‘O escaravelho do diabo’: veja 10 curiosidades da Série Vaga-Lume

Parecia (e vai ver até era…) um hippie saído de “Hair”, fã Janis Joplin e do Jimi Hendrix. Era 1972, e o personagem encarnava o espírito do tempo – no visual e no vocabulário. “Batam um papo com seu professor, acho que ele vai dizer que a série é joia!”, dizia o vaga-lume que se apresentava como Luminoso e aparecia ali na contracapa fazendo propaganda da nova coleção de livros infantojuvenis.

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Lançada naquele começo de década de 1970 pela editora Ática, a Série Vaga-Lume virou best-seller de várias gerações de leitores. Vendeu milhões – e o Luminoso sempre ali, na orelha dos volumes, cometendo spoiler.

Agora, 44 anos mais tarde, a Vaga-Lume chega aos cinemas, já não era sem tempo, com a adaptação de “O escaravelho do diabo” (assita ao trailer acima). O filme entrou em cartaz nesta quinta-feira (14).

Atualmente na 27ª edição, “O escaravelho do diabo” é um dos mais vendidos da coleção, que soma ao todo mais de 90 títulos. O editor Jiro Takahashi, considerado o pai da Vaga-Lume por ter liderado a equipe que a criou, diz ao G1 que a série nasceu para atrair alunos que talvez recusassem clássicos como Machado de Assis ou José de Alencar. No lugar destes, entraram autores contemporâneos.

E tinha a linguagem que queria ser simples e acessível: nada de pretérito mais-que-perfeito, o plano era algo mais “joia”. “É só começar a ler este livro, bicho”, incentivava Luminoso, citando “aventuras que são de arrepiar os cabelos”. Resumindo, era assim como um “Harry Potter” daquele tempo, mas só com escritores brasileiros e mirando público escolar. Da época, mas também de hoje.

No final de 2015, a Vaga-Lume relançou de dez de seus livros em novo formato e com capa que brilha no escuro. O Luminoso também foi repaginado (veja abaixo): não chegou a virar hipster, mas abandonou o estilo Woodstock de ser.

A evolução do Luminoso, mascote da Série Vaga-Lume, que nasceu em 1972 com estilo hippie (Foto: Somos Educação/Divulgação)A evolução do Luminoso, mascote da Série Vaga-Lume, que nasceu em 1972 com estilo hippie (Foto: Somos Educação/Divulgação)


Veja, a seguir, dez curiosidades da Série Vaga-Lume:

Curiosidade 1: Série Vaga-Lume (Foto: Arte/G1)

Lançada no final de 1972, a série Vaga-Lume vendeu até hoje 8 milhões de cópias de seus mais de 90 títulos, informa a editora Ática. Atualmente, a coleção tem 53 títulos ativos. Lançada entre o final de 1972 e o início de 1973, a leva inicial teve quatro obras: “A ilha perdida” e “Éramos seis”, de Maria José Dupré; “Cabra das rocas”, de Homero Homem; e “Coração de onça”, de Ofélia e Narbal Fontes. “Saíram de cara com uma tiragem monumental, no mínimo 80 mil exemplares cada”, diz Jiro Takahashi, editor considerado o “pai” da Vaga-Lume e que trabalhou por 26 anos na Ática.

 

Curiosidade 2: Série Vaga-Lume (Foto: Arte/G1)

Atualmente em sua 41ª edição, o livro de Maria José Dupré é o líder absoluto de vendas da Série Vaga-Lume. A Ática informa que mais de 3,5 milhões de cópias foram vendidas nos últimos 44 anos. “‘A ilha perdida’ era uma espécie de assim de Mark Twain moderno”, brinca Jiro Takashi. “Um livro que atraía muito, com uma história de aventura, dois meninos que se perdem numa ilha. E sem nenhum moralismo, nada de ‘tem que escovar os dentes’ ou ‘tem lavar a mão antes de comer’. Eram só dois moleques se aventurando…”

 

Curiosidade 3: Série Vaga-Lume (Foto: Arte/G1)

Ao todo, 41 autores publicaram pela Série Vaga-Lume. E são duas mulheres as maiores best-sellers da coleção. “Pela longevidade no catálogo e pelo número de vendas com um único título, o autor mais que vendeu exemplares é Maria José Dupré, de ‘A ilha perdida’ e ‘Éramos seis’”, afirma ao G1 Lidiane Olo, diretora editorial da Somos Educação, atual responsável pela editora Ática. “Podemos citar ainda Lúcia Machado de Almeida, autora de ‘O escaravelho do diabo’, ‘O caso da borboleta Atíria’, ‘Spharion’, ‘As aventuras de Xisto, ‘Xisto e o pássaro cósmico’ e ‘Xisto no Espaço’.”

Curiosamente, Maria José Dupré (1905-1984) e Lúcia Machado de Almeida (1910-2005) havia tido seu auge criativo entre nos anos 1940 e 1950, ou seja, antes do surgimento da Vaga-Lume. “Ganharam enorme projeção com o relançamento de suas obras na série”, explica Lidiane Olo.

 

Curiosidade 4: Série Vaga-Lume (Foto: Arte/G1)

Primeiro livro da série a chegar ao cinema, “O escaravelho do diabo” não deve ser o único. A produtora RT Features adquiriu os direitos de três outras obras da coleção, todas de Marcos Rey: “O mistério do cinco estrelas” (1981), “O rapto do garoto de ouro” (1982) e “Um cadáver ouve rádio” (1983).

Questionada pelo G1 por meio da assessoria de imprensa sobre o cronograma da produção dos filmes, a produtora não retornou até a publicação desta reportagem.

 

Curiosidade 5: Série Vaga-Lume (Foto: Arte/G1)

Vaga-Lume clássico, “O mistério do cinco estrelas”, de 1981, foi o primeiro inédito lançado pela série. A obra também marcou a estreia de Marcos Rey como autor infantojuvenil. Até então, ele era conhecido por livros voltados ao público adulto e como roteirista do programa de TV “O sítio do pica-pau amarelo”.

Jiro Takahashi conta que “O mistério…” surgiu meio por acaso. “O Marcos Rey estava comigo em uma Bienal e ficou impressionado ao ver uma fila enorme de crianças em frente ao estande da Vaga-Lume. Era como hoje acontece com Paula Pimenta e Thalita Rebouças”, lembra o editor. “O Marcos Rey me perguntou: ‘Acha que eu poderia escrever um livro desses?’.” Poderia. E a tiragem inicial de livro foi bem otimista: 200 mil exemplares. Vendeu tudo.

 

Curiosidade 6: Série Vaga-Lume (Foto: Arte/G1)

Depois do sucesso de “O mistério do cinco estrelas”, Marcos Rey (1925-1999) – cujo nome verdadeiro era Edmundo Donato – não parou mais: publicou ao todo 15 títulos na Vaga-Lume, dentre os quais “O rapto do garoto de ouro” (1982) e “Um cadáver ouve rádio” (1983). “Inspirou-se nos thrillers e policiais americanos para criar um texto ágil, cheio de ação e de diálogos”, afirma Lidiane Olo, da Ática. “Era algo incomum para esse público na época. Os livros agradaram em cheio, e seu estilo influenciou vários autores.”

 

Curiosidade 7: Série Vaga-Lume (Foto: Arte/G1)

“O livro era fantástico, mas nos diálogos os personagens usavam muito o pretérito mais que perfeito, como ‘imaginara’, ‘cantara’, ‘supusera’…”, diz o criador da Vaga-Lume sobre o texto original de “O escaravelho do diabo”, originalmente publicado no final de 1953 como folhetim na revista “O Cruzeiro”.

“Tentamos mostrar à Lúcia Machado de Almeida que, no diálogo, nenhum jovem falava daquele jeito, ficava esquisito. Dissemos: ‘Queremos dirigir para os jovens, o que a senhora acha?’. Ela adorou, agradeceu muito. Até porque, quando ela escreveu pela primeira vez aquela história, tinha em mente o público adulto.”

 

Curiosidade 8: Série Vaga-Lume (Foto: Arte/G1)

Foi uma bela demonstração de senso de oportunidade. Em 1971, ocorreu uma reforma educacional que instituiu o ensino de 1º grau com duração de oito anos e obrigatório, ou seja, de 1ª a 8ª série, como denominava a Lei de Diretrizes e Bases em vigor a partir dali. Antes daquela mudança, os alunos deveriam cumprir somente até a antiga 4ª série. “Com isso, um contingente muito grande de alunos que normalmente não fariam de 5ª a 8ª passou a ter de fazer”, afirma Jiro Takahashi.

“E a Ática sentiu que era muito mais complicado vender para esse novo público obras de clássicos da literatura brasileira, como Machado de Assis, José de Alencar, Bernardo Guimarães. Esses novos alunos precisavam de ter uma literatura que falasse mais de perto com eles.” Além disso, tão clássicos quanto os próprios livros da Vaga-Lume era o “Suplemento de Trabalho” que integravam cada um deles. Era um folheto com exercícios didáticos (com direito a caça-palavras e cruzadinhas) a respeito da obra.

 

Curiosidade 9: Série Vaga-Lume (Foto: Arte/G1)

A Vaga-Lume apostava essencialmente em dois elementos para o sucesso: teste de público e preço acessível. O primeiro consistia em mostrar as versões prévias histórias a grupos de alunos selecionados. Isso antes da publicação, óbvio – e só chegavam ao lançamento aquelas aprovadas. No caso de “O mistério do cinco estrelas”, foram inicialmente impressos 3 mil exemplares de uma sinopse com apenas três páginas. Um dos critérios de avaliação, inclusive, era o tempo que esses leitores da fase de testes demoravam para chegar à última linha. Se fosse rápido, melhor as chances de a obra dar certo.

Quanto ao valor de capa, levava-se em conta um público que não estava acostumado a comprar livros. “A partir da 5ª série [atual 6º ano], os alunos tinham de comprar sete ou oito livros didáticos, então não dava para sangrar o orçamento doméstico com obras paradidáticas”, explica o criador da Vaga-Lume. “Na Ática, criamos um padrão de que nenhum livro poderia custar mais do que ‘Veja’. Os divulgadores iam às escolas e sempre diziam: ‘Olha, nossos livros não custam mais do que uma revista de banca’.”

 

Curiosidade 10: Série Vaga-Lume (Foto: Arte/G1)

A editora não informa números totais de vendas de cada obra, mas fornece o top ten da última década. “Ao longo desses 44 anos, alguns títulos saíram de catálogo outros novos entraram. Então a perspectiva de venda acumulada desde o lançamento fica um pouco distorcida”, explica Lidiane Olo, da Ática. “Por exemplo: a obra ‘Éramos Seis’ sempre esteve entre as mais vendidas. Com a adaptação para novelas, acabou ganhando uma edição para atingir o público adulto e saiu da série Vaga-Lume. As obras de Marcos Rey, também best-sellers, também não estão mais na coleção.”

1º “A ilha perdida’, de Maria José Dupré

2º “O escaravelho do diabo”, de Lúcia Machado de Almeida

3º “Açúcar amargo”, de Luiz Puntel

4º “Meninos sem pátria”, de Luiz Puntel

5º “O grito do hip hop”, de Luiz Puntel e Fátima Chaguri

6º “A turma da rua quinze”, de Marçal Aquino

7º “O caso da borboleta Atíria”, de Lúcia Machado de Almeida

8º “Deu a louca no tempo”, de Marcelo Duarte

9º “Os barcos de papel”, de José Maviel Monteiro

10º “Menino de asas”, de Homero Homem

Cena do filme 'O escaravelho do diabo', que estreia nesta quinta-feira (14) (Foto: Aline Arruda/Divulgação)Cena do filme ‘O escaravelho do diabo’, que estreia nesta quinta-feira (14) (Foto: Aline Arruda/Divulgação)
Bruna Cavalieri é Raquel em 'O escaravelho do diabo' (Foto: Aline Arruda/Divulgação)Bruna Cavalieri é Raquel em ‘O escaravelho do diabo’ (Foto: Aline Arruda/Divulgação)
Cirillo Luna, como Hugo 'Foguinho', e Thiago e Thiago Rosseti como Alberto, em cena de 'O escaravelho do diabo' (Foto: Aline Arruda/Divulgação)Cirillo Luna, como Hugo ‘Foguinho’, e Thiago e Thiago Rosseti como Alberto, em cena de ‘O escaravelho do diabo’ (Foto: Aline Arruda/Divulgação)
Cena do filme 'O escaravelho do diabo', baseado no clássico da série Vaga-Lume (Foto: Aline Arruda/Divulgação)Cena do filme ‘O escaravelho do diabo’, baseado no clássico da série Vaga-Lume (Foto: Aline Arruda/Divulgação)
Marcos Caruso em cena de 'O escaravelho do diabo', adaptação do clássico da série Vaga-Lume; o ator interpreta o delegado Pimentel (Foto: Aline Arruda/Divulgação)Marcos Caruso em cena de ‘O escaravelho do diabo’, adaptação do clássico da série Vaga-Lume; o ator interpreta o delegado Pimentel (Foto: Aline Arruda/Divulgação)

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