Bela, revoltada e ‘do mal’: Beyoncé transforma raiva no ótimo ‘Lemonade’

Beyoncé em vídeo do 'álbum visual' 'Lemonade' (Foto: Divulgação)Beyoncé em vídeo do ‘álbum visual’ ‘Lemonade’ (Foto: Divulgação)

Beyoncé acerta várias coisas em “Lemonade”. De cara, um hidrante, vidraças e carros são destruídos por ela com um taco de beisebol, em vídeo do “álbum visual”. Nota-se logo: ela está furiosa. Seguem acertos musicais. Ela transforma a raiva em um disco de cair o queixo. 

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Traição, racismo e machismo são alvos. As armas são a voz poderosa, ainda mais emotiva que o habitual, a produção com colagens eletrônicas arrojadas e versos confessionais que não escondem dramas, com “fucks” à vontade, sem pedir desculpas pela boca suja.

“Lemonade” tem a mão forte de Beyoncé, mesmo com batalhão de convidados. Jack White, Kendrick Lamar e The Weeknd brilham. Ainda há a sombra extramusical (e extraconjugal) de Jay-Z. Mesmo sem participar, o marido permeia o disco com sua alegada traição.

A arte, ainda bem, é maior do que o marketing. Até porque “lançamento supresa” de um “álbum visual” não é novidade. Só que “Lemonade” tem o que faltava a “Beyoncé”, seu trabalho anterior nesta mesma linha: coesão. Se antes ela atirava para muitos lados, agora a mira é mais exata. E o ataque, mais poderoso. Leia a resenha do G1 faixa a faixa:

Beyoncé em vídeo do 'álbum visual' 'Lemonade' (Foto: Divulgação)Beyoncé em vídeo do ‘álbum visual’ ‘Lemonade’

(Foto: Divulgação)

1 – “Pray You Catch Me”

A bomba vem no primeiro verso: “Dá pra sentir a desonestidade / Está no seu hálito”. Não dá pra não pensar: Jay Z traiu Beyoncé. No vídeo, ela aparece afogada. A voz não esconde a mágoa. A faixa tem a mão do músico britânico James Blake. O dubstep minimalista é a cara dele. Assim com Rihanna, Beyoncé segue a onda de divas que amam talentos indies.

2 – “Hold Up”

Mais mãozinhas indies. A faixa de 15 (!) autores daria um Lollapalooza. Ezra Koening, do Vampire Weekend, se inspirou em “Maps”, dos Yeah Yeah Yeahs, e “Turn My Swag On”, do Soulja Boy, com ajuda de Diplo, Father John Misty e outros. O clima solar contrasta com taco de beisebol do vídeo e a raiva da letra: “O que é melhor, parecer ciumenta ou louca?”.

3 – “Don’t Hurt Yourself”

O blues rock de Jack White cai bem no drama de Beyoncé. A boca é imunda: fuck, bitch, ass, dick, motherfucker. Não dá pra traduzir, apenas sentir. Chupa, roqueiro: tem sample de “When the leaves breaks”, do Led Zeppelin. Chupa outra, indie: tem cordas de Jon Brion. Chupa, Jay Z: a letra avisa que “se você tentar essa merda de novo, vai perder sua esposa”.

‘Hold Up’ tem 15 autores e daria um Lolla. ‘Sorry’ tem colagens e cita Becky, amante de Jay-Z

4 – “Sorry”

O refrão traduzido é “desculpa (só que não)”. O rap com colagens espertas tem mais palavrões e “dedo do meio ao alto”. Primeira ressalva do texto: não é melhor que “Sorry” de Justin Bieber. Seria pedir demais. Cita “Becky do cabelo bom”, codinome da amante de Jay Z. Rachel Roy e Rita Ora são as mais cotadas por fãs para o papel de vilã desta novela.

5 – “6 Inch”

Primeira letra em terceira pessoa. Começa a amarrar a traição pessoal à defesa de todas as mulheres e do feminismo. É uma ode à chefona poderosa de salto alto, que trabalha pensando além do dinheiro. Mesmo assim, ela vale cada dólar que ganha. A composição dá créditos a “My girls”, do Animal Collective, e “Walk on by”, de Isaac Hayes.

6 – “Daddy Lessons”

A texana Beyoncé se aventura pelo country com segurança, em música sobre seu pai. A faixa faz uma homenagem meio dúbia, ao retratar um homem bruto com arma na mão, que ensinou a cantora a ser durona. O texto que introduz a faixa no vídeo deixa mais claro o teor negativo, ao comparar o pai adúltero no passado ao marido atual.

Beyoncé em vídeo do 'álbum visual' 'Lemonade' (Foto: Divulgação)Beyoncé em vídeo do ‘álbum visual’ ‘Lemonade’

(Foto: Divulgação)

7 – “Love Drought”

A segunda metade de “Lemonade” começa com possibilidade de redenção para o amor. “Dez vezes de cada nove (sic) eu sei que você está mentindo / Mas nove vezes de cada dez eu sei que você está tentando / Então tento ser justa”, canta. O arranjo hipnótico faz a ponte entre r&b e Animal Collective, dessa vez sem créditos.

8 – “Sandcastles”

Primeira e única baladona romântica tradicional, ao piano. A cena descrita é arrasadora: louça quebrada após uma grande treta de casal. Mas ainda há desejo de tentar de novo. A voz procura o máximo de notas possível sem escorregar. Como não é um recurso do qual ela abusa no disco, está liberado ao ouvinte se arrepiar.

9 – “Foward”

Faixa mais curta do disco, emendada na anterior. O vocal principal é de James Blake, com um apoio discreto de Beyoncé. Atenção: o cara colocou Beyoncé como vocalista de apoio de um disco dela mesma. Se você ainda não o conhecia, corra atrás da versão dele para “Limit to your love” (2011), de Feist. Voltando a esta faixa: fala vagamente de futuro e superação.

‘Sandcastles’ é a única baladona tradicional. ‘Freedom’ traz Kendrick Lamar em soul funk de vocal forte sobre igualdade racial

10 – “Freedom”

Superada a braba crise conjugal, vem à tona o tema racial. O parceiro não podia ser melhor: Kendrick Lamar, da obra-prima engajada “To Pimp a Butterfly” (2015). “Freedom” poderia estar no disco dele: arranjo soul e funk e vocal forte em apoio a igualdade racial. No fim, citação que confirma o conceito do disco: ela fez de limões (traição e racismo) uma limonada.

11 – “All Night”

Segunda ressalva que consigo pensar sobre o disco: essa faixa parece estar no lugar errado. Ela é o final feliz do casal após tanta treta: uma noite inteira de amor. Faria mais sentido vir depois de “Foward”. O clima mais leve a credencia como single. É o doce de “Lemonade”. Mas talvez Beyoncé tenha deslocado a faixa de propósito, para misturar os ingredientes.

12 – “Formation”

A música com clipe já conhecido encerra o disco e aparece após os créditos do vídeo. É a contribuição de Beyoncé à luta do movimento Black Lives Matter. O estereótipo da “angry black woman” (mulher negra nervosa), de conotação negativa para americanos racistas, é incorporado e celebrado. E isso a resume em “Lemonade”: brava, talentosa e destruidora.

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