‘Ainda ouço Bohemian Rhapsody no carro’, diz guitarrista do Queen

Queen em apresentação no programa Top of the Pops, da BBC, na década de 1970. (Foto: BBC)Queen em apresentação no programa Top of the Pops, da BBC, na década de 1970. (Foto: BBC)

Muitos músicos eventualmente se cansam de seus hits, já que passam boa parte da vida tendo que tocá-los em qualquer ocasião. Não é o caso de Brian May.

O guitarrista da banda de rock britânica Queen diz que nunca se cansará de ouvir “Bohemian Rhapsody”, uma das canções de maior sucesso da banda, que completa 40 anos em 31 de outubro.

A canção de seis minutos tem cinco partes – que incluem uma ópera – e ficou três vezes no topo das paradas britânicas, além de ter vendido mais de 6 milhões de cópias em todo o mundo.

Nada mal para uma música que a gravadora chegou a dizer que nunca tocaria no rádio.

Escrita pelo líder da banda, Freddie Mercury (1946-1991), Bohemian Rhapsody foi montada em um meticuloso processo, que levou a tecnologia existente nos anos 1970 ao seu limite. Os “bismillahs” e “scaramouches” sobrepostos durante a parte operática foram superpostos tantas vezes que a fita ficou quase transparente.

Mas a banda nunca perdeu a fé na canção. “Todos nos demos conta de que era algo maravilhoso e deveríamos dar coração e alma nela”, disse May em entrevista à BBC.

Para marcar o 40º aniversário da música, o guitarrista relembrou o processo de escrever a música, a concepção do surpreendente videoclipe e a ressurreição da música em um programa de comédia.

O início

“Não havia demo (gravação bruta da música). Estava tudo na cabeça de Freddie e em muitos pedacinhos de papel que ele usava para fazer suas anotações. E digo anotações literalmente. Ele colocava as notas lá, dó e ré em pequenos blocos.

Freddie tinha a estrutura em sua cabeça e, junto com Roger (Taylor, baterista) e John (Deacon, baixista) gravaram cada parte em uma faixa. Depois começamos a tecê-la.”

A gravação ‘daquele’ solo

“A parte mais pesada era uma grande oportunidade para que nós fôssemos uma banda de rock a todo vapor. Mas aquele riff (refrão de guitarra) veio de Freddie, não de mim. Era algo que ele tocava com a mão esquerda nas oitavas do piano. Então eu tinha isso como guia – e isso é muito difícil de fazer, porque Freddie tocava piano muito bem, mesmo que ele não achasse.

Na verdade, ele achava que era um pianista medíocre e por isso parou de tocar durante a nossa carreira.”

O caminho até tocar no rádio

“Nos disseram que seria difícil vender a música, mas acabou sendo fácil porque Kenny Everett (DJ britânico, que trabalhava na rádio Capital na época) roubou a fita de uma sessão que fizemos para lançar o disco “Night At The Opera” e decidiu tocá-la até cansar.

Isso fez com quem todo mundo prestasse atenção. O resto das emissoras de rádio pensou: “Ai, meu Deus, é melhor entrarmos nessa rápido ou vamos ficar para trás!”.

A criação do videoclipe

“Sei que foi chamado de primeiro videoclipe da história, mas é difícil definir estas coisas. Sei que os Beatles fizeram vídeos em 35mm de algumas músicas – mas o nosso era mais como um minifilme.

Foi filmado com o propósito expresso de mandá-lo para o (programa) Top of the Pops. Era um programa com classe, mas não tinha uma boa reputação entre os músicos. Ninguém gostava, na verdade.

Se a sua música tinha algum significado, ela parecia se esvaziar quando você estava em um estúdio com um bando de garotos e garotas em volta. Mas não podíamos recusar, porque era o único jeito de vender discos.”

Tocando a música nos shows

“Bohemian Rhapsody provavelmente não era a faixa mais difícil (do disco A Night At The Opera) de tocar ao vivo. Se tentássemos tocar “Good Company” ou “The Prophet’s Song”, por exemplo, seria muito mais difícil.

Achávamos que não fazia sentido tentar recriar ao vivo aquela seção enorme de ópera com apenas nós quatro. Então a solução que demos era sair do palco, mudar de roupa (enquanto a seção tocava) e voltar já na parte de rock mais pesado.

A seção da ópera geralmente era um show de luzes ou de vídeo em nossos shows – e eu prefiro isso do que ficar tropeçando nela para fazer algo que não vai ficar igual ao disco. Faz mais sentido para mim encará-la como uma performance de arte.”

Mas o que significa a letra?

“Acho que Freddie gostava do fato de haver tantas interpretações da letra. É uma música bizarra. Acho que está além das análises.

Não estou tentando ser evasivo, só acho que é por isso que gostamos de canções – elas conseguem fazer conosco algo que um texto apenas não consegue.

Tenho minhas próprias ideias e sentimentos sobre Bohemian Rhapsody, mas odeio falar sobre isso e geralmente me recuso.”

O legado

“Não me cansei (da canção). Não dá para reclamar de as pessoas ainda quererem falar sobre ela tantos anos depois.

Ainda gosto de ouvi-la. Se ela toca no rádio, eu aumento o volume e ouço. Mas não faço ‘guitarra aérea’. Já estou muito velho pra isso.”

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