‘Homem irracional’: Woody Allen faz ‘autoplágio’, mas humor negro agrada

Woody Allen se repete. Woody Allen bom era o de antigamente. Woody Allen já deu. Se aposenta, Woody Allen. Não é raro que uma vez por ano, a cada lançamento, o diretor e roteirista seja acusado de plagiador de si mesmo e convocado a parar. Assim aconteceu com “Homem irracional”, que estreia nesta quinta-feira (27) no Brasil. Até porque ele se repete mesmo. E ele já foi melhor mesmo. Mas o que importa é se o filme vale a pena – e vale.

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Várias das obsessões e dos ingredientes fundamentais da filosofia de Woody Allen estão aqui: a falta de um sentido para a vida; o desespero diante da consciência da morte; a infidelidade conjugal; as questões morais e éticas envolvidas num crime premeditado; e o papel subestimado do acaso e da sorte. Não espere, portanto, algo na linha de “Meia-noite em Paris” (2011). Ali, o negócio era comédia e amor. Aqui, comédia, assassinato e suspense.

A trama de “Homem irracional” é bastante simplória, mas os diálogos irônicos e os protagonistas compensam. O personagem-título é Joaquin Phoenix, muito carismático e muito acima do peso.

É um professor de filosofia problemático e deprimido que se muda para uma cidade pequena para dar aulas na universidade local. O sujeito é um clichê ambulante do pessimismo que, sem querer querendo, seduz professoras e alunas, inclusive a Emma Stone. A certa altura, acontece uma morte, e “Homem irracional” vira suspense, mas sem abandonar o humor negro.

Quem acompanha Woody Allen viu coisa parecida em “Crimes e pecados” (1989), “Ponto final – Match Point” (2005) e “O sonho de Cassandra” (2007). A ideia era mostrar como personagens imbecis e egoístas se comportavam depois de cometer o crime (supostamente) perfeito: vão sofrer, vão pagar ou, já que “Deus não existe”, a Justiça fará a parte dela?

“Homem irracional” oferece uma resposta. Até que se chegue a ela, vemos Joaquin Phoenix dando diferentes variações de uma crença apresentada por Woody Allen com frequência. “O único aprendizado absoluto viável ao homem é que a vida não tem qualquer sentido”, dizia ele em “Hannah e suas irmãs” (1986), citando Liev Tolstói. O novo protagonista busca justamente esta razão para seguir adiante.

A do próprio Woody Allen é continuar, obsessivamente, a lançar um filme por ano. Alguns são descartáveis. Não é o caso de “Homem irracional”.

Emma Stone e Joaquin Phoenix em 'O homem irracional', de Woody Allen (Foto: Divulgação)Emma Stone e Joaquin Phoenix em ‘O homem irracional’, de Woody Allen (Foto: Divulgação)

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