Leia trecho de ‘Millennium 4 – A garota na teia de aranha’

Capa de 'Millennium 4 – A garota na teia de aranha', de David Lagercrantz (Foto: Divulgação/Companhia das Letras)Capa de ‘Millennium 4 – A garota na teia de aranha’

(Foto: Divulgação/Companhia das Letras)

A série best-seller “Millennium”, do escritor e jornalista sueco Stieg Larsson, é um dos maiores fenômenos recentes da literatura internacional. Larsson morreu aos 50 anos em 2004, vítima de ataque cardíaco, antes da publicação e do sucesso dos três volumes que havia deixado escritos.

Agora, 11 anos depois da morte do criador da trama original, sai o aguardado “Millennium 4 – A garota na teia de aranha” (leia trechos abaixo)

Quem assina a obra, que chegou às livrarias nesta quinta-feira (27), é o escritor e jornalista David Lagercrantz, até aqui conhecido como biógrafo do jogador de futebol Zlatan Sbrahimovic. Lagercrantz foi escolhido pelo pai e pelo irmão de Stieg Larsson, herdeiros do escritor.

A nova história, no entanto, não é baseada em nenhum manuscrito deixado por Larsson. Os direitos foram vendidos para 43 editores (em 45 línguas). No total, 26 editoras publicaram “Millennium 4” simultaneamente. A primeira tiragem é de 2,7 milhões de cópias. No Brasil, o sai pela Companhia das Letras.

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Os três títulos anteriores – “Os homens que não amavam as mulheres” (2005), “A menina que brincava com fogo” e “A rainha do castelo de ar” – venderam mais de 80 milhões de cópias até hoje. Na Suécia, foram todos adaptados para o cinema, e o primeiro deles ganhou versão em Hollywood em 2011, dirigida por David Fincher e estrelada por Rooney Mara e Daniel Craig.

Em recente entrevista coletiva em Estocolmo, capital da Suécia, para lançar “Millennium 4”, Lagercrantz comentou que escreveu a obra em estado “maníaco-depressivo”. “Estava aterrorizado, eu dizia há muito tempo que era bipolar, em um estado latente, e acredito que foi uma coisa boa para escrever este livro”, contou o autor.

Em “A garota na teia da aranha”, ele dá continuidade à saga protagonizada por Mikael Blomkvist, também jornalista e dono da fictícia revista “Millennium”, que está em crise, e pela hacker Lisbeth Salander, que na nova trama comete a imprudência de invadir computadores da NSA, a temida agência de segurança americana.

Blomkvist e Lisbeth são os protagonistas das histórias. Eles se juntam para investigar e solucionar crimes.

O escritor e jornalista sueco David Lagercrantz, autor de 'Millennium 4 – A garota na teia de aranha', durante entrevista coletiva em Estocolmo nesta quarta-feira (26), para lançar o novo volume criado a partir da trilogia original best-seller de Stieg Larsson (Foto: Fredrik Sandberg/Reuters)O escritor e jornalista sueco David Lagercrantz, autor de ‘Millennium 4 – A garota na teia de aranha’, durante entrevista coletiva em Estocolmo nesta quarta-feira (26), para lançar o novo volume criado a partir da trilogia original best-seller de Stieg Larsson (Foto: Fredrik Sandberg/Reuters)

Leia, abaixo, trechos de ‘Millennium 4 – A garota na teia da aranha’:

Capítulo 2: 20 de novembro

“Mikael Blomkvist tinha dormido apenas duas horas porque havia passado boa parte da noite lendo um romance policial escrito por Elizabeth George. Com certeza não fora uma decisão sensata. De manhã, o guru do jornalismo, Ove Levin, da Serner Media, apresentaria novas diretrizes para a ‘Millennium’, e Mikael precisava estar descansado e a postos.

No fim de semana, tinha se questionado se não estaria na hora de mudar de área, uma ideia um tanto drástica para um homem como Mikael Blomkvist. A ‘Millennium’ era sua vida e sua paixão, e sem dúvida boa parte das coisas mais interessantes e mais intensas que ele tinha vivido fora na revista. Mas nada dura para sempre, talvez nem mesmo seu amor à ‘Millennium’, e além do mais aquela não era uma época muito boa para ser dono de uma revista de jornalismo investigativo.

Todas as publicações com aspirações grandiosas estavam sofrendo uma verdadeira sangria, e lhe ocorreu que a visão que ele tinha da ‘Millennium’ talvez fosse bela e verdadeira quando vista de uma perspectiva mais nobre, mas que ela não garantia, necessariamente, a sobrevivência da revista. Mikael Blomkvist entrou na sala, bebericou seu café e olhou para o lago de Riddarfjärden. Lá fora caía uma tempestade.

(…)

Estava claro, disse Levin, que a revista devia continuar com suas investigações profundas,  seu estilo literário e viés social. Mas nem todos os artigos precisavam abordar fraudes econômicas, injustiças e escândalos políticos. Também era possível fazer um jornalismo brilhante com um toque mais glamoroso — escrevendo sobre celebridades e estreias —, afirmou Levin enquanto falava com verdadeira paixão sobre as americanas ‘Vanity Fair’ e ‘Esquire’, sobre Gay Talese e seu clássico perfil de Sinatra, ‘Frank Sinatra está resfriado’, e sobre Norman Mailer, Truman Capote, Tom Wolfe e outros.

Mikael Blomkvist não teve objeções a fazer, pelo menos não naquele momento. Seis meses antes havia escrito uma longa reportagem sobre a indústria dos paparazzi e, desde que encontrasse uma abordagem séria e adequada, imaginava-se capaz de retratar qualquer pessoa, por mais insignificante que ela fosse. Costumava dizer que não era o assunto que definia o bom jornalismo; era a abordagem. Não, sua objeção tinha a ver com o que havia percebido nas entrelinhas: que aquele era o início de uma ameaça generalizada, e que a Millennium corria o risco de se transformar em mais uma revista qualquer do grupo, ou seja, uma publicação sujeita a todo tipo de interferência, até enfim se tornar lucrativa — e totalmente insípida.”


Capítulo 3: 20 de novembro

“Em princípio, outra garota poderia ter ido ao apartamento de Linus naquele dia. Era possível, embora não provável. Afinal, quem além de Lisbeth Salander chegaria daquele jeito, já entrando, sem nem olhar no rosto da pessoa e a mandaria embora da própria casa para vasculhar o conteúdo dos computadores, concluindo a visita com a frase ‘Não tenho a menor  intenção de ir para a cama com você’? Só Lisbeth. Quanto a ‘Píppi’, esse nome era a cara dela.

Na porta do apartamento de Lisbeth, na Fiskargatan, havia a identificação ‘V. Kulla”, o nome da casa de Píppi Meialonga, e Mikael entendia muito bem por que ela não deixava ali seu verdadeiro nome. Ele seria facilmente identificado, pois estava associado a tumultos e escândalos. Mas onde ela morava agora? Não era a primeira vez que Lisbeth desaparecia. Mesmo assim, desde o dia em que Mikael havia batido na porta do apartamento dela, na Lundagatan, e a insultado por ter escrito um relatório bem completo sobre a vida dele, os dois nunca haviam passado tanto tempo sem contato, o que era um pouco estranho, pois apesar de tudo Lisbeth era sua… Sua o quê, afinal? Dificilmente uma amiga. Amigos se encontram. Amigos não desaparecem sem deixar rastros. Amigos não mandam notícia invadindo computadores.

Mesmo assim, Mikael estava ligado a Lisbeth, e, acima de tudo, não havia como escapar da preocupação que tinha com ela. O ex-tutor de Lisbeth, Holger Palmgren, costumava dizer que ela sabia cuidar de si mesma. Apesar da infância terrível que tivera, ou talvez justamente por causa de tudo que havia lhe acontecido, Lisbeth tinha se transformado em uma sobrevivente. Impossível negar o quanto de verdade havia nisso. Praticamente não existiam garantias para uma garota com um passado como o dela e com uma habilidade ímpar de fazer inimigos. Talvez Lisbeth tivesse mesmo perdido o rumo, como Dragan Armanskij havia dado a entender quando ele e Mikael almoçaram no Gondolen cerca de seis meses antes. Era um sábado de primavera e Dragan tinha insistido em pagar a cerveja, a aquavit e tudo o mais. Mikael teve a impressão de que Dragan estava precisando desabafar, e, mesmo que oficialmente os dois estivessem se encontrando na condição de velhos amigos, não havia dúvida de que Dragan, na verdade, queria falar sobre Lisbeth e entregar-se a um pouco de sentimentalismo regado a álcool.”

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