Rapper suspende greve de fome em Angola, diz jornal

O rapper a ativista Luaty Beirão, preso em Angola e acusado de planejar destituição do presidente José Eduardo dos Santos (Foto: Reprodução/ Facebook/ Luaty Beirão)O rapper a ativista Luaty Beirão, preso em Angola e acusado de planejar destituição do presidente José Eduardo dos Santos (Foto: Reprodução/ Facebook/ Luaty Beirão)
Luanda, Angola


O site Rede Angola anunciou que o rapper e ativista Luaty Beirão suspendeu a greve de fome iniciada há 36 dias. Ele enviou uma carta ao site para dizer que colocou fim ao protesto iniciado em 21 de setembro em protesto para chamar a atenção sobre a situação política em Angola.

Beirão é acusado de tramar a destituição do presidente José Eduardo dos Santos, um crime que ele afirma não ter cometido. Ele suspendeu a alimentação por ter sido mantido detido além do tempo previsto nos casos de prisão preventiva. O julgamento só vai acontecer em novembro. O rapper foi internado em hospital a 90 km de Luanda, a capital angolana.

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Na “Carta aos meus companheiros de prisão”, divulgada na íntegra pelo Rede Angola, o rapper garante que vai continuar a luta. “Não vou desistir de lutar, nem abandonar os meus companheiros e todas as pessoas que manifestaram tanto amor e que me encheram o coração. Muito obrigado. Espero que a sociedade civil nacional e internacional e todo este apoio dos media não pare.”

Site angolano divulgou carta de rapper Luaty Beirão (Foto: Reprodução/Rede Angola)Site angolano divulgou carta de rapper Luaty Beirão (Foto: Reprodução/Rede Angola)

 

O rapper observa que a ação “chamou muita atenção” em torno da nossa causa. “Vi pessoas de várias partes do mundo, organizações de cariz civil, personalidades, desconhecidos com experiências de luta na primeira pessoa que, sozinhos ou em grupo, se aglomeram no pedido da nossa libertação. Já o sentíamos antes, mas não com esta dimensão”, afirmou.

Luaty recebeu soro intravenoso, mas emagreceu mais de 20 kg. Apesar de estar debilitado, ele passava “bem” mesmo antes de abandonar a greve de fome, segundo disse ao G1 sua mulher, Monica Almeida. Ele, no entanto, corria risco de desenvolver sintomas irreversíveis. Nessa terça-feira, o G1 não conseguiu fazer contato com a família. 

O rapper e outros 12 ativistas foram presos no dia 20 de junho quando se reuniam em uma livraria em Luanda para discutir política. Eles já haviam participado de manifestações que criticavam o governo. Naquele dia, discutiam um livro do escritor angolano Domingos Cruz, adaptado da obra “Da ditadura à democracia”, sobre ação política de resistência pacífica, do autor americano Gene Sharp. Nos dias que se seguiram mais dois ativistas foram detidos.

Defensores da libertação dos ativistas presos em Angola acendem velas em vigília realizada em Lisboa, Portugal (Foto: Ricardo Rodrigues da Silva/ Amnistia Internacional Portugal)Defensores da libertação dos ativistas presos em Angola acendem velas e exibem foto de Luaty Beirão em manifestação realizada em Lisboa, Portugal (Foto: Ricardo Rodrigues da Silva/ Amnistia Internacional Portugal)

Angola, o segundo maior produtor de petróleo da África, é governada por José Eduardo dos Santos há 36 anos. Santos assumiu o poder em 1979, quatro anos após a independência do país, ex-colônia de Portugal, e governou a maior parte do tempo durante uma guerra civil, encerrada em 2002.

Com dupla nacionalidade angolana e portuguesa, Luaty estudou engenharia na Inglaterra e economia na França. Seu pai foi o primeiro diretor da Fundação Eduardo dos Santos, ligada ao presidente, mas o rapper sempre criticou problemas sociais de Angola e defendia uma renovação do governo. Desde 2011, quando surgiram as manifestações contra o governo, participava de atos que frequentemente acabavam em detenções.

Prisão

Monica conta que estava em sua casa com a filha de dois anos quando a campainha tocou antes do previsto. Ela viu pela porta que era seu marido e estranhou que ele chegava antes do que o previsto da reunião com os amigos. Na sua rua havia um carro da polícia e outro do serviço de inteligência.

Monica Almeida, mulher do rapper Luaty Berião, só conseguiu ver o marido depois de 23 dias de sua prisão (Foto: Monica Almeida/ Arquivo pessoal)Monica Almeida, mulher do rapper Luaty Berião, só conseguiu ver o marido depois de 23 dias de sua prisão (Foto: Monica Almeida/ Arquivo pessoal)

“Abri a porta e vi agentes da polícia altamente armados. Disseram que tinham mandado de busca e apreensão de materiais informáticos, mas o Luaty disse que não tinham e que eu não os deixasse entrar. Então um deles empurrou a porta e entraram em casa armados, levaram várias coisas, inclusive coisas que não eram de informática como revistas e agendas, e não exibiram o mandado. No total, levaram material avaliado em US$ 30 mil”, diz Monica.

Ela conta que não conseguiu ver o marido na semana seguinte, pois não sabia para onde ele tinha sido levado, e que só depois de uma semana descobriu a prisão em que estava “graças ao acaso”, mas que não a deixaram falar com ele. Monica só conseguiu visitar Luaty depois de 23 dias desde sua prisão. “Luaty ficou 90 dias em condições precárias em uma cela de castigo em que os presos ficam 21 dias no máximo. Mudavam os dias da visita várias vezes, sem avisar”, diz.

O que diz o processo

Depois de três meses detido, que é o prazo para detenções provisórias no país, o rapper decidiu iniciar uma greve de fome já que a Justiça não havia se pronunciado sobre o caso. Só em setembro foi feita a denúncia contra o grupo. Semanas depois, o julgamento foi marcado para os dias entre 16 e 20 de novembro.

Os ativistas foram acusados de “crimes preparatórios para a prática de rebelião”. Luaty ainda foi acusado de falsificação de documentos, apreendidos em sua casa. Segundo o documento do Ministério Público do país, o grupo foi preso por estar reunido com o objetivo de preparar “ações tendentes à alteração do poder público em Angola”, o que incluiria “a destituição do que alegam ser uma ditadura e que passaria pela destituição do Presidente da República”.

Manifestantes em Lisboa, Portugal, exibem fotos dos ativistas presos em Angola e pedem sua libertação (Foto: Ricardo Rodrigues da Silva/ Amnistia Internacional Portugal)Manifestantes em Lisboa, Portugal, exibem fotos dos ativistas presos em Angola e pedem sua libertação (Foto: Ricardo Rodrigues da Silva/ Amnistia Internacional Portugal)

O documento cita o livro de Gene Sharp como uma inspiração para a Primavera Árabe e revoluções em outros países africanos e como um ensinamento para revoltas, manifestações e desobediência civil para “destituir o ditador”. Segundo o Ministério, Domingos Cruz daria um curso de formação de três meses aos ativistas, que depois de derrubar o presidente iriam formar um “Governo de Salvação Nacional” e elaborar uma nova constituição.

‘Situação difícil’

A preocupação quanto ao seu estado de saúde aumenta a cada novo dia de jejum. “É uma situação difícil em que me sinto extremamente impotente, porque não existem leis para cumprir os prazos”, diz Monica. “Estou preocupada. Não desejo nem ao meu pior inimigo o que estou passando”.

Da cadeia São Paulo, na capital angolana, os outros 12 ativistas também manifestam preocupação. Na última quarta-feira (21) enviaram cartas ao amigo dizendo que “precisam dele vivo” e pedindo que encerre a greve de fome “para continuarem a luta”.

A Anistia Internacional considera os ativistas do grupo detido como “prisioneiros de consciência”. “É um critério muito específico. Significa pessoas que não cometeram crime nenhum, que foram presas só por demonstrar a opinião delas e que não cometeram nenhum ato de violência contra o Estado ou quem quer que seja”, explica Mariana Abreu, de campanhas da AI para o mundo lusófono.

‘Liberdade Já’

O caso motivou a criação da campanha “Liberdade Já”, com vídeos no YouTube e shows em Luanda, que pede a libertação imediata do grupo. Em um vídeo, escritores, jornalistas, estudantes e artistas pedem de Angola, Portugal e Brasil – entre eles – Chico César e Lourenço Mutarelli – dizem: “defendemos uma Angola onde pensar diferente não seja um crime”. Ainda se manifestaram Chico Buarque, Emicida, Maria Gadú e Gregorio Duvivier.

Também são realizadas vigílias para pressionar pela libertação dos presos em Portugal. Já em Luanda, as vigílias não ocorrem mais, depois que uma delas foi impedida por policiais, que apareceram diante da igreja com tanques de água, cachorros e bombas de gás lacrimogêneo, segundo o relato de Monica Almeida e outros presentes no local. Esses eventos foram classificadas como ilegais pelo governo.

Vigília pela libertação dos presos em Angola é realizada em Lisboa, Portugal (Foto: Ricardo Rodrigues da Silva/ Amnistia Internacional Portugal)Vigília pela libertação dos presos em Angola é realizada em Lisboa, Portugal (Foto: Ricardo Rodrigues da Silva/ Amnistia Internacional Portugal)

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