animais fantásticos e onde habitam’ (Foto: Divulgação)

História 70 anos antes de Potter

“Animais fantásticos e onde habitam” se passa 70 anos antes de “Harry Potter”. Estamos em 1926 quando Newt Scamander, descrito como um “magizoologista” (quer dizer, sujeito que estuda criaturas mágicas) desembarca em Nova York. Ele tem uma mala onde guarda os tais bichos extraordinários cativantes e eventualmente assustadores. Em resumo: um protoecologista.

O intérprete deste protagonista é o superestimado Eddie Redmayne, ganhador do Oscar por “A teoria de tudo” (2014), em que fez o físico-celebridade Stephen Hawking. Redmayne é um pouco afetado, mas não a ponto de constranger. Não quer ser maior que o personagem nem que o texto, assim como a maior parte do elenco de famosos (Colin Farrell, Ezra Miller, John Voight).

O destaque é Dan Fogler na pele de um cômico “não-mágico” que estrela momentos às vezes “O Gordo e o Magro” com Redmayne. E também as atrizes Alison Sudol e Katherine Waterston. Os três são os mais carismáticos da turma. (É ótima a ideia de conceber um “galã” que foge ao estereótipo do bonitão.)

O quarteto central de 'Animais fantásticos e onde habitam'; a partir da esquerda: Katherine Waterston como Tina Goldstein; Eddie Redmayne como Newt Scamander; Alison Sudol como Queenie Goldstein/; e Dan Fogler como Jacob Kowalski (Foto: Divulgação)O quarteto central de ‘Animais fantásticos e onde habitam’; a partir da esquerda: Katherine Waterston como Tina Goldstein; Eddie Redmayne como Newt Scamander; Alison Sudol como Queenie Goldstein/; e Dan Fogler como Jacob Kowalski (Foto: Divulgação)

Mensagem ‘madura’

Mas no fim o que importa é mesmo a história, os cenários arrebatadores que a computação gráfica onipresente é capaz de conceber. É como se, em cada sequência vistosa em 3D, o diretor berrasse que não é feitiçaria, é tecnologia. E é como se, em cada conflito, J.K. Rowling repetisse que xenofobia, racismo, machismo e preconceitos são mais perigosos que a bruxaria do mal propriamente dita.

Não é por acaso que tudo se passa em Nova York pós-1ª Guerra Mundial e pré-crise de 1929. Nem é por acaso que, na cidade, os bruxos são perseguidos e vivem em uma comunidade isolada em clima de paranoia.

“X-Men” é tão referência quanto o contexto da época (o nazismo surgiria não muito depois) e o contexto de hoje. Mastigado, mas nada gratuito. J.K. Rowling sabe o que falar e como falar ao seu público. E aqui em nível às vezes francamente superior a alguns filmes de “Harry Potter”.

Para alívio e curiosidade geral, este primeiro “Animais fantásticos e onde habitam” termina de um jeito suficientemente instigante para tolerarmos ao menos mais um. Um feito: vale para “Potterheads” e vale para quem sequer sabe o que vem a ser Hogwarts. 

Ron Perlman em cena de 'Animais fantásticos e onde habitam' (Foto: Divulgação)Ron Perlman em cena de ‘Animais fantásticos e onde habitam’ (Foto: Divulgação)
Colin Farrell como o bruxo Percival Graves em 'Animais fantásticos e onde habitam (Foto: Divulgação)Colin Farrell como o bruxo Percival Graves em ‘Animais fantásticos e onde habitam (Foto: Divulgação)
Grupo de não-mágicos, ou não-maj, contrários à convivência entre bruxos e humanos na Nova York de 1926 que é cenário de 'Animais fantásticos e onde habitam' (Foto: Divulgação)Grupo de não-mágicos, ou não-maj, contrários à convivência entre bruxos e humanos na Nova York de 1926 que é cenário de ‘Animais fantásticos e onde habitam’; Ezra Miller interpreta o frágil Credence (com um folheto na mão), que sofre abusos da perversa mãe adotiva (Foto: Divulgação)
John Voight é um magnata da mídia e pai de um senador em 'Animais fantásticos e onde habitam' (Foto: Divulgação)John Voight é um magnata da mídia e pai de um senador em ‘Animais fantásticos e onde habitam’ (Foto: Divulgação)
Pelúcio, um dos seres extraordinários de 'Animais fantásticos e onde habitam'; com jeitinho fofo e carismático, ele é um ladrão de coisas brilhantes que não resiste a uma joia sem guardá-la sob sua pelagem de capacidade aparentemente infinita (Foto: Divulgação)Pelúcio, um dos seres extraordinários de ‘Animais fantásticos e onde habitam’; com jeitinho fofo e carismático, ele é um ladrão de coisas brilhantes que não resiste a uma joia sem guardá-la sob sua pelagem de capacidade aparentemente infinita (Foto: Divulgação)
Um dos seres incomuns de 'Animais fantásticos e onde habitam' (Foto: Divulgação)Um dos seres incomuns de ‘Animais fantásticos e onde habitam’ (Foto: Divulgação)
Seminviso, um dos seres surreais de 'Animais fantásticos e onde habitam'; ele tem a capacidade de ficar invisível (Foto: Divulgação)Seminviso, um dos seres surreais de ‘Animais fantásticos e onde habitam’; ele tem a capacidade de ficar invisível (Foto: Divulgação)
Criaturas que habitam a maleta do bruxo Newt Scamander (Eddie Redmayne) em 'Animais fantásticos e onde habitam' (Foto: Divulgação)Criaturas que habitam a maleta do bruxo Newt Scamander (Eddie Redmayne) em ‘Animais fantásticos e onde habitam’ (Foto: Divulgação)

 

Deixe uma resposta