Gramado amplia presença de latinos, ignora ineditismo e projeta 2016

Festival de Cinema de Gramado RS (Foto: Edson Vara/Pressphoto)Festival de Cinema de Gramado RS (Foto: Edson Vara/Pressphoto)

Encerrado no sábado (15), o Festival de Cinema de Gramado  fez a entrega dos kikitos em 28 categorias divididas em longas-metragens nacionais e estrangeiros, além dos curtas brasileiros. Mais de 6 mil pessoas estiveram no Palácio dos Festivais, onde os filmes foram exibidos durante os nove dias de evento. Concluída a 43ª edição, os organizadores olham para trás, avaliam o que deu certo e o que não funcionou tão bem e já projetam o futuro: 2016 já tem data marcada no calendário.

Nas ruas da cidade da Serra do Rio Grande do Sul, o clima esquentou aos poucos ao longo da semana – ironicamente, conforme a temperatura baixava. Nos primeiros dias, o movimento foi baixo e os termômetros marcavam cerca de 30ºC, frustrando turistas que encheram as malas de agasalhos para aquecerem-se no conhecido frio de agosto gaúcho.

João Pedro Till Rubens Ewald Filho Marcos Santuario Eva Piwowarski coletiva gramado rs (Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto)Curadores do Festival de Gramado avaliam edição

de 2015  (Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto)

Mas no segundo fim de semana, que culminou com a cerimônia de premiação, o que se viu foram hotéis lotados e gente circulando para todos os lados dia e noite, apesar da temperatura próxima a 17ºC.  O público lotou os arredores da Rua Coberta, onde fica o tapete vermelho, na expectativa de verem de perto algumas celebridades que por lá passaram como Vladimir Brichta, Mariana Ximenes e Matheus Nachtergaele.

A passagem de famosos, no entanto, tem diminuído a cada ano em Gramado. Não que a presença deles não seja importante para o Festival de Cinema. Mas o foco é outro, segundo os organizadores.

“Seria ótimo para a Rua Coberta, para o público, para a mídia, como era no passado, lotar um avião com artistas renomados, mas sem participação efetiva aqui. Ficamos centrados naquilo que realmente interessa, na projeção dos filmes”, sustenta João Pedro Till, presidente da Gramadotur, autarquia da prefeitura responsável pela realização do evento. “Abrimos mão de trazer artistas que poderiam dar uma gritaria intensa no tapete vermelho, mas nosso sentido é lá, no Palácio dos Festivais”, completa.

Palácio dos festivais é a sede do Festival de Cinema de Gramado, RS (Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto)Palácio dos festivais é a sede do Festival de

Gramado (Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto)

Muito também se deve à crise financeira, evidente especialmente no Rio Grande do Sul no último mês. O orçamento da edição de 2015 não sofreu cortes, ficando em torno de R$ 3 milhões, bem próximo à conta do ano passado. A dificuldade mesmo foi obter patrocínio para equilibrar as finanças.

“Alguns parceiros reduziram sua cota de participação, devido a essa crise financeira. E no ano que vem ainda tem Olimpíada”, comenta Till.

Além da entrega dos troféus, um total de R$ 280 mil foi separado para premiar os principais vencedores. A iniciativa, lançada na edição do ano passado, serve como uma espécie de incentivo à produção cinematográfica. Apesar da crise, a organização do Festival de Cinema não abriu mão do prêmio em dinheiro.

Destaques e críticas

Um dos pontos de destaque em Gramado em 2015 foi a seleção de títulos latinos: sete países diferentes foram representados na mostra, incluindo México, Costa Rica e Cuba, e não limitando-se apenas a Argentina e Uruguai.

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“Está se abrindo um leque, que era um velho sonho de Gramado, e finalmente está  começando a florescer. Ainda temos um longo caminho pela frente”, analisa o crítico Rubens Ewald Filho, que integra o trio de curadores ao lado da argentina Eva Piwowarski e o jornalista gaúcho Marcos Santuario, sobre a força dos latinos na serra gaúcha.

Entre as críticas, as principais foram em relação ao critério de ineditismo. Dos sete longas-metragens brasileiros, apenas três estrearam em Gramado. O critério não está no regulamento, mas foi discutido por jornalistas e curadores.

“Se a gente apostasse no ineditismo, teriam sido vistos pelo menos quatro filmes de qualidade muito duvidosa.  A gente tem de lutar pela qualidade e uma coisa do cinema brasileiro, que é muito mais importante, é termos bons filmes que morrem na praia. A gente está tentando dar oxigênio a esses filmes”, diz Rubens Ewald Filho. “Eu acho o ‘inédito’ um mito. É muito fácil um filme morrer num festival, não?  Acho que isso é um mito que a imprensa insiste em atacar”, completa ele.

O regulamento também foi questionado por conta da retirada do longa-metragem “Que Horas Ela Volta?”, cuja protagonista é Regina Casé. Elogiado, o filme de Anna Muylaert se destacou na primeira noite em Gramado.

Premiada nos festivais de Sundance e Berlim, a produção integrava a mostra competitiva de longas nacionais, mas precisou ser retirada na última hora por conta de uma pré-estreia marcada em São Paulo, o que não é permitido pelo regulamento do Festival de Gramado. Foi exibido apenas como hors concours, na abertura do evento.

“Não temos culpa nenhuma disso. Eles [produção do filme] não leram o regulamento. Por favor, leiam o regulamento”, afirmou Rubens Ewald Filho. “O regulamento é revisto, ano a ano”, amenizou Marcos Santuario, prometendo fazer isso, mais uma vez, para a próxima edição.

Sobre a edição de 2016 do Festival de Cinema, o que se sabe é que já tem data marcada: será de 26 de agosto a 3 de setembro.

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