Leia trecho de ‘Vozes de Tchernóbil’, de Svetlana Alexiévitch

Capa da edição brasileira de 'Vozes de Tchernóbil', primeiro livro de Svetlana Alexiévitch publicado no país (Foto: Divulgação/Companhia das Letras)Capa da edição brasileira de ‘Vozes de Tchernóbil’

(Foto: Divulgação/Companhia das Letras)

No mesmo dia em que o mundo rememora os 30 anos da catástrofe de Chernobyl, na Ucrânia, o pior acidente com usina nuclear da história, chega às livrarias do Brasil um livro essencial sobre a tragédia.

Escrito pela bielorrussa Svetlana Alexiévitch, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, “Vozes de Tchernóbil” (Companhia das Letras) traz depoimentos de cientistas, soldados, operários e viúvas das vítimas do episódio. O número de mortos continua um mistério até hoje.

Leia, abaixo, um trecho de “Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Alexiévitch.

Svetlana levou dez anos para escrever o livro, que foi originalmente publicado em 1997 e chegou a ser proibido em Belarus. Até aqui, a autora era inédita no Brasil – sua obra já foi traduzida para mais de dez idiomas.

A Companhia das Letras já anunciou que deve lançar outros três títulos da escritora, primeira jornalista a ganhar o Nobel. O cronograma prevê para junho “A guerra não tem rosto de mulher”.

Na mesma época, Svetlana também vai fazer sua primeira visita ao Brasil: ela está escalada para participar da 14ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece de 29 de junho a 3 de julho

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10 anos para escrever um livro

Svetlana Alexiétich sempre recorreu ao mesmo método para seus livros documentais, entrevistando durante muitos anos pessoas com experiências dramáticas, caso de soldados soviéticos que retornaram da guerra no Afeganistão (“Zinky boys: Soviet voices from Afghanistan war”) ou suicidas (“Enchanted with death”).

Sobre seus textos, já afirmou: “Eu não estou tentando produzir um documento, mas esculpir a imagem de uma época. É por isso que eu levo entre sete e dez anos para escrever cada livro”.

E completou: “Eu não sou jornalista. Não permaneço no nível da informação, mas exploro a vida das pessoas, sua compreensão da vida. Também não faço o trabalho de um historiador, porque tudo começa, para mim, no ponto de término da tarefa do historiador: o que se passava pela cabeça das pessoas após a batalha de Stalingrado ou após a explosão de Chernobyl? Eu não escrevo a história dos fatos, mas a história das almas”.

Svetlana Alexievich posa em Minsk, em foto não datada. A escritora de Belarus foi anunciada na manhã desta quinta-feira (8) vencedora do Nobel de Literatura 2015. Ela é a 14ª mulher a vencer o prêmio (Foto: Vasily Fedosenko/Reuters/Arquivo)Svetlana Alexiévitch posa em Minsk, em foto não datada (Foto: Vasily Fedosenko/Reuters/Arquivo)

Leia, abaixo, trecho de um capítulo de ‘Vozes de Tchernóbil’, de Svetlana Alexiévitch:

Uma solitária voz humana

Não sei do que falar… Da morte ou do amor? Ou é a mesma coisa? Do quê?

Estávamos casados havia pouco tempo. Ainda andávamos na rua de mãos dadas, mesmo quando entrávamos nas lojas. Sempre juntos. Eu dizia a ele “eu te amo”. Mas ainda não sabia o quanto o amava. Nem imaginava… Vivíamos numa residência da unidade dos bombeiros, onde ele servia. No segundo andar. Ali viviam também três famílias jovens, e a cozinha era comunal. Embaixo, no primeiro andar, guardavam os carros, os carros vermelhos do corpo de bombeiros. Esse era o trabalho dele. Eu sempre sabia onde ele estava e o que se passava com ele. No meio da noite, ouvi um barulho. Gritos. Olhei pela janela. Ele me viu: “Feche a persiana e vá se deitar. Há um incêndio na central. Volto logo”.

A explosão, propriamente, eu não vi. Apenas as chamas, que iluminavam tudo… O céu inteiro… Chamas altíssimas. Fuligem. Um calor terrível. E ele não voltava. A fuligem se devia à ardência do betume, o teto da central estava coberto de asfalto. As pessoas andavam sobre o teto como se fosse resina, como depois ele me contou. Os colegas sufocavam as chamas, enquanto ele rastejava. Subia até o reator. Arrastavam o grafite ardente com os pés… Foram para lá sem roupa de lona, com a camisa que estavam usando. Não os preveniram, o aviso era de um incêndio comum…

Quatro horas… Cinco horas… Seis… Nós tínhamos combinado de ir às seis horas à casa dos pais dele, para plantar batatas.

(…)

Às vezes parece que escuto a voz dele… Que está vivo… Nem as fotografias me tocam tanto quanto a voz dele. Mas ele nunca me chama. Nem em sonhos… Sou eu que o chamo… Sete horas… Às sete horas me avisaram que ele estava no hospital. Corri até lá, mas havia um cordão de policiais em torno do prédio, ninguém passava. As ambulâncias chegavam e partiam. Os policiais gritavam: “Os carros estão com radiação, não se aproximem”. Eu não era a única, todas as mulheres cujos maridos estavam na central naquela noite vieram correndo, todas. Quando vi saltar de um carro uma conhecida que trabalhava como médica no hospital, corri e a segurei pelo jaleco:

“Me deixe entrar!”

“Não posso! Ele está mal. Todos estão mal.”

Agarrei‑a com força: “Só quero ver o meu marido.”

“Está bem”, ela disse. “Vamos correr. Mas só por quinze, vinte minutos.”

Eu o vi… Estava todo inchado, inflamado… Os olhos quase não apareciam…

“Ele precisa de leite. Muito leite!”, ela me disse. “Eles devem beber ao menos três litros.”

“Mas ele não bebe leite.”

“Agora vai ter de beber.”

Muitos médicos, enfermeiras e, sobretudo, as auxiliares daquele hospital, depois de algum tempo, começaram a adoecer. Mais tarde morreriam. Mas na época ninguém sabia disso…

(…)

Ela imediatamente me perguntou: “Querida! Pobrezinha… Você tem filhos?”.

Como dizer a verdade? Estava claro que eu devia esconder a minha gravidez, ou não me deixariam vê‑lo! Ainda bem que eu era muito magra e não se notava nada.

“Tenho”, respondi.

“Quantos?”

Eu pensei: “É melhor dizer dois. Se disser um, talvez não passe”.

“Um menino e uma menina.”

“Se são dois, então, creio que não terá mais. Agora escute: o sistema nervoso central foi completamente atingido, a medula está totalmente afetada.”

“Bem”, pensei, “ele deve estar mais nervoso.”

“Mais uma coisa: se você chorar, eu a retiro de lá imediatamente. É proibido abraçar e beijar. Não se aproxime muito. Você tem meia hora.”

Mas eu sabia que não iria embora dali. Só iria com ele. Eu havia jurado a mim mesma!

(…)

Há um fragmento de uma conversa… Agora me veio à lembrança. Alguém tentava me convencer:

“Você não deve se esquecer de que isso que está na sua frente não é mais o seu marido, a pessoa que você ama, mas um elemento radiativo com alto poder de contaminação. Não seja suicida. Recobre a sensatez.”

Mas eu estava como louca:

“Eu te amo! Eu te amo!”

Enquanto ele dormia, eu sussurrava: “Eu te amo!”. Caminhava no pátio do hospital: “Eu te amo!”. Levava a comadre: “Eu te amo!”. Ficava me lembrando de como vivíamos antes, da nossa casa… Ele só dormia segurando a minha mão. Tinha esse hábito, pegar no sono segurando a minha mão. A noite toda.

Usina de Chernobyl, daniifcada após a explosão, em foto de maio de 1986 (Foto: AP)Usina de Chernobyl, daniifcada após a explosão, em foto de maio de 1986 (Foto: AP)
Foto tirada de Prypiat este mês mostra o reator 4 com sua cobertura antiga (à esquerda) e o novo sarcófago em construção (à direita) (Foto: Gleb Garanich/Reuters)Foto tirada de Prypiat este mês mostra o reator 4 com sua cobertura antiga (à esquerda) e o novo sarcófago em construção (à direita) (Foto: Gleb Garanich/Reuters)
Um parque de diversões é visto no centro da cidade abandonada de Pripyat, perto da usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia (Foto: Gleb Garanich/Reuters)Um parque de diversões é visto no centro da cidade abandonada de Pripyat, perto da usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia (Foto: Gleb Garanich/Reuters)
Viúva mostra foto de seu marido, morto no acidente nuclear de Chernobyl, durante ato em memória às vítimas em Kiev nesta quinta-feira (26) (Foto: Sergei Supinsky/AFP)Viúva mostra foto de seu marido, morto no acidente nuclear de Chernobyl, durante ato em memória às vítimas em Kiev nesta quinta-feira (26) (Foto: Sergei Supinsky/AFP)
Brinquedo abandonado na praça central de Pripyat. (Foto: Dennis Barbosa/G1)Brinquedo abandonado na praça central de Pripyat. (Foto: Dennis Barbosa/G1)

 

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