Premiado em Gramado, curta baiano custou R$ 5 mil: ‘que seja inspiração’

Atriz Luciana Fernandes e Max Gaggino com kikito adquirido em Gramado (Foto: Henrique Mendes / G1)Atriz Luciana Fernandes e Max Gaggino com kikito adquirido em Gramado (Foto: Henrique Mendes / G1)

Italiano de sangue egípcio e gingado baiano. Esse é Max Gaggino, diretor de cinema que há dois dias trouxe para o estado um dos kikitos do  Festival de Gramado, no Rio Grande do Sul. Com influências de várias culturas e raças, foi premiado por contar a história de uma muçulmana refugiada na Bahia. O enredo ficcional, desenrolado em curta-metragem, foi construído no bairro da Federação, em Salvador. A inspiração inicial estava na família, que entre a África e a Europa construiu uma história de amor e convívio com as diferenças.

Casado com uma judia do Egito, o avô de Gaggino precisou deixar o país com a esposa em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, um dos conflitos históricos vividos entre israelenses e egípcios. O casal se refugiou na Itália, onde formou família. Ocorrida há 48 anos, a história ficou na lembrança do neto, que desde a imersão na arte do cinema tem dedicado a carreira para desenvolver enredos que destaquem o cruzamento de culturas.

Haram foi produzido na Federação, em Salvador (Foto: Divulgação)Haram foi produzido na Federação, em Salvador

(Foto: Divulgação)

Da inspiração, surgiu o “Haram”. Concebido e montado em oito meses, gravado em dois dias e com custos de produção orçados em R$ 5 mil, o curta ficou entre os 28 vencedores da 43ª edição do Festival de Cinema.

A produção levou o kikito de Prêmio Especial do Júri. No enredo, uma mulher muçulmana foge na guerra na Palestina e, com o marido, se refugia em Salvador. No país, entre as janelas de um cortiço, conhece uma menina de dez anos. De realidades culturais diferentes, desenvolvem uma relação de amizade guiada pela música.

Formado na Inglaterra, o diretor responsável pelo curta tem dez anos de carreira, sendo que mora há oito na capital baiana. Apaixonado pela Bahia, aliou a inspiração do filme com as experiências registradas em Salvador. “Meu avô faleceu esse ano e resolvi escrever um livro sobre ele. Mas queria fazer alguma coisa relacionada ao audiovisual e relacionada a minha experiência em Salvador. Então, decidi juntar as duas experiências”, diz.

Dos países que conheceu, Gaggino diz que encontrou no Brasil a inspiração para a sua arte. Chegou a morar no Rio de Janeiro, mas na Bahia se sentiu em casa. “Parte da minha família é egípcia e eu cresci aprendendo muito sobre a matriz africana: a culinária, a cultura, a arte. Por outro lado, fui criado na itália. Lá já era outro tipo de educação, outro tipo de cultura. Chegando em Salvador, na hora que cheguei parecia que eu já conhecia”, revela.

Gaggino diz que Salvador tem uma encantadora resistência ao progresso. “Pra muitas pessoas é ruim, mas é a gasolina dos meus filmes. Aqui as pessoas ainda conseguem falar. Ainda conseguem parar, colocar a cadeira em frente de casa e conversar”, defende. Por isso, é agradecido. “Salvador foi a cidade que me adotou e eu nunca vou abrir mão dela”, diz.

Luciana e Max durante a premiação, em Gramado (Foto: Divulgação)Max e Luciana durante a premiação, em Gramado

(Foto: Divulgação)

Processo de produção

O curta que levou o Prêmio Especial do Júri encantou os jurados e o público por duas grandes motivações, especula Max Gaggino. “Se sensibilizaram por dois motivos principais: primeiramente pela temática de uma muçulmana, que veste burca em Salvador, que é algo fora do normal. Segundo, por causa da pequena Maiane [criança de 10 anos], que faz o personagem de Felícia”, detalha.

A muçulmana, chamada Salwa, é vivida pela atriz baiana Luciana Fernandes. “A característica física dela lembrava muito a mulher árabe. Eu precisava de uma atriz que soubesse se comunicar atráves dos olhos”, diz Gaggino sobre o convite. Já a criança de dez anos foi interpretada pela jovem Maiane Cassemiro. “É uma menina que mora no Nordeste de Amaralina [na periferia da capital] que passou numa seleção entre 50 meninas nas escolas públicas de Salvador. Engraçado ressaltar que era a única que não fazia teatro. Tem um talento natural incrível. Tocou o público”, acrescentou.

Eu quero que seja inspiração para as pessoas que querem chegar em Gramado e ainda não chegaram. Eu sei o que é isso. Foi uma luta que durou dez anos.
Max Gaggino,

diretor de cinema

Para participar do filme, Fernandes afirma que durante um mês decidiu circular por Salvador com uma burca. Fazia compras e buscava a filha na escola com a indumentária. Apenas os olhos, ficavam à vista. “A primeira vez que esse véu caiu sem querer num lugar, minha reação foi imediata. Parece que fiquei nua. Me cobri rapidamente. Então, eu acho que isso elas sentem”, disse sobre a imersão na personagem.

Com o kikito em mãos, atriz considera que o prêmio é uma vitória da classe artística do estado. “Eu me formei em artes cênicas na UFBA e o kikito é um sonho para qualquer pessoa dessa área. Então, me sinto privilegiada e muito feliz por poder representar toda essa classe, que batalha muito para chegar lá. Eu não estava sozinha [enquanto atriz na premiação], eu estava com todo mundo [todos os atores do estado] perto de mim”, diz.

Para Max Gaggino, mais do que uma vitória da Bahia, a conquista do kikito é uma vitória dos brasileiros. “Se fala muito em cinema baiano. Eu acho que a gente tem que tomar cuidado quando a gente fala em cinema baiano, porque acho que isso acaba isolando um pouco a gente do resto do Brasil e coloca a gente numa posição de ‘vitimismo’. Eu acho que tem cinema feito na Bahia, que acaba sendo cinema baiano, mas é cinema brasileiro, como o cinema feito no Rio ou em São Paulo. Aqui, a gente não deve nada a ninguém”, defende.

Kikito, estatueta levada pelos vencedores do Festival de Gramado (Foto: Divulgação)Kikito, estatueta levada pelos vencedores do

Festival de Gramado (Foto: Divulgação)

Perspectivas

Mesmo diretor do documentário “Menino Joel” e do filme “Contracorrente”, Gaggino vive a expectativa de produzir um longa-metragem, que ainda guarda em segredo. Desta vez, espera ter o apoio de algum edital de apoio à cultura. Ele detalha que “Haram” foi produzido com verbas próprias, cerca de R$ 5 mil, e concorreu com curtas que tiveram patrocínio de até R$ 120 mil.

“Espero que eu possa ganhar um edital e produzir esse longa-metragem gravado em Salvador, com equipes de técnicos baianos e atores baianos. É minha maior vontade,  porque me sinto pronto para esse passo. Estou cansado de ficar pobre, gastando meu dinheiro para fazer filmes. Acho que não é assim que se faz cinema. É assim que se começa, de repente. Acho que o edital de fomento seja a única forma de mostrar realmente o que eu sei fazer”, conta.

Apesar da falta de apoio, Gaggino espera, por meio do prêmio, inspirar novos diretores. “Eu quero que seja inspiração para as pessoas que querem chegar em Gramado e ainda não chegaram. Eu sei o que é isso. Foi uma luta que durou dez anos. Conseguir falar naquele púlpito, como falei. Por isso, o discurso que fiz foi mais pessoal, mais sentimental, justamente pelo fato de inspirar jovens que estão pensando em fazer cinema e acham que é um coisa tão difícil”, afirma

Premiação

O filme “Ausência” foi o grande vencedor do Festival de Cinema de Gramado, realizado na serra gaúcha. O anúncio dos ganhadores foi feito na noite de sábado (15) em cerimônia no Palácio dos Festivais (confira a lista completa abaixo). Foram distribuídos kikitos em 28 categorias para filmes que competiram nas mostras de longas-metragens, nacionais e estrangeiros, além de curtas brasileiros, entre dramas, comédias e documentários.

Equipe de Ausência recebe o prêmio de Melhor Filme (Foto: Edison Vara/Agência PressPhoto)Equipe de Ausência recebe o prêmio de melhor

filme (Foto: Edison Vara/Agência PressPhoto)

Além de conquistar o prêmio de melhor filme nacional, “Ausência” rendeu o kikito de melhor diretor a Chico Teixeira, que não compareceu por estar em tratamento contra um câncer, e foi contemplado com mais dois troféus, de melhor roteiro (Chico Teixeira, César Turim e Sabina Anzuategui) e melhor trilha musical (Alexandre Kassin).

Mariana Ximenes, uma das principais atrações do Festival de Cinema em 2015, levantou o kikito de melhor atriz. Entre os coadjuvantes, Fernanda Rocha saiu premiada por “O Último Cine Drive-In” e Otávio Muller, que esteve em Gramado, mas precisou voltar ao Rio de Janeiro por conta de compromissos, conquistou a estatueta dourada pela interpretação em “Um Homem Só” (RJ).

A mostra latina, que também reunia sete concorrentes, premiou cinco títulos. O argentino “La Salada”, de Juan Martin Hsu, foi eleito o melhor filme. Mas foi o mexicano “En La Estancia” que levou o maior número de troféus , com os kikitos de melhor ator, para Gilberto Barraza, e roteiro, assinado por Carlos Armella, além do Prêmio Dom Quixote, uma honraria da Federação Internacional de Cineclubes (FICC).

 

Mariana Ximenes levou o kikito de melhor atriz (Foto: Edson Vara/Pressphoto)Mariana Ximenes levou o kikito de melhor atriz

(Foto: Edson Vara/Pressphoto)

As atrizes Claudia Muñiz, Marianela Pupo e Maribel García Garzón dividiram o prêmio pelas interpretações no cubano “Venecia”, que ganhou também os kikitos de melhor fotografia.

Entre os curtas, os kikitos foram bem divididos. “O Corpo”, de Lucas Cassales, que já havia dominado a premiação dos curtas gaúchos, faturou o título de melhor filme. O diretor também gaúcho Bruno Carboni, venceu em sua categoria por “O Teto Sobre Nós”.

Ausente na cerimônia, o conhecido Matheus Nachtergaele foi eleito o melhor ator por “Quando Parei de Me Preocupar Com Canalhas”. Giuliana Maria levou para casa o Kikito de melhor atriz pelo papel em “Herói”.

Além da entrega dos troféus, um total de R$ 280 mil foi distribuído aos principais vencedores. A iniciativa, lançada em Gramado na edição do ano passado, serve como uma espécie de incentivo à produção cinematográfica. Apesar da crise, a organização do Festival de Cinema não abriu mão do prêmio em dinheiro.

O evento que durou nove dias ainda homenageou quatro personalidades do cinema. As distinções foram conferidas para Marília Pêra (Troféu Oscarito), Daniel Filho (Troféu Cidade de Gramado), Fernando ‘Pino’ Solanas (Kikito de Cristal) e Zelito Viana (Troféu Eduardo Abelin).

Confira os vencedores

Curta-metragem brasileiro

Melhor Desenho de Som: Tiago Bello, por “O Teto Sobre Nós”

Melhor Trilha Musical: Felipe Junqueira e Samuel Ferrari, por “Miss & Grubs”

Melhor Direção de Arte: Welton Santos, por “Miss & Grubs”

Melhor Montagem: Chico Lacerda, por “Virgindade”

Melhor Fotografia: Arno Schuh, por “O Corpo”

Melhor Roteiro: Tiago Vieira e Fabrício Ide, por “Quando parei de me preocupar com canalhas”

Melhor Atriz: Giuliana Maria, por “Herói”

Melhor Ator: Matheus Nachtergaele, por “Quando parei de me preocupar com canalhas”

Prêmio Especial do Júri: “Haram”

Melhor Filme Júri Popular: “Bá”, de Leandro Tadashi

Melhor Diretor: Bruno Carboni, por “O Teto Sobre Nós”

Melhor Filme: “O Corpo”, de Lucas Cassales

Prêmio Canal Brasil: “Dá Licença de Contar”, de Pedro Serrano

Júri da Crítica – Curta-Metragem: “Dá Licença de Contar”, de Pedro Serrano

Longas estrangeiros

Melhor Fotografia: Nicolas Ordoñez, por “Venecia”

Melhor Atriz: Claudia Muñiz, Marianela Pupo e Maribel García Garzón, por “Venecia”

Melhor Roteiro: Carlos Armella, por “En La Estancia”

Melhor Ator: Gilberto Barraza, por “En La Estancia”

Melhor Filme Júri Popular: “Ella”, de Libia Stella Gómez

Melhor Diretor: Kiki Alvarez, por Venecia

Melhor Filme: “La Salada”, de Juan Martin Hsu

Prêmio Dom Quixote: “En La Estancia”, de Carlos Armella

Júri da Crítica – Longa Estrangeiro: “La Salada” de Juan Martin Hsu

Longas Brasileiros

Melhor Desenho de Som: “Ponto Zero”

Melhor Atriz Coadjuvante: Fernanda Rocha, por “O Último Cine Drive-In”

Melhor Ator Coadjuvante: Otavio Muller, por “Um Homem Só”

Melhor Trilha Musical: Alexandre Kassin, por “Ausência”

Melhor Direção de Arte: Maíra Carvalho, por “O Último Cine Drive-In”

Melhor Montagem: Frederico Brioni, por “Ponto Zero”

Melhor Fotografia: Adrian Tejido, por “Um Homem Só”

Melhor Roteiro: Chico Teixeira, César Turim e Sabina Anzuategui, por “Ausência”

Melhor Atriz: Mariana Ximenes, por “Um Homem Só”

Melhor Ator: Breno Nina, por “O Último Cine Drive-In”

Melhor Filme Júri Popular: “O Outro Lado do Paraíso”, por André Ristum

Melhor Diretor: Chico Teixeira, por “Ausência”

Melhor Filme: “Ausência”, de Chico Teixeira

Júri da Crítica – Longa Brasileiro: “O Último Cine Drive-In”, de Iberê Carvalho

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