Oliver Sacks: leia trecho da autobiografia ‘Sempre em movimento’

Capa de 'Sempre em movimento', autobiografia de Oliver Sacks (Foto: Divulgação/Companhia das Letras)Capa de ‘Sempre em movimento’, autobiografia de

Oliver Sacks

(Foto: Divulgação/Companhia das Letras)

O neurologista e escritor best-seller britânico Oliver Sacks, que morreu neste domingo (30) aos  aos 82 anos, vítima de câncer, lançou neste ano sua autobiografia, “Sempre em movimento – Uma vida” (Companhia das Letras). Na obra, o autor e neurocientista que era descrito como “o aclamado poeta da medicina moderna” fala de sua carreira como médico e também sobre a homossexualidade e seu envolvimento com drogas (leia trecho abaixo).

“Quando eu tinha 12 anos, um professor bastante perspicaz anotou no seu relatório: ‘Sacks vai longe, se não for longe demais’, coisa que acontecia com frequência”, escreve ele no livro de memórias. “Quando menino, muitas vezes eu ia longe demais nas minhas experiências químicas, enchendo a casa com gases tóxicos; por sorte, nunca incendiei o lugar.”

Outros livros  de livros de sucesso como “Tempo de despertar” (1973), adaptado para o cinema em 1990 com Robin Williams e Robert De Niro, “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu” (1985) e “Um atropólogo em Marte” (1995).

Oliver Sacks nasceu em 1933, em Londres, em uma família de médicos e cientistas (a mãe era cirurgiã e o pai, clínico geral). Sacks formou-se em medicina em Oxford e depois se mudou para os Estados Unidos para fazer residência em São Francisco, na University of California (UCLA). Morava em Nova York desde 1965, onde trabalhou como neurologista.

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Na autobiografia “Sempre em movimento”, ele lembra um caso da infância. “Quando eu tinha 12 anos, um professor bastante perspicaz anotou no seu relatório: ‘Sacks vai longe, se não for longe demais’, coisa que acontecia com frequência”, escreve. “Quando menino, muitas vezes eu ia longe demais nas minhas experiências químicas, enchendo a casa com gases tóxicos; por sorte, nunca incendiei o lugar.”

Leia, abaixo, trechos de ‘Sempre em movimento’, autobiografia de Oliver Sacks.

Sobre a homossexualidade:

“O ano de 1951 foi movimentado e, em alguns aspectos, doloroso. Minha tia Birdie, que fora presença constante na minha vida, morreu no mês de março; ela morava conosco desde que eu nasci e amava incondicionalmente a todos nós. (Birdie era uma mulherzinha miúda e de inteligência modesta, a única em tanta desvantagem entre as irmãs e os irmãos da minha mãe. Eu nunca soube muito bem o que acontecera com ela quando pequena; falavam de uma lesão na cabeça quando bebê, mas também de uma deficiência congênita da tireoide. Nada disso tinha importância para nós; era a titia Birdie, parte essencial da família.) A morte de Birdie me afetou profundamente e talvez só então percebi como ela estava entrelaçada à minha vida, a todas as nossas vidas. Uns meses antes, quando consegui uma bolsa em Oxford, foi ela quem me entregou o telegrama, me abraçou e me deu os parabéns — derramando  algumas lágrimas também, pois sabia que isso significava que eu, o seu sobrinho mais novo, iria sair de casa.

Eu devia ir para Oxford no final do verão. Acabara de fazer dezoito anos, e meu pai pensou que era o momento de ter uma conversa de pai para filho, de homem para homem. Falamos  de dinheiro e mesadas — nada demais, pois meus hábitos eram muito frugais e minha única extravagância eram os livros. E então meu pai passou ao que realmente o preocupava.

‘Parece que você não tem muitas namoradas’, disse ele. ‘Você não gosta de garotas?’

‘Tudo bem com elas’, respondi, querendo que a conversa parasse por ali.

‘Prefere garotos, talvez?’, insistiu ele.

‘É, prefiro, mas é só uma sensação, nunca ‘fiz’ nada”, e então acrescentei, temeroso, ‘Não conte para mamãe: ela não aceitaria.’

Mas meu pai contou e, na manhã seguinte, ela desceu de cara muito fechada, uma cara que eu nunca tinha visto antes. ‘Você é uma abominação’, disse ela. ‘Quisera que você nunca tivesse nascido.’ Então saiu e passou vários dias sem falar comigo. Quando voltou a falar, não houve nenhuma menção ao que ela dissera (e nunca mais voltou ao assunto), mas alguma coisa mudara entre nós. Minha mãe, tão aberta e que me dava tanto apoio de inúmeras maneiras, era dura e inflexível nessa área. Leitora da Bíblia como meu pai, amava os Salmos e o Cântico de Salomão, mas vivia perseguida pelos versículos terríveis do Levítico: ‘Não te deitarás com um homem como se deita com uma mulher. É uma abominação’.

Meus pais, como médicos, tinham muitos livros de medicina, inclusive vários sobre ‘patologia sexual’, e aos doze anos de idade eu mergulhara em Krafft-Ebing, Magnus Hirschfeld e Havelock Ellis. Mas eu achava difícil sentir que tinha uma ‘condição’, que a minha identidade pudesse ser reduzida a um nome ou a um diagnóstico. Meus amigos na escola sabiam que eu era ‘diferente’, quando menos porque evitava festas que terminassem em afagos e amassos”.

Sobre o vício em drogas:

“Comecei a consumir mais drogas no meu início em Nova York, movido em parte pela desandada do caso com Karl, em parte porque o meu trabalho ia mal, e sentia que, para começo de conversa, nem devia ter escolhido a área de pesquisa. Em dezembro de 1965, eu passara a ligar para o serviço dizendo que estava doente, faltando dias seguidos ao trabalho. Tomava anfetaminas constantemente e comia muito pouco; emagreci tanto — quase  uarenta quilos em três meses — que mal conseguia suportar a minha imagem no espelho, de tão macilento que estava.

Na véspera do Ano-Novo, tive um súbito momento de lucidez no meio de um êxtase de  anfetamina e disse a mim mesmo: ‘Oliver, se você não procurar ajuda, não vai viver para ver outro Ano-Novo. É preciso alguma intervenção’. Sentia que havia problemas psicológicos muito profundos por trás da minha dependência e tendência autodestrutiva, e que, se não fossem tratadas, eu estaria sempre voltando às drogas e, mais cedo ou mais tarde, elas acabariam comigo.

Cerca de um ano antes, quando ainda estava em Los Angeles, Augusta Bonnard, uma amiga  a família que era psicanalista, sugerira que eu consultasse alguém. Relutante, fui ver o psicanalista que ela recomendou, um certo dr. Seymour Bird. Quando ele perguntou: ‘Bom, o que o traz aqui, dr. Sacks?’, respondi ríspido: ‘Pergunte à dra. Bonnard — foi ela que me

encaminhou’.

Não era apenas uma resistência minha a todo esse lance de psicanálise; eu vivia chapado a maior parte do tempo. A pessoa pode fi car muito ágil e loquaz na base de anfetamina, e as coisas parecem avançar com uma rapidez incrível, mas tudo se desvanece sem deixar nenhuma marca.

Foi totalmente diferente no começo de 1966, quando eu mesmo procurei um analista em Nova York, sabendo que precisaria de auxílio para sobreviver. De início desconfi ei do dr. Shengold, pois ele era muito jovem, pouco mais velho do que eu. Pensei: que experiência de vida, que conhecimento, que capacidade terapêutica vai ter alguém que é praticamente da minha idade? Logo percebi que ele era um indivíduo de competência e caráter de fato excepcionais, alguém capaz de atravessar as minhas defesas sem se deixar desviar pela minha loquacidade, alguém ciente de que eu conseguiria aguentar e me benefi ciar com uma análise intensiva e os sentimentos intensos e ambíguos presentes no mecanismo de transferência”.

 

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