Rocinha é cenário de filme visto por mais de 1,6 milhão de pessoas na web

Cena do filme Fuga da Rocinha (Foto: Divulgação)Cena do filme Fuga da Rocinha (Foto: Divulgação)

A ideia era fazer um filme na Rocinha fugindo de estereótipos. O plano deu certo e, com pouco mais de R$ 3 mil de recursos próprios, o roteirista e diretor Antônio Junior produziu o longa “Fuga da Rocinha”, que já foi assistido por mais de 1,6 milhão de pessoas no YouTube. Em entrevista ao G1, ele falou sobre o projeto.

Além de atingir o número expressivo de visualizações, a experiência fez com que moradores da comunidade pudessem vivenciar o universo do cinema de perto e participar dele. Antes de rodar o longa, em junho de 2015, Antônio promoveu oficinas de interpretação, roteiro, técnicas de cinema no local. Muitos atores do núcleo da Rocinha no filme são moradores de lá.

“Muitos meninos de lá já estão dirigindo curta-metragens, a gente empresta material para eles. Isso é muito gratificante”, conta Antônio. O diretor acredita que sucesso do filme na internet (único canal oficial de exibição do longa é o YouTube) se dê por conta da curiosidade dos moradores da comunidade se enxergarem numa produção de cinema. 

“Pelos comentários que a gente vê no canal, a gente percebe que grande parte dos espectadores é de lá, mas também já foi visto por muitas pessoas de outros estados”, acrescenta.

A escolha pela exibição no YouTube foi feita para que o filme pudesse ser consumido para quem não tem hábito de ir ao cinema ou por quem não tem dinheiro para pagar as entradas. “Esse é o primeiro filme de ficção rodado na Rocinha, queria que as pessoas se reconhecessem ali”, afirma.

Relações entre os personagens

“Fuga da Rocinha” conta a história de Anderson (Andrey Lopes), jovem de classe alta morador de Copacabana, e de Eliza (Maiara Queiroz), moradora da Rocinha. Os dois iniciam um romance, mas,na primeira vez que Anderson vai conhecer a comunidade em que ela vive, acaba testemunhando um assassinato e é caçado por traficantes que acreditam em seu envolvimento no crime.

Mesmo sendo mais um filme ambientado numa favela Rio de Janeiro, com direito a cenas com traficantes e armas, Antônio ressalta que ele quis fugir de clichês explorados em outras produções.

“Não há confronto do traficante contra a polícia, por exemplo. Quis mostrar a motivação das pessoas a fazerem o que fazem, o perfil dos personagens. Quis exaltar a relação entre eles, a coisa da família, dos laços de amizade, de confiança. Em outros filmes, os traficantes sempre eram os ruins e ponto. Mas e aí, eles não têm família? Não têm amigos? O que fiz foi aprofundar a vida dessas pessoas”, explica.

 

Parte dos atores do filme Fuga da Rocinha era da comunidade (Foto: Divulgação)Parte dos atores do filme Fuga da Rocinha era da comunidade (Foto: Divulgação)

Baixos cachês

Com um micro-orçamento, Antônio conseguiu um resultado satisfatório, o que já lhe rendeu elogios de outros profissionais do ramo. Os atores receberam um pequeno cachê, que o diretor chama de “apenas uma ajuda de custo”.

“O maior cachê foi de R$ 600 e o menor de R$ 30. Falo que é apenas uma ajuda de custo, já que não disponibilizávamos de muito dinheiro. Também ajudei na alimentação e transportes. Mas o ganho pessoal da realização para todos nós foi gigante”, afirmou.

Pirataria

Nos camelôs da Uruguaiana já é possível encontrar uma cópia pirata do filme. Antônio conta que as vendas vêm crescendo, mas que não se sente prejudicado por conta da pirataria.

“Soube que as tem vendido bastante, mas, como o filme não tinha finalidade comercial, o prejuízo maior que vejo com a pirataria é na qualidade. Isso prejudica o trabalho de quem participou, porque não sabemos com qual qualidade ele está sendo comercializado. O ideal é ver no YouTube, com alta resolução”.

Longa foi feito com R$ 3 mil e já foi visto na internet por mais de um milhão de pessoas (Foto: Divulgação)Longa foi feito com R$ 3 mil e já foi visto na internet por mais de um milhão de pessoas (Foto: Divulgação)

Escolas estaduais como cenário

Antônio Junior já está pensando em sua próxima produção, prevista para 2017. O filme vai seguir o mesmo modelo do anterior, mas com escolas estaduais do Rio como pano de fundo.

“A nova história se passa em um colégio público. Quero levar esse ambiente do cinema para esses alunos e oferecer oficinas de interpretação para eles. Estou conversando com a Secretaria Estadual de Educação para tentar parcerias”, adianta. 

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