Filme mostra como axé virou febre e esfriou por ganância e competição

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Recordes de vendas, um astro que inventa moda, uma diva que nunca sai de moda, um casal que se tornou realeza, uma briga entre irmãos que deixou arrasada uma legião de fãs. Tudo isso parece se encaixar no conturbado show business do pop internacional. Mas, no Brasil, o cenário é o Carnaval de Salvador e a fórmula, que também tem ambição, rivalidade e muito ressentimento, foi responsável pela ascensão e queda do axé (veja, abaixo, os correlatos da música baiana no pop).

A história do gênero, que passou de mais popular do país a coadjuvante, guia o documentário “Axé: Canto do povo de um lugar”, com estreia prevista para janeiro, após exibição na Mostra de São Paulo. O projeto surgiu em uma conversa entre o diretor Chico Kertész e Carlinhos Brown e foi feito em dois anos de pesquisa, entrevistas e produção.

“Não consigo entender por que [esse filme] nunca foi feito, pela grandiosidade que essa história tem”, diz Kertész. “É um resgate histórico, uma forma de valorizar o que é produzido na Bahia, mesmo que para alguns seja uma música menor”.

Luiz Caldas, Chacrinha e os múltiplos sentidos

O axé foi subestimado pela imprensa local: a designação surgiu como um termo pejorativo, cunhado por um jornalista do estado. As primeiras notas do ritmo saíram do estúdio WR, em Salvador, com a banda Acordes Verdes. Mas é Luiz Caldas, parceiro do grupo, quem carrega o título de pioneiro. “Fricote” (ou “Nega do cabelo duro”), de 1985, se tornou um marco.

A canção chegou ao Chacrinha – retratado no filme como essencial para a nacionalização do gênero. Um dos entrevistados conta que o apresentador se empolgou com os múltiplos sentidos da letra, especialmente o trecho que cita a “Baixa do Tubo” (que é só uma região de Salvador, mas foi interpretada como uma referência ao órgão sexual feminino).

“Foram 92 entrevistas e muitas histórias. O primeiro corte do filme teve quatro horas. Ter que tirar alguns trechos deu muita pena”, conta o diretor, que diz ter material suficiente para um seriado de cinco episódios, que já está em seus planos.

Bell Marques, da Banda Chiclete com Banana agradece fidelidade do público em Pré-Caju 2014 (Foto: Fernando Correa/G1)Bell Marques, do Chiclete com Banana, no Pré-Caju 2014 (Foto: Fernando Correa/G1)

Rixa dos Marques: Chiclete nunca mais?

Outro marco, que deixou órfã uma legião de fãs e gerou até protesto em Salvador, a saída de Bell Marques do Chiclete com Banana, em 2014, leva o filme ao clímax.

Em uma rara declaração sobre o assunto, o ex-vocalista conta que “fez propostas até o último momento” para ficar na banda. Seu irmão, o engenheiro de som Wilson Marques, diz que a decisão foi motivada por uma disputa familiar. E decreta: “Hoje, minha família sou eu e Wadinho [o terceiro Marques, tecladista do grupo]”.

A frase joga areia nas esperanças de um retorno da formação original, mas fãs podem se consolar com as (igualmente raras) imagens de Bell sem sua tradicional bandana.

Daniela Mercury em cena do documentário (Foto: Rodrigo Maia/Macaco Gordo/Divulgação)Daniela Mercury em cena do documentário

(Foto: Rodrigo Maia/Macaco Gordo/Divulgação)

Outro ponto alto é o relato do primeiro show de Daniela Mercury em São Paulo, no Vão Livre do Masp em 1992. Pouco conhecida, ela reuniu 20 mil pessoas. Uma das vias da avenida Paulista chegou a ser fechada e um funcionário da prefeitura interrompeu o show, com medo de que o tumulto prejudicasse obras do museu.

Crise e renovação

A popularidade de Daniela, e de outras divas do gênero, não conseguiu manter o axé no topo. Produtores, empresários, jornalistas e artistas concordam que a ganância atrapalhou. A maioria cita a falta de união entre músicos como causa da crise. “No sertanejo, os artistas se apoiam. Tem sempre um músico lançando outro, são os mesmos empresários. É um mercado que se alimenta. Isso não aconteceu com o axé”, avalia Kertész. Com o declínio do sucesso, veio o ressentimento. “Todo o mundo tem. Teve gente que me perguntou qual espaço teria no filme, porque não queria falar se fosse para ser coadjuvante.”

Novo axé que não quer ser axé

Quem também não topou falar foi a Baiana System, banda que se tornou queridinha da cena alternativa e é vista como principal expoente do novo ritmo baiano. A ideia era terminar o filme com uma música do grupo. Era. “É uma questão de renovação, as coisas continuam acontecendo. Baiana System diz que não é axé, mas também é axé”, opina o diretor. Ele afirma que fazer o documentário num momento de “fogo brando” facilitou a produção, e atribui qualquer melancolia ao “sentimento de resgate”. “Como diz Maria Bethânia, música é igual a perfume: fransporta a gente para outro lugar.”

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